{"id":1321,"date":"2020-08-30T18:01:23","date_gmt":"2020-08-30T21:01:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=1321"},"modified":"2020-08-30T18:01:59","modified_gmt":"2020-08-30T21:01:59","slug":"antigona-e-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/antigona-e-a-pandemia\/","title":{"rendered":"Ant\u00edgona e a pandemia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que n\u00f3s perdemos o sentimento do tr\u00e1gico? A pergunta paira no ar depois que o Brasil atingiu o limite de mais de 120 mil mortes na pandemia, mortes que, em grande parte, poderiam ser evitadas se houvesse uma gest\u00e3o mais respons\u00e1vel dos governantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O momento da morte \u00e9 de tristeza, mas tamb\u00e9m de como\u00e7\u00e3o, de compaix\u00e3o, de solidariedade e de amor extremo. Encerra tamb\u00e9m uma li\u00e7\u00e3o de fatalidade e de humanidade, que deveria nos tornar seres humanos melhores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 isso que acontece em nosso pa\u00eds. O que causa espanto \u00e9 o novo normal, o normal fake, a tentativa negacionista de retomar a vida, sem nenhum cuidado, como se j\u00e1 tiv\u00e9ssemos ganhado a batalha contra o v\u00edrus. Diante de mais de 120 mil mortes, estou sentindo a solid\u00e3o do algarismo. No entanto, me recuso a ser um n\u00famero an\u00f4nimo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso, resolvi buscar luz na trag\u00e9dia do teatro grego <i>Ant\u00edgona<\/i>, de S\u00f3focles, que coloca no centro da cena um tema extremamente atual em tempos de pandemia: a luta de uma mulher pelo direito de enterrar o irm\u00e3o morto em duelo com outro irm\u00e3o. O irm\u00e3o morto teria conspirado contra Tebas. Creonte, o rei de Tebas, amea\u00e7a Ant\u00edgona de morte se ela insistir em celebrar o ritual de despedida do irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Naqueles tempos, a mulher era subalterna na sociedade grega. Mas o teatro j\u00e1 projetava a imagem de uma figura feminina rebelde, corajosa e emancipadora. Ant\u00edgona n\u00e3o aceita a interdi\u00e7\u00e3o e trava uma batalha pol\u00eamica, alegando que as leis divinas n\u00e3o escritas valem mais do que as humanas dos governantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o recua nem mesmo ante a senten\u00e7a de morte proclamada por Creonte: \u201cProcede como te aprouver: de qualquer modo hei de enterr\u00e1-lo e ser\u00e1 belo para mim morrer cumprindo esse dever: repousarei ao lado dele, amada por quem tanto amei\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Existe uma parte do di\u00e1logo em que cada argumento ganha um peso dram\u00e1tico quase que equivalente. Creonte: \u201cNem morto um inimigo passa a ser amigo\u201d. Ant\u00edgona: \u201cNasci para compartilhar amor, n\u00e3o \u00f3dio\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Recusa-se a morrer envergonhada de si mesma e refuta a lei dos homens: \u201cE n\u00e3o me pareceu que tuas determina\u00e7\u00f5es tivessem for\u00e7a para impor aos mortais at\u00e9 a obriga\u00e7\u00e3o de transgredir normas divinas, n\u00e3o escritas, inevit\u00e1veis. E n\u00e3o seria por temer homem algum, nem o mais arrogante, que me arriscaria a ser punida pelos deuses por viol\u00e1-las\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A lei divina, n\u00e3o escrita, a que Ant\u00edgona obedece, \u00e9 a lei do amor. Mas esse preceito exige compromisso, atitude e a\u00e7\u00e3o. A trag\u00e9dia grega colocava as grandes quest\u00f5es da cidadania em pra\u00e7a p\u00fablica. Ant\u00edgona tem muito a nos ensinar neste momento dram\u00e1tico da hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Severino Francisco &nbsp; Ser\u00e1 que n\u00f3s perdemos o sentimento do tr\u00e1gico? 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