{"id":2050,"date":"2022-04-03T08:53:54","date_gmt":"2022-04-03T11:53:54","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=2050"},"modified":"2022-04-03T08:55:49","modified_gmt":"2022-04-03T11:55:49","slug":"o-plagio-de-braga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/o-plagio-de-braga\/","title":{"rendered":"O pl\u00e1gio de Braga"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesta longa estrada da vida jornal\u00edstica, em 1986, eu desentrevistei Rubem Braga. Explico: desentrevista \u00e9 quando voc\u00ea fica frente a frente com um grande personagem e n\u00e3o consegue entrevist\u00e1-lo. \u00c9 uma das maiores frustra\u00e7\u00f5es para um jornalista. Naquele fat\u00eddico dia, o ent\u00e3o editor do caderno de Cultura do Correio, Claudio Lysias, avisou com o estilo cordial de carioca elegante: \u201cO Rubem Braga est\u00e1 na cidade, j\u00e1 marquei a entrevista. Capricha, vamos dar uma ou duas p\u00e1ginas\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na hora agendada, 10 da manh\u00e3, l\u00e1 est\u00e1vamos eu e a minha amiga Mila Petrillo, a bela, talentosa e carism\u00e1tica fot\u00f3grafa. Mas ao chegarmos \u00e0 portaria do hotel, o funcion\u00e1rio informou que \u201co senhor Rubem Braga estava dormindo.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Naquele instante, pintou uma d\u00favida hamletiana: acordo ou n\u00e3o acordo o Rubem Braga? J\u00e1 t\u00ednhamos dado meia-volta rumo \u00e0 reda\u00e7\u00e3o do Correio, quando resolvi retornar ao hotel, afinal, a entrevista fora marcada. Solicitei ao funcion\u00e1rio que avisasse que hav\u00edamos chegado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Braga pediu que sub\u00edssemos. Quando entramos no quarto, o encontramos de pijama, com cara de poucos amigos, gestos lentos, esfregando os olhos para espantar o sono. Senti que o clima era totalmente desfavor\u00e1vel. Mas eu confiava na minha capacidade e habilidade de reverter as situa\u00e7\u00f5es com leveza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Comecei com cuidado. Paulo Francis disse que Rubem Braga havia promovido uma pequena revolu\u00e7\u00e3o na l\u00edngua portuguesa, ao escrever com naturalidade e simplicidade, nos livrando dos v\u00edcios de ret\u00f3rica pedantesca e falsa. Ele desconversou, comentou, pregui\u00e7osamente, que quem escrevia em jornal precisava se comunicar com todos, tinha de simplificar a linguagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Braga respondia a todas as perguntas com evidente desinteresse, limitando-se a frases monossil\u00e1bicas. Depois da terceira pergunta, pedi desculpas por t\u00ea-lo acordado e sugeri a ele que interromp\u00eassemos a conversa e retom\u00e1ssemos a entrevista em outro momento. Braga retrucou firme: n\u00e3o, vamos fazer agora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda sondei o que ele achava das cr\u00f4nicas de Clarice Lispector. Braga disse que considerava Clarice melhor em livro do que em jornal. No entanto, condescendeu: os textos que escreveu sobre Bras\u00edlia estavam entre os melhores de toda a obra dela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma foto reveladora flagrada pelo olhar sens\u00edvel de Mila: Braga aparece co\u00e7ando a cabe\u00e7a, com claro desconforto. Encerrei a desentrevista, agradeci e pedi desculpas, mais uma vez, por t\u00ea-lo acordado. As duas p\u00e1ginas programadas pelo editor se reduziram a m\u00edseras 40 linhas. Como pequena vingan\u00e7a, fechei o texto com uma alfinetada: \u201cE, no mais? No mais, deixemos o cronista em paz\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando escrevi esse arremate, tive uma secreta intui\u00e7\u00e3o de que Braga gostaria do final quando lesse. A biografia <em>Um cigano fazendeiro do ar<\/em>, de Marco Ant\u00f4nio Carvalho, me revelou uma cena intrigante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao responder um question\u00e1rio indagando que conselho daria aos escritores jovens, Braga respondeu seco: \u201cQuem deixem os escritores velhos em paz\u201d. \u00c9 a gl\u00f3ria amigos, n\u00e3o sei se voc\u00eas perceberam: Rubem Braga me plagiou descaradamente. Por favor, mantenham essa informa\u00e7\u00e3o sob o mais rigoroso sigilo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; &nbsp; Nesta longa estrada da vida jornal\u00edstica, em 1986, eu desentrevistei Rubem Braga. 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