{"id":1410,"date":"2020-10-15T14:55:47","date_gmt":"2020-10-15T17:55:47","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=1410"},"modified":"2020-10-15T14:55:47","modified_gmt":"2020-10-15T17:55:47","slug":"professor-de-loucura-2-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/professor-de-loucura-2-2\/","title":{"rendered":"Professor de loucura 2"},"content":{"rendered":"<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fui professor em uma faculdade particular durante oito anos. A cada in\u00edcio de semestre, eu sempre pedia aos alunos que escrevessem uma cr\u00f4nica. Era uma forma de conhecer os alunos. Porque a cr\u00f4nica revela o olhar, a sensibilidade e a alma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu acho engra\u00e7ados os planos de reforma de ensino no Brasil, que pretendem deixar o professor de fora. \u00c9 algo de uma estupidez inomin\u00e1vel. O professor \u00e9 o centro da educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o importa que o mundo seja mediado pelos computadores. N\u00e3o admira que o nosso pa\u00eds ocupe os \u00faltimos lugares no ranking da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem investimento na forma\u00e7\u00e3o\u00a0 e na remunera\u00e7\u00e3o do professor, qualquer projeto pedag\u00f3gico dar\u00e1 com os burros n&#8217;\u00e1gua. O mais competente mestre que tive sempre perguntava: \u201cVoc\u00eas sabem por que eu escolhi ser professor?\u201d Ningu\u00e9m conseguia imaginar a raz\u00e3o, mas ele respondia: \u201c\u00c9 porque eu gosto de estudar. Professor bom \u00e9 o professor que gosta de estudar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00f3 com mestres que tenham a obsess\u00e3o de aprender incessantemente poderemos superar o estado atual de ignor\u00e2ncia triunfante, que nos envergonha. Ao ser professor, tentei praticar o conceito de educa\u00e7\u00e3o formulado pelo mestre. Segundo ele, educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma palavra que deriva do latim (educere), que significa extrair.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Certa vez, uma aluna me apresentou uma cr\u00f4nica muito boa sobre um misterioso \u201cprofessor de loucura\u201d. No primeiro dia, o professor de loucura entrou na sala de aula e come\u00e7ou a expor seu plano de ensino. Antes de tudo, explicou no que consistia a disciplina da qual era titular: \u201cSou professor da disciplina loucura. De que mat\u00e9ria trata disciplina?\u201d,indagou o exc\u00eantrico professor.<\/p>\n<p>E ele mesmo respondeu: Loucura consiste em conhecer as principais vertentes e fontes da cultura brasileira e internacional, numa rela\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. Conhecer, conviver e tornar-se \u00edntimo dos personagens mais brilhantes da humanidade, deixar de ser maria-vai-com-as-outras e tornar-se um ser singular. Adquirir autonomia de estudo e tornar-se um verdadeiro autodidata. Extrair o que havia de melhor em cada um\u201d.<\/p>\n<p>Os alunos ouviram, mas ao tomar ci\u00eancia do plano de ensino, informaram ao quixotesco personagem: \u201cProfessor, acho que o senhor se enganou e entrou na sala errada. Ningu\u00e9m aqui est\u00e1 interessado nesta disciplina\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto , ao entregar os coment\u00e1rios, levei tremendo susto: a autora disse que escrevera o texto em homenagem a meu \u201cesfor\u00e7o dram\u00e1tico\u201d em transmitir o conhecimento. Contou que a minha presen\u00e7a era pol\u00eamica, provocava coment\u00e1rios desencontrados: \u201c\u00c9 inteligent\u00edssimo\u201d. Ou: \u201cEle \u00e9 louco\u201d. Ou: \u201cViaja na maionese\u201d. Entendia que eu \u201catirava p\u00e9rolas aos porcos\u201d. S\u00f3 uns 20% aproveitavam.<\/p>\n<p>Retifiquei que apenas a primeira parte da frase estava correta. Tentava compartilhar o que havia aprendido de mais precioso. O que as pessoas fariam com aquilo estava fora do meu controle. Mas sempre deixava aberta a possibilidade de que eu tivesse errado em algum ou em v\u00e1rios momentos. Educar \u00e9 dif\u00edcil e dram\u00e1tico, e exige autocr\u00edtica permanente. Precisamos conferir dignidade a nossos professores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco &nbsp; Fui professor em uma faculdade particular durante oito anos. A cada in\u00edcio de semestre, eu sempre pedia aos alunos que escrevessem uma cr\u00f4nica. Era uma forma de conhecer os alunos. 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