{"id":1955,"date":"2022-02-20T07:50:45","date_gmt":"2022-02-20T10:50:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=1955"},"modified":"2022-02-20T07:50:45","modified_gmt":"2022-02-20T10:50:45","slug":"braga-e-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/braga-e-brasilia\/","title":{"rendered":"Braga e Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A maioria dos artistas do modernismo tinha simpatia por Bras\u00edlia. Afinal, Bras\u00edlia \u00e9 o modernismo transformado em cidade. Mas uma das exce\u00e7\u00f5es foi o ilustre colega Rubem Braga, inimigo implac\u00e1vel da nova capital do Brasil. N\u00e3o perdia uma oportunidade de destilar algum veneno insinuante, mesmo se a cr\u00f4nica fosse sobre outro assunto. Certa vez, lhe perguntaram se gostaria de morar em Bras\u00edlia e ele respondeu que n\u00e3o, \u201cnem que o doutor Israel Pinheiro lhe desse um lote com cart\u00f3rio\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas em um dos textos de <i>Bilhete a um candidato &amp; e outras cr\u00f4nicas sobre pol\u00edtica brasileira <\/i>(Ed. Aut\u00eantica), ele formula as raz\u00f5es da avers\u00e3o a Bras\u00edlia de maneira mais clara e sem a ranhetice habitual. Gostei de ler a cr\u00f4nica, pois tinha a curiosidade de saber qual o olhar de Braga para a cidade, despido da implic\u00e2ncia e do azedume.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 muito bonito o que ele diz do Lago Parano\u00e1, embora, em seguida, ele volte a alfinetar Bras\u00edlia: \u201cO lago ser\u00e1 uma grande coisa, miradouro de nuvens, espelho de crep\u00fasculos, viveiro de estrelas e luares, mas quanto tempo n\u00e3o passar\u00e1 at\u00e9 que deixe de ser uma represa, inunda\u00e7\u00e3o artificial para ser lago mesmo?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A vis\u00e3o sobre a paisagem do planalto n\u00e3o merece melhor sorte: \u201cO planalto \u00e9 triste com seus arbustos sem gra\u00e7a, que o pintor de S\u00e3o Paulo aproveitou com bom gosto e arte para fazer uns arranjos que decoram o Alvorada e o hotel, arranjos interessantes, mas, no fundo, insuportavelmente tristes, uma aridez enfeitada\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais adiante, Braga esclarece os motivos da falta de afinidade com o projeto, a paisagem e o horizonte aberto do descampado: \u201cQuem nasceu entre matas e morros e tomou banho em rio de verdade, e viveu na beira do mar \u2013 sente uma secreta afli\u00e7\u00e3o nesse descampado sem vim onde um excesso de c\u00e9u acachapa tudo: e quanto tempo levar\u00e1 a cidade para se livrar do esquema da prancheta e fabricar o seu pr\u00f3prio mist\u00e9rio, seu mel e seu veneno, n\u00e3o de funcion\u00e1rios, lar\u00e1pios, industri\u00e1rios, securit\u00e1rios?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu considero relevante registrar e contestar a vis\u00e3o de Braga porque continua a ser repetida pelo restante do pa\u00eds. O lago poderia ter uma estrutura que tornasse a frui\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o mais democr\u00e1tica, mas est\u00e1 plenamente incorporado \u00e0 cidade. Braga desentendeu totalmente a beleza contorcida e \u00e1spera do cerrado. Uma beleza que est\u00e1 na poesia ou na antipoesia de Jo\u00e3o Cabral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As \u00e1rvores floresceram, estabeleceram esta\u00e7\u00f5es florais e atra\u00edram uma legi\u00e3o de p\u00e1ssaros. E o c\u00e9u, que ele tanto destratou, foi incorporado como uma esp\u00e9cie de entidade metaf\u00edsica cotidiana de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1959, quando escreveu a cr\u00f4nica, os forr\u00f3s animavam os candangos em festas no N\u00facleo Bandeirante. A can\u00e7\u00e3o Roj\u00e3o de Bras\u00edlia, parceria de Jackson do Pandeiro e Jo\u00e3o do Vale, j\u00e1 revela o olhar de quem se deteve na cidade e interagiu com o espa\u00e7o: \u201cO planalto \u00e9 t\u00e3o lindo que a gente tem a impress\u00e3o\/que bem ali pertinho\/o c\u00e9u encosta no ch\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto, Braga estava certo em uma observa\u00e7\u00e3o sobre o ideal de Bras\u00edlia: \u201cmas em volta permanecer\u00e1 um Brasil misterioso e triste que ela n\u00e3o entender\u00e1\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; A maioria dos artistas do modernismo tinha simpatia por Bras\u00edlia. Afinal, Bras\u00edlia \u00e9 o modernismo transformado em cidade. Mas uma das exce\u00e7\u00f5es foi o ilustre colega Rubem Braga, inimigo implac\u00e1vel da nova capital do Brasil. N\u00e3o perdia uma oportunidade de destilar algum veneno insinuante, mesmo se a cr\u00f4nica fosse sobre outro assunto. 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