{"id":2063,"date":"2022-04-10T11:02:07","date_gmt":"2022-04-10T14:02:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2063"},"modified":"2022-04-10T11:02:07","modified_gmt":"2022-04-10T14:02:07","slug":"liberdade-e-responsabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/liberdade-e-responsabilidade\/","title":{"rendered":"Liberdade \u00e9 responsabilidade"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O franc\u00eas Jean-Paul Sartre, o fil\u00f3sofo existencialista, o fil\u00f3sofo da liberdade, veio ao Brasil na d\u00e9cada de 1960, passou por Bras\u00edlia e foi tema de uma cr\u00f4nica hil\u00e1ria de Nelson Rodrigues. Havia gente at\u00e9 no lustre para ver o c\u00e9lebre visitante em uma palestra. Segundo Nelson, Sartre olhava a todos com desprezo, como se dissesse: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o uns cretinos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A certa altura, algu\u00e9m trouxe um balde de jabuticabas. Sartre come\u00e7ou a degustar as frutinhas pretas e a mirar para elas com o mesmo desd\u00e9m, como se comentasse: \u201cVoc\u00eas tamb\u00e9m s\u00e3o umas cretinas\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sartre marcou profundamente o s\u00e9culo 20, dos beatniks aos punks, dos movimentos de libera\u00e7\u00e3o sexual aos movimentos pelos direitos da mulher. De tr\u00e1s de tudo que envolve revolta do indiv\u00edduo e luta de emancipa\u00e7\u00e3o dos tempos modernos e p\u00f3s-modernos paira o fantasma de Sartre.<\/p>\n<p>O que fez esse homem baixinho, m\u00edope, sempre vestido com ternos desleixados, despertar o enlevo nas mulheres e parecer t\u00e3o sedutor a um s\u00e9culo povoado de tantas pessoas excepcionais? A resposta est\u00e1 na palavra liberdade: \u201cUm homem n\u00e3o \u00e9 nada se n\u00e3o for um contestador\u201d, escreveu o fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Segunda Guerra Mundial escancarou o nada, o desamparo e o absurdo da vida. \u00c9 desse solo destro\u00e7ado que emerge o existencialismo, o movimento de revolta contra os sistemas abstratos, a hipocrisia e os grandes ideais. O existencialismo \u00e9 a filosofia colado no corpo. Mesmo acuado na situa\u00e7\u00e3o mais opressiva, sempre \u00e9 poss\u00edvel realizar um gesto que afirme a liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A filosofia da liberdade \u00e9, essencialmente, uma filosofia da a\u00e7\u00e3o: \u201cO sil\u00eancio \u00e9 reacion\u00e1rio\u201d, provocava Sartre. O sucesso ou o fracasso n\u00e3o interessam para a liberdade: o essencial \u00e9 a escolha: \u201cA vida de um escravo que ser rebele e morre no curso da subleva\u00e7\u00e3o \u00e9 uma vida livre\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa paix\u00e3o pela liberdade fez com que Sartre fosse confundido com um porra-louca pelos que n\u00e3o leram ou s\u00f3 ouviram falar de sua obra. Mas ele escreveu um livro, sob o t\u00edtulo O existencialismo \u00e9 um humanismo, para refutar as cr\u00edticas. Para Sartre, era exatamente o contr\u00e1rio do que diziam os detratores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Liberdade n\u00e3o \u00e9 fazer tudo o que quiser: liberdade \u00e9 assumir a responsabilidade por nossas decis\u00e3o, que s\u00e3o sempre limitadas por circunst\u00e2ncias ou situa\u00e7\u00f5es. N\u00f3s estamos condenados a sermos livres, quer dizer, estamos condenados a sermos respons\u00e1veis pelos nossos atos e por toda a humanidade: \u201cEscolher ser isto ou aquilo \u00e9 afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos \u00e9 sempre o bom, e n\u00e3o pode ser bom para n\u00f3s sem que o seja para todos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitas pessoas acreditam que ao agirem s\u00f3 implicam nisso a si pr\u00f3prias, e quando se lhes diz: \u201ce se toda gente fizesse assim?\u201d, elas d\u00e3o de ombros e respondem: \u201cnem toda a gente faz assim\u201d. Sartre comenta: \u201cOra, a verdade \u00e9 que devemos perguntar-nos sempre: o que aconteceria se toda gente fizesse o mesmo?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essas evoca\u00e7\u00f5es me vieram ante a observa\u00e7\u00e3o das barbaridades que se cometem, atualmente, em nome da liberdade. Esqueci muitas coisas que li de Sartre, mas uma frase ficou colado a meu corpo: liberdade \u00e9 igual a responsabilidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; O franc\u00eas Jean-Paul Sartre, o fil\u00f3sofo existencialista, o fil\u00f3sofo da liberdade, veio ao Brasil na d\u00e9cada de 1960, passou por Bras\u00edlia e foi tema de uma cr\u00f4nica hil\u00e1ria de Nelson Rodrigues. Havia gente at\u00e9 no lustre para ver o c\u00e9lebre visitante em uma palestra. 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