{"id":1879,"date":"2021-10-19T11:40:32","date_gmt":"2021-10-19T14:40:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=1879"},"modified":"2021-10-19T11:40:32","modified_gmt":"2021-10-19T14:40:32","slug":"o-misterio-da-brasilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/o-misterio-da-brasilidade\/","title":{"rendered":"O mist\u00e9rio da brasilidade"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1268\" aria-describedby=\"caption-attachment-1268\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1268\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"937\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033-256x300.jpg 256w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033-768x900.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033-550x644.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033-230x269.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1268\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Cr\u00e9dito: Jo\u00e3o Martins\/O Cruzeiro\/EM\/D.A Press. Brasil. Guimar\u00e3es Rosa: brasilidade indiz\u00edvel.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Confesso que estou com saudades do Brasil. Nos perdemos tanto que precisaremos algum esfor\u00e7o para reencontrarmos a nossa identidade de brasileiros como na\u00e7\u00e3o. Mas, apesar de parecer, talvez, anacr\u00f4nico, eu ainda gosto de ser brasileiro. Em outros momentos, era bem mais f\u00e1cil delinear essa identidade. No entanto, a brasilidade sempre foi um tema controvertido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estava folheando uma famosa entrevista de Guimar\u00e3es Rosa, concedida ao arguto e incisivo cr\u00edtico alem\u00e3o, Gunther Lorenz, quando me deparei precisamente com o claro enigma da brasilidade. Lorenz comenta que \u00e9 um tema que perpassa toda a literatura brasileira, mas nunca encontrou uma defini\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acrescenta que muita gente s\u00e9ria j\u00e1 lhe disse que essa brasilidade n\u00e3o passava de baboseira. No entanto, Guimar\u00e3es Rosa discorda inteiramente: \u201cSim, veja, Lorenz, quem quer que lhe tenha dito que a &#8216;brasilidade&#8217; \u00e9 apenas uma baboseira deve ser um professor, um desses &#8216;l\u00f3gicos&#8217; que n\u00e3o compreendem nada, que s\u00f3 compreendem com o c\u00e9rebro; e, como se sabe, o c\u00e9rebro humano \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o muito defeituosa e debilitada. Por isso, o homem possui, al\u00e9m do c\u00e9rebro, o sentimento, o cora\u00e7\u00e3o, como queira.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rosa reconhece que n\u00e3o poder\u00e1 dar uma defini\u00e7\u00e3o para algo incompreens\u00edvel, mas pode tentar uma interpreta\u00e7\u00e3o. \u00c9 l\u00f3gico que existe uma brasilidade, afirma o autor de <i>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/i>: \u201cExiste como a pedra b\u00e1sica de nossas almas, de nossos pensamentos, de nossa dignidade, de nossos livros e de toda nossa forma de viver.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas o que seria a brasilidade? Para responder \u00e0 intrigante pergunta, Rosa recorre a Goethe, que definiu a poesia como \u201ca l\u00edngua do indiz\u00edvel\u201d. E tra\u00e7a um paralelo entre a brasilidade e a palavra \u201csaudade\u201d para os lusitanos: \u201cUm portugu\u00eas n\u00e3o precisa explic\u00e1-la; j\u00e1 nasce com ela, leva-a dentro de si. Conhece-a com o cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o com a cabe\u00e7a. Assim acontece com a &#8216;brasilidade&#8217;; n\u00f3s dois sabemos a import\u00e2ncia que tem e o que quer dizer; e tamb\u00e9m s\u00f3 o sabemos com o cora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rosa avan\u00e7a e argumenta que n\u00e3o podemos explicar a brasilidade fora da \u00e1rea lingu\u00edstica e sentimental: \u201cExistem elementos da l\u00edngua que n\u00e3o podem ser captados pela raz\u00e3o; para eles s\u00e3o necess\u00e1rias outras antenas. Mas, apesar de tudo, digamos tamb\u00e9m que a &#8216;brasilidade&#8217; \u00e9 a l\u00edngua do indiz\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para mim, essa l\u00edngua do indiz\u00edvel se manifesta, principalmente, na arte. Eu a reconhe\u00e7o em <i>Grande Sert\u00e3o: Veredas, <\/i>quando o jagun\u00e7o Riobaldo Tatarana filosofa: \u201cEu, voc\u00ea, todos n\u00f3s, nascemos doidos. E precisamos rezar muito para desdoidar. Reza \u00e9 que sara loucura\u201d. Eu a reconheci nos dribles de Garrincha ou nas fintas desconcertantes ao senso comum, aplicadas por Manoel de Barros, que era uma esp\u00e9cie de Garrincha da poesia: \u201cN\u00e3o era o normal o que havia de lagartixas\/na palavra parede\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enrolar-se em uma bandeira n\u00e3o aplaca a minha fome de Brasil. Eu acho que, depois de sairmos do pesadelo da pandemia e do descaminho pol\u00edtico, n\u00f3s precisaremos de uma nova Tropic\u00e1lia, um novo Cinema Novo, uma nova Bossa Nova, um novo Mangue Beat, um novo <i>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/i>, um novo Garrincha ou uma nova marcha das mulheres ind\u00edgenas em Bras\u00edlia para retomarmos a conex\u00e3o espiritual com a brasilidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; Confesso que estou com saudades do Brasil. Nos perdemos tanto que precisaremos algum esfor\u00e7o para reencontrarmos a nossa identidade de brasileiros como na\u00e7\u00e3o. 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