{"id":1934,"date":"2022-02-11T07:22:41","date_gmt":"2022-02-11T10:22:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=1934"},"modified":"2022-02-11T07:22:41","modified_gmt":"2022-02-11T10:22:41","slug":"modernista-em-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/modernista-em-brasilia\/","title":{"rendered":"Modernista em Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rubem Braga dizia que qualquer narrativa de Di Cavalcanti de uma travessia da ponte Rio-Niter\u00f3i na barca da cantareira era mais interessante, v\u00edvido e fascinante do que o relato de algum mortal que houvesse viajado pela Europa. O pintor que conferiu dignidade \u00e0 beleza das mulatas brasileiras e as al\u00e7ou \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de musas, de madonas tropicais, era muito ligado a Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Di era um modernista da cabe\u00e7a aos sapatos e Bras\u00edlia era o modernismo transformado em cidade. Ele ficou entusiasmado e produziu v\u00e1rias obras sob encomenda para a nova capital. A primeira \u00e9 uma linda tape\u00e7aria para o Pal\u00e1cio da Alvorada em que mulatas tocam flautas, banjos, viol\u00f5es e flautas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Di morou pela primeira vez em Paris, no in\u00edcio dos anos 1920, e afirmou que a cidade francesa colocou uma marca de intelig\u00eancia na vida dele e, como civilizado, conheceu a sua terra e passou a valorizar as rodas de samba, a beleza mesti\u00e7a e as cenas cotidianas do Rio de Janeiro. Ele estava em Paris, hospedado em um pequeno hotel, quando concebeu o primeiro trabalho para Bras\u00edlia. A pista para a reconstitui\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de Di com Bras\u00edlia vem de uma delicada cr\u00f4nica de Gilda Ces\u00e1rio Alvim, datada de 4 de abril de 1958.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gilda escreve que a primeira prova tang\u00edvel da exist\u00eancia de Bras\u00edlia naqueles tempos ocorreu no quarto do terceiro andar de um hotelzinho barato com nome de trem expresso: Dinard. Instalado por l\u00e1, Di Cavalcanti olhava a rua e sonhava com Bras\u00edlia: \u201cE do sonho de Di Cavalcanti nascem mulheres, sinuosas, envolventes como lianas, mulheres serpentes, que o domador encanta, n\u00e3o com a cl\u00e1ssica flauta, mas com pinc\u00e9is e tintas. A n\u00e3o ser que os pap\u00e9is aqui estejam invertidos e o encantado seja o encantador. Porque cada mulher leva entre as m\u00e3os um instrumento de m\u00fasica. Esta uma flauta, aquela um banjo, outra um cavaquinho. Embalam. Encantam. O presente fazem esquecer. O passado ao futuro ligam, pelo limo que carregam, pelas flores que prometem\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em alguns momentos, Di pousava o pincel e esquecia. Sonhava com Bras\u00edlia. A tape\u00e7aria ser\u00e1 em tons de cinza, com grandes manchas azuis que lhe dar\u00e3o vida, sem quebrar a harmonia. Nada que choque, que desafine, evoca Gilda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas quando Di sonha tudo se transforma e ele exerce o poder de encanta\u00e7\u00e3o verbal sobre todos os habitantes ou h\u00f3spedes do hotel. Aos poucos, a paisagem parisiense muda. As paredes se afastam e o sol rasga as nuvens pegajosas. O horizonte se alarga e a imensid\u00e3o verde se estende sobre os telhados de Paris, lembra Gilda, com o olhar espantado daquele long\u00ednquo 1958: \u201cTodo mundo no hotel j\u00e1 sabe e fala de Bras\u00edlia. Todo mundo j\u00e1 sabe, j\u00e1 fala, j\u00e1 acredita nessa capital extraordin\u00e1ria que vai brotar, um dia destes, no solo f\u00e9rtil e virgem do Brasil\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; Rubem Braga dizia que qualquer narrativa de Di Cavalcanti de uma travessia da ponte Rio-Niter\u00f3i na barca da cantareira era mais interessante, v\u00edvido e fascinante do que o relato de algum mortal que houvesse viajado pela Europa. 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