{"id":1379,"date":"2020-09-29T08:52:58","date_gmt":"2020-09-29T11:52:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=1379"},"modified":"2020-09-29T08:52:58","modified_gmt":"2020-09-29T11:52:58","slug":"pierro-minimalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/pierro-minimalista\/","title":{"rendered":"Pierr\u00f4 minimalista"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1381\" aria-describedby=\"caption-attachment-1381\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1381\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT090120200692-1.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"531\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT090120200692-1.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT090120200692-1-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT090120200692-1-768x510.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT090120200692-1-550x365.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/09\/CBPFOT090120200692-1-230x153.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1381\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Cr\u00e9dito: Carlos Vieira\/CB\/D.A. Press. Brasil. Francisco K, poeta e ensa\u00edsta: f\u00e9 inabal\u00e1vel na poesia.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Francisco Saraiva, o Francisco K, tem uma f\u00e9 na poesia capaz de abalar montanhas de ceticismo. K \u00e9 pernambucano, filho de um casal de professores da UnB, mas cresceu em Bras\u00edlia. Ele gosta de poesia concreta e Jimi Hendrix, Augusto de Campos e o rap, Mallarm\u00e9 e Noel Rosa, H\u00e9lio Oiticica e Wilson Batista, o haikai e a tropic\u00e1lia, a performance e Jards Macal\u00e9, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto e Chico Science. E o interessante \u00e9 que ele tenta misturar tudo isso em sua poesia de maneira concentrada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>K tem quatro filhos: H\u00e9lio (homenagem a H\u00e9lio Oiticica), Augusto (homenagem a Augusto de Campos), Ana L\u00edvia (homenagem \u00e0 personagem de Finnegans Wake, de James Joyce) e Gabriela (talvez homenagem \u00e0 Gabriela, de Jorge Amado).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas engana-se quem imagina que K \u00e9 um poeta cerebral e \u00e1rido. No livro <i>Hagoromo\/Arestas<\/i>, ele refaz em versos de quase haikais uma pe\u00e7a do teatro n\u00f4, traduzida por Haroldo de Campos. A trama \u00e9 impregnada de uma forte carga de poesia: narra a hist\u00f3ria de um pescador que encontra, pendurado em um ramo, o hagoromo, um manto de plumas m\u00e1gico de uma tenin, um anjo-ninfa ou uma dan\u00e7arina celeste: \u201c\u00c9 quase\/a pele\/de um\/anjo\/o que\/se v\u00ea\/veste\/de um\/anjo\/sua\/quase\/pele\/coisa\/ca\u00edda\/do c\u00e9u\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, os versos de K t\u00eam uma intensa m\u00fasica interna, sempre sugerem uma dan\u00e7a das palavras. E o poema fecha com um belo verso sobre a transcend\u00eancia divina suscitada pela vis\u00e3o da ninfa-anjo: \u201cexorbita\/a\/vista:\/avesso do\/vis\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O erotismo cifrado e o lirismo lunar s\u00e3o as marcas mais fortes do livro <i>Eu versus<\/i>, t\u00edtulo que expressa o embate do poeta com a poesia e com o amor. Alguns versos t\u00eam um eco de pierr\u00f4 alucinado de Manuel Bandeira: \u201cde beco\/em beco\/grito o\/seu nome\/que se\/dissipa\/em inanes\/ecos:\/lua&#8230;\/lua&#8230;\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E o erotismo parece reverberar as vestes do manto de plumas da tenin, o anjo-ninfa de hagoromo: \u201cestalido\/da lingerie lunar.\u201d No \u00faltimo livro, intitulado <i>Error<\/i>, K abandona, em parte o minimalismo, e imprime uma guinada rumo ao discurso, embora de maneira fragment\u00e1ria. Est\u00e1 dividido em tr\u00eas poemas: <i>Error<\/i>, <i>Subleva\u00e7\u00e3o<\/i> e <i>Samba<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Error<\/i> narra a err\u00e2ncia de um misterioso personagem por um cen\u00e1rio de cidade da periferia, com cortes cinematogr\u00e1ficos e tomadas de c\u00e2mera que transfiguram cenas triviais: \u201cvermelho em torno cegante\/a cor\/miragem ira f\u00fatil\u201d. <i>Subleva\u00e7\u00e3o <\/i>evoca um momento de revolta pol\u00edtica da juventude, perpassada pela figura enigm\u00e1tica de uma musa guerrilheira, mas sem derrapar, em nenhum momento, no panfletarismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No terceiro segmento, K transforma a paix\u00e3o pelo samba de Noel Rosa, Wilson Batista, Z\u00e9 K\u00e9ti, Nelson Cavaquinho e Moreira da Silva em parceria. Essa parceria medi\u00fanica com os mortos se torna poss\u00edvel pela colagem de fragmentos de letras dos grandes sambistas com inser\u00e7\u00f5es de novos versos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 o momento mais livre, pois a montagem atinge o plano do surreal, como se fosse um sampler de nonsense: \u201cO bonde que parece uma carro\u00e7a\/olhou pra mim ent\u00e3o me disse\/tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o sei quem sou\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O famoso verso de Z\u00e9 K\u00e9ti \u00e9 revirado pelo avesso: \u201cA voz do morto sou eu mesmo sim, senhor\u201d. A liberdade foi a grande experimenta\u00e7\u00e3o de K em <i>Error<\/i>. A sua poesia \u00e9 um claro enigma perpassado de s\u00edmbolos, que pedem a releitura. Ele \u00e9 meio concreto, meio pierr\u00f4, meio simbolista, meio zen. Como bem disse Murilo Mendes, a poesia sopra onde quer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Severino Francisco &nbsp; Francisco Saraiva, o Francisco K, tem uma f\u00e9 na poesia capaz de abalar montanhas de ceticismo. K \u00e9 pernambucano, filho de um casal de professores da UnB, mas cresceu em Bras\u00edlia. Ele gosta de poesia concreta e Jimi Hendrix, Augusto de Campos e o rap, Mallarm\u00e9 e Noel Rosa, H\u00e9lio Oiticica e Wilson Batista, o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":73,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-1379","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1379","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/users\/73"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1379"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1379\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1382,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1379\/revisions\/1382"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1379"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1379"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1379"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}