{"id":1406,"date":"2020-10-11T15:34:59","date_gmt":"2020-10-11T18:34:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=1406"},"modified":"2020-10-20T08:20:04","modified_gmt":"2020-10-20T11:20:04","slug":"vladimir-e-ze-lins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/vladimir-e-ze-lins\/","title":{"rendered":"Vladimir e Z\u00e9 Lins"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1340\" aria-describedby=\"caption-attachment-1340\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1340\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT271120070099.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"531\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT271120070099.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT271120070099-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT271120070099-768x510.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT271120070099-550x365.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT271120070099-230x153.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1340\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Credito: Paulo de Araujo\/CB. Diretor Vladimir Carvalho mostra cartaz do filme <em>O engenho de Ze Lins<\/em>, no\u00a0 Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro em 2007.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante a quarentena, redescobri Jos\u00e9 Lins do Rego e percebi que ele toca no cora\u00e7\u00e3o das grandes quest\u00f5es brasileiras da atualidade, de maneira dram\u00e1tica: a heran\u00e7a da escravid\u00e3o, a desigualdade social, a religiosidade, o despotismo, a loucura e a educa\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 a seco; \u00e9 com pungente e brasileir\u00edssimo humanismo. Z\u00e9 Lins \u00e9 o nosso Proust paraibano em busca do tempo perdido da civiliza\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A sua obra exala a dor da alma nordestina. Quem quiser conhecer o Brasil precisa ler a fic\u00e7\u00e3o de Z\u00e9 Lins, de ponta a ponta. Liguei para Vladimir Carvalho com o objetivo de conseguir uma informa\u00e7\u00e3o pessoal. No entanto, a certo momento, fiz men\u00e7\u00e3o a Z\u00e9 Lins e o cineasta me contou uma hist\u00f3ria que tenho de repassar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vladimir \u00e9 de Itabaiana, na Para\u00edba, cidade vizinha de Pilar, onde nasceu Z\u00e9 Lins. Foi em Itabaiana que Z\u00e9 Lins fez o curso prim\u00e1rio, na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo passado, como interno do afamado Instituto Nossa Senhora do Carmo, dirigido pelo tem\u00edvel professor Maciel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos anos 1940, Seu Lula, pai de Vladimir, que era leitor voraz e tinha esp\u00edrito arejado, lia para os filhos, depois do jantar, trechos dos livros de Z\u00e9 Lins, principalmente do romance <i>Doidinho, <\/i>totalmente inspirado na experi\u00eancia do escritor no col\u00e9gio interno, verdadeira pris\u00e3o para um menino de engenho criado em liberdade. N\u00e3o havia televis\u00e3o na \u00e9poca e a escuta do r\u00e1dio ia s\u00f3 at\u00e9 10 da noite,\u00a0 quando o chamado &#8220;motor da luz&#8221; parava de funcionar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O pai de Vladimir intercalava a leitura com acr\u00e9scimos do que teria testemunhado, porque, supostamente, havia sido colega do escritor na tal escola. Tinha a imagina\u00e7\u00e3o solta e fabulava\u00a0descaradamente. Contava o epis\u00f3dio em que o menino Z\u00e9 Lins\u00a0 fugia do col\u00e9gio, ia at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o da Great Western e voltava escondido no trem para casa do av\u00f4 no Pilar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mestre Lula era mais\u00a0de 10\u00a0anos mais novo do que Z\u00e9 Lins, portanto, n\u00e3o podia\u00a0ter\u00a0sido seu colega. Mas Lula era encantador e praticamente hipnotizava. Vladimir ouvia essas hist\u00f3rias embevecido; para ele, aquele menino inquieto e audacioso era um her\u00f3i, sonhava com o garoto arteiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na verdade, come\u00e7ou a fazer uma leitura estropiada das primeiras linhas dos romances <i>Doidinho<\/i> e <i>Menino de engenho,<\/i> alternadas com as tentativas de ler os bal\u00f5es\u00a0 dos quadrinhos de Brick Bradford, publicados nos domingos no <i>Jornal do Comm\u00e9rcio,<\/i> do Recife, que mestre Lula assinava. Foi assim que se alfabetizou, entre o pop da \u00e9poca e Z\u00e9 Lins.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do her\u00f3i Bradford se livrou, mas a presen\u00e7a dos livros de Z\u00e9 Lins o acompanhou pela vida. Conserva, fanaticamente, todas as edi\u00e7\u00f5es. Quando se tornou adolescente, Vladimir se olhava no espelho e descobria tra\u00e7os fision\u00f4micos de Z\u00e9 Lins, cujas fotos de juventude via estampadas nas revistas da \u00e9poca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bem depois sofreu como um condenado durante a agonia do escritor, hospitalizado no Rio de Janeiro, com os jornais dando todo dia o boletim m\u00e9dico. Vladimir tornou-se Flamengo doente por conta do fanatismo de Z\u00e9 Lins pelo Meng\u00e3o. Chorou com a not\u00edcia de sua morte no Hospital dos Servidores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portanto, Z\u00e9 Lins \u00e9 passional e inarred\u00e1vel mem\u00f3ria na cabe\u00e7a de Vladimir. As pr\u00f3prias circunst\u00e2ncias se impuseram: em 2003\/2004, Vladimir filmou o magn\u00edfico document\u00e1rio <i>O engenho de Z\u00e9 Lins<\/i>, na tentativa frustrada de se livrar do ilustre fantasma. Ilustr\u00edssimo fantasma que concedeu a honra de visitar tamb\u00e9m este cronista isolado durante a quarentena.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Severino Francisco &nbsp; Durante a quarentena, redescobri Jos\u00e9 Lins do Rego e percebi que ele toca no cora\u00e7\u00e3o das grandes quest\u00f5es brasileiras da atualidade, de maneira dram\u00e1tica: a heran\u00e7a da escravid\u00e3o, a desigualdade social, a religiosidade, o despotismo, a loucura e a educa\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 a seco; \u00e9 com pungente e brasileir\u00edssimo humanismo. 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