{"id":1695,"date":"2021-06-03T10:31:11","date_gmt":"2021-06-03T13:31:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=1695"},"modified":"2021-06-03T10:31:11","modified_gmt":"2021-06-03T13:31:11","slug":"morri-no-ano-passado-mas-este-ano-nao-morro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/morri-no-ano-passado-mas-este-ano-nao-morro\/","title":{"rendered":"Morri no ano passado, mas este ano n\u00e3o morro"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1696\" aria-describedby=\"caption-attachment-1696\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1696\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/06\/Z\u00e9-Limeira.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"599\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/06\/Z\u00e9-Limeira.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/06\/Z\u00e9-Limeira-300x225.jpg 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/06\/Z\u00e9-Limeira-768x575.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/06\/Z\u00e9-Limeira-550x412.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2021\/06\/Z\u00e9-Limeira-230x172.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1696\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o. Cartaz do filme O homem que viu Z\u00e9 Limeira.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEu j\u00e1 cantei no Recife\/Na porta do pronto-socorro\/Ganhei quinhentos mil reais\/Comprei duzentos cachorros\/Morri no ano passado\/Mas este ano n\u00e3o morro\u201d. Emicida citou e atribuiu os versos acima mencionados a Belchior na faixa <i>AmarElo,<\/i> que j\u00e1 alcan\u00e7ou mais de 10 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es no Youtube, e v\u00e1rias pessoas repetiram o equ\u00edvoco. Falo de c\u00e1tedra porque tamb\u00e9m incorri no mesmo erro. Ouvi pela primeira vez o poema em um disco de Belchior na d\u00e9cada de 1970. Fiquei fascinado pelo rel\u00e2mpago surreal da poesia. Mas o verdadeiro autor \u00e9 Z\u00e9 Limeira, n\u00e3o Belchior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao me dar conta do equ\u00edvoco, empreendi uma ca\u00e7ada implac\u00e1vel ao livro <i>Z\u00e9 Limeira, o poeta do absurdo<\/i>. Tudo em v\u00e3o, naquela \u00e9poca n\u00e3o havia esta facilidade de acionar um bot\u00e3o Google e receber todas as informa\u00e7\u00f5es instantaneamente. Mas eis que o destino tramou uma inesperada conex\u00e3o entre o vate alucinado e Bras\u00edlia: o jornalista, escritor e bo\u00eamio paraibano Orlando Tejo, o autor de <i>Z\u00e9 Limeira, o poeta do absurdo<\/i>, em carne e osso (mais osso do que carne), veio trabalhar na reda\u00e7\u00e3o do <b>Correio<\/b> na d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tejo me brindou com um exemplar da obra, que, em vez de apaziguar, ati\u00e7ou ainda mais a minha curiosidade. L\u00e1, pude garimpar alguns obras-primas do nonsense: \u201cZ\u00e9 Limeira quando canta\/Estremece o Cariri\/Galinha cisca pra frente\/Le\u00e3o chupa abacaxi\/Com tr\u00eas dias depois\/Estoura a guerra civi\u201d. Um pesquisador franc\u00eas da Sorbonne, chamado Chantal, organizou uma antologia internacional do nonsense e, segundo ele, Z\u00e9 Limeira \u00e9 um dos maiores poetas do g\u00eanero no mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Realmente, Z\u00e9 Limeira parece um Man\u00e9 Garrincha da poesia popular, aplicando dribles desequilibrantes no que aparecesse pela frente; a l\u00f3gica, o previs\u00edvel, o tempo, as leis da\u00b4f\u00edsica e o bom senso: \u201cUm sujeito chegou ao cais do porto\/E pediu emprego de alfaiate\/Misturou cintur\u00e3o com abacate\/E depois descobriu que estava morto\/Ligou r\u00e1dio no focinho de um porco\/E afogou-se em um ch\u00e1 de erva cidreira\/Requereu o diploma de parteira\/E tocou em uma \u00f3pera de sinos\/Eram m\u00e3os de 50 mil meninos\/E n\u00e3o sei quantos p\u00e9s de bananeira\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se os cantadores de feira do Nordeste j\u00e1 se entregavam a voos surrealistas, Z\u00e9 Limeira acelerou as asas do absurdo, para revirar a l\u00f3gica pelo avesso e mostrar que, \u00e0s vezes, dois e dois ser igual a cinco pode ser uma coisinha muito interessante, como diz um personagem de Dostoi\u00e9vski. O Z\u00e9 Limeira delineado por Tejo parece um ser t\u00e3o fant\u00e1stico quanto os versos disparatados do poeta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nascido em 1886, na Serra da Borborema, na Para\u00edba, era um caboclo de estatura avantajada, desabusado e delirante. Trajava roupas espalhafatosas, \u00f3culos de lentes pretas exageradas, len\u00e7o colorido no pesco\u00e7o, quinze an\u00e9is grotescos nos dedos e dezenas de fitas multicoloridas na viola. Trazia sempre engatilhado na l\u00edngua um verso surreal, desconcertando completamente os advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Conversei com v\u00e1rios cantadores e eles me disseram que, de fato, Z\u00e9 Limeira existiu, mas, ao mesmo tempo, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o coletiva. Muitos repentistas talentosos inventaram versos no estilo Z\u00e9 Limeira e incorporaram ao acervo do poeta paraibano. A Tejo n\u00e3o faltou verve para pintar o personagem com tintas bem fortes da imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o importa se inventado ou real. Z\u00e9 Limeira sobrevive ao tempo com os seus versos desconcertantes: \u201cEu me chamo Z\u00e9 Limeira\/Cantador que n\u00e3o \u00e9 pilh\u00e9rico\/Mas j\u00e1 sofreu de alguns males\/Foi atacado de hist\u00e9rico\/Chame logo a junta m\u00e9dica\/Fa\u00e7a o exame cadav\u00e9rico\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Severino Francisco &nbsp; \u201cEu j\u00e1 cantei no Recife\/Na porta do pronto-socorro\/Ganhei quinhentos mil reais\/Comprei duzentos cachorros\/Morri no ano passado\/Mas este ano n\u00e3o morro\u201d. Emicida citou e atribuiu os versos acima mencionados a Belchior na faixa AmarElo, que j\u00e1 alcan\u00e7ou mais de 10 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es no Youtube, e v\u00e1rias pessoas repetiram o equ\u00edvoco. 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