{"id":2053,"date":"2022-04-06T11:14:24","date_gmt":"2022-04-06T14:14:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2053"},"modified":"2022-04-06T11:14:24","modified_gmt":"2022-04-06T14:14:24","slug":"jardim-da-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/jardim-da-poesia\/","title":{"rendered":"Jardim da poesia"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto o mundo explode, recebi de empr\u00e9stimo uma encomenda valiosa: o livro <i>Confiss\u00f5es de jardineiro<\/i>, do mineiro Alexandre Heilbuth. Ela faz do jardim um mundo em torno do qual tudo gravita por meio de contempla\u00e7\u00e3o e de escuta atentas. A apresenta\u00e7\u00e3o, a introdu\u00e7\u00e3o e os poemas v\u00eam temperados por um delicado senso de humor e de autoironia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com um grande equ\u00edvoco, afirma o autor. A primeira vez que o levaram \u00e0 escola, disseram que eu ia para o \u201cjardim\u201d. L\u00e1 chegando procurou as \u00e1rvores, as flores e as borboletas, mas n\u00e3o encontrou nada disso. Tinha, no entanto, uma raz\u00e3o especial para seguir feliz para a escola: a professora era sua m\u00e3e. Pena n\u00e3o ter sido assim pelos anos seguintes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A casa em que morava, em Belo Horizonte, tinha um quintal com arvoredo e um papagaio falante. Cresceu sem jamais perder o encantamento pelas criaturinhas desse mundo verde. \u201cPara mim, nenhum perfume pode ser mais sedutor do que o cheiro de terra molhada. Aproveito ent\u00e3o para lhe fazer minha primeira confiss\u00e3o: sou um repetente feliz. Nunca deixei o jardim\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O jardim \u00e9 observado, contemplado, revolvido e agraciado. Quando dorme, \u00e9 flagrado no sono, como ocorre no poema Recolhimento: \u201cCerta vez perdi o sono &#8211; \/Fui ver meu jardim dormir.\/Era madrugada&#8230;\/Cuidei de n\u00e3o acord\u00e1-lo,\/S\u00f3 olhava.\/Ele dorme leve, como monge.\/imerso num sil\u00eancio grato, reverente&#8230;\/E na certeza calma e azul\/De uma nova manh\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sil\u00eancio proporciona uma profunda intera\u00e7\u00e3o com os habitantes do jardim. N\u00e3o importa que perten\u00e7am ao mundo animal ou vegetal, n\u00e3o importa a linguagem que eles e elas falem: \u201cA pedra.\/L\u00e1 est\u00e1 a dama, senhora do tempo&#8230;\/Soberana, secreta, monumental.\/A gente quase n\u00e3o se fala,\/Mas eu gosto do jeito que ela me olha\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O jardineiro procura sempre captar e fixar aquele instante precioso, fugaz e fugidio de epifania, representado, com felicidade, no poema sobre o Monjolo: \u201cO monjolo bate&#8230; Depois espera a concha se encher de \u00e1gua\/Para bater outra vez.\/Isso n\u00e3o demora \/\u00c9 quase o mesmo tempo em que um colibri\/Visita um canteiro de flores. \/Sim&#8230;\/Para quem aprende a olhar as coisas como s\u00e3o,\/\u00c9 poss\u00edvel ter toda a compreens\u00e3o da vida\/apenas neste espa\u00e7o de tempo: entre um bater e outro do monjolo.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e3o de pequenas epifanias, muitas vezes impercept\u00edveis ao senso comum, que se faz esse jardim, mais suspenso do que o Jardim da Babil\u00f4nia. O segredo est\u00e1 no cultivo deliberado do despojamento, como se l\u00ea no belo poema sobre a recusa em implantar a irriga\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica no jardim, pois essa decis\u00e3o implicaria em renunciar ao prazer e encantamento da intera\u00e7\u00e3o, corpo a corpo, com a terra e com as plantas: \u201cAh, n\u00e3o!&#8230;\/Eu n\u00e3o colocaria irriga\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica\/Em meu jardim.\/Costumo molhar as plantas\/Como quem toma ch\u00e1 com os amigos\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco Enquanto o mundo explode, recebi de empr\u00e9stimo uma encomenda valiosa: o livro Confiss\u00f5es de jardineiro, do mineiro Alexandre Heilbuth. Ela faz do jardim um mundo em torno do qual tudo gravita por meio de contempla\u00e7\u00e3o e de escuta atentas. A apresenta\u00e7\u00e3o, a introdu\u00e7\u00e3o e os poemas v\u00eam temperados por um delicado senso de humor e de autoironia. 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