{"id":1785,"date":"2021-08-04T10:23:22","date_gmt":"2021-08-04T13:23:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=1785"},"modified":"2021-08-04T10:23:22","modified_gmt":"2021-08-04T13:23:22","slug":"a-morte-de-braga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/a-morte-de-braga\/","title":{"rendered":"A morte de Braga"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1786\" aria-describedby=\"caption-attachment-1786\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1786\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/08\/Braga-5.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"764\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/08\/Braga-5.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/08\/Braga-5-300x287.jpg 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/08\/Braga-5-768x733.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/08\/Braga-5-550x525.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/08\/Braga-5-230x220.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1786\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Cr\u00e9dito: Rubem Braga\/Editora Globo\/Reprodu\u00e7\u00e3o. Autorretrato de Rubem Braga, do livro <em>Rubem Braga, um cigano fazendeiro do ar<\/em>, de Marco Antonio de Carvalho.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>Quando o amigo Vinicius de Moraes morreu, Rubem Braga lembrou-se de que achou estranho ler os versos do livro <i>Hora \u00edntima<\/i>: \u201cQuem pagar\u00e1 o enterro e as flores\/Se eu morrer de amores?\u201d Porque naquele tempo nenhum dos dois acreditava que fosse morrer. Os versos foram escritos em tom de brincadeira, e Braga continuou achando que a morte do amigo era piada: \u201cEu conhe\u00e7o Vinicius h\u00e1 muito tempo, ele n\u00e3o morre, n\u00e3o, ele nunca morre!\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao receber a not\u00edcia de que estava com c\u00e2ncer na laringe e sentir muito pr\u00f3xima a presen\u00e7a e a imin\u00eancia da morte, Braga baqueou. Mas, com pragmatismo e realismo de capricorniano, logo em seguida decidiu tomar as provid\u00eancias cab\u00edveis. Queria ser cremado e, dissimuladamente, viajou at\u00e9 S\u00e3o Paulo para encomendar o servi\u00e7o a uma empresa especializada. A certa altura, a diligente funcion\u00e1ria da firma indagou: \u201cMas quem \u00e9 o cad\u00e1ver?\u201d Ao que Braga replicou: \u201cO cad\u00e1ver sou eu\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O cap\u00edtulo derradeiro de <i>Rubem Braga \u2013 Um cigano fazendeiro do ar, <\/i>de Marco Antonio Carvalho, traz o relato pungente dos \u00faltimos dias do cronista capixaba. Acompanhemos a narrativa. Depois de estar ciente de sua condi\u00e7\u00e3o, Braga s\u00f3 queria morrer com dignidade, sem se submeter ao definhamento humilhante imposto pela doen\u00e7a: \u201cQuero arranjar um jeito r\u00e1pido e indolor de acabar com isso\u201d, confidenciou a um amigo, o jornalista e deputado Roberto D&#8217;\u00c1vila: \u201cSe eu sentir dor, vou para a Holanda\u201d, pa\u00eds onde a eutan\u00e1sia era legal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A par das provid\u00eancias pragm\u00e1ticas, ele tomava as sentimentais e l\u00edricas para com os amigos e os familiares. Doou parte dos seus livros ao cr\u00edtico de arte cachoeirense Paulo Herkenhoff, em troca de um robalo pescado no Rio Itapemirim, que a irm\u00e3 Yeda preparou com camar\u00e3o de Marata\u00edzes. Despediu-se do sobrinho \u00c1lvaro e da mulher, Carolina, oferecendo uma goiaba do quintal de sua cobertura em Ipanema a cada um deles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao filho Roberto, redigiu o seguinte bilhete: \u201cAp\u00f3s a crema\u00e7\u00e3o do meu corpo, providencie para que as cinzas sejam lan\u00e7adas no Rio Itapemirim, de maneira discreta, sem cortejo e sem quaisquer cerim\u00f4nias, por pouqu\u00edssimas pessoas da fam\u00edlia e, de prefer\u00eancia, no local que s\u00f3 a sua tia Gracinha, a minha irm\u00e3 Anna Gra\u00e7a, tenha conhecimento. Nem o dia deve ser divulgado, tudo isso para evitar ferir suscetibilidades de pessoas religiosas, amigos e parentes\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E tudo foi feito segundo as ordens expressas do desconcertantemente bravo e delicado caboclo, que, ao sentir o h\u00e1lito de gelo da morte, a detestou e comp\u00f4s os seguintes votos e ora\u00e7\u00f5es: \u201cQue o mist\u00e9rio que existe em toda morte fosse na minha dignificado pela simplicidade. E meu vel\u00f3rio fosse assim como uma festinha de despedida, onde mesmo as pessoas que ficassem com os olhos vermelhos pudessem rir sem remorso. Que tudo o que disse por t\u00e9dio ou afeta\u00e7\u00e3o pudesse ser esquecido e minha li\u00e7\u00e3o obscura fosse uma li\u00e7\u00e3o de insaci\u00e1vel liberdade e gosto de viver\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Severino Francisco Quando o amigo Vinicius de Moraes morreu, Rubem Braga lembrou-se de que achou estranho ler os versos do livro Hora \u00edntima: \u201cQuem pagar\u00e1 o enterro e as flores\/Se eu morrer de amores?\u201d Porque naquele tempo nenhum dos dois acreditava que fosse morrer. 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