{"id":1264,"date":"2020-08-14T12:24:07","date_gmt":"2020-08-14T15:24:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=1264"},"modified":"2020-08-14T12:45:57","modified_gmt":"2020-08-14T15:45:57","slug":"manoel-e-rosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/manoel-e-rosa\/","title":{"rendered":"Manoel e Rosa"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1265\" aria-describedby=\"caption-attachment-1265\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1265\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040520100054.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"532\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040520100054.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040520100054-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040520100054-768x511.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040520100054-550x366.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040520100054-230x153.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1265\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Cr\u00e9dito: Stefan Hess\/Divulga\u00e7\u00e3o. Manoel de Barros: sempre com os olhos faiscantes de menino arteiro.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No final da d\u00e9cada de 1990, soube que o poeta Manoel de Barros estava em Bras\u00edlia, numa exposi\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional. Peguei um gravador e fui l\u00e1 para entrevist\u00e1-lo. Ele me recebeu de maneira muito cordial, com os olhos faiscantes de menino que aprontou alguma. No entanto, negou a entrevista ao vivo, de maneira delicadamente firme: \u201cEntrevista, s\u00f3 por escrito. E aviso que a resposta pode demorar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seis meses depois, quando havia me esquecido do encontro, recebo uma carta dos Correios com a letra desenhada de Manoel de Barros e as respostas \u00e0 entrevista. Ao ler as respostas, compreendi, imediatamente, o sentido do que parecia ser mero capricho. Manoel insistiu em conversar por escrito porque queria transformar a entrevista em um acontecimento po\u00e9tico: \u201cS\u00f3 as coisas pequenas me celestam\u201d, escreveu em uma resposta e, logo em seguida, o trecho apareceu em um dos poemas publicados em livro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1267\" aria-describedby=\"caption-attachment-1267\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1267\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT281020080039.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT281020080039.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT281020080039-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT281020080039-768x512.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT281020080039-550x366.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT281020080039-230x153.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1267\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Credito: Evandro Salles\/Divulga\u00e7\u00e3o. Imagem da anima\u00e7\u00e3o <em>Hist\u00f3rias da unha do ded\u00e3o do p\u00e9 do fim do mundo<\/em>, baseada em poemas de Manoel de Barros.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Manoel teve um memor\u00e1vel encontro com Guimar\u00e3es Rosa no Pantanal, evocado na revista Bric a Brac, editada por Luis Turiba e Jo\u00e3o Borges (sim, aquele mesmo comentarista de economia da GloboNews). Manoel \u00e9 uma esp\u00e9cie de Guimar\u00e3es Rosa l\u00fadico da poesia; e Rosa \u00e9 uma esp\u00e9cie de Manoel de Barros tr\u00e1gico da prosa. Os dois g\u00eanios t\u00eam muitas afinidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em um filme de J\u00falio Bressane, Oswald de Andrade faz uma declara\u00e7\u00e3o de total identidade ao se deparar com Lamartine Babo. Pois bem, Rosa tamb\u00e9m poderia dizer a Manoel quando o encontrou no Pantanal: &#8220;Manoel, voc\u00ea sou eu&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1268\" aria-describedby=\"caption-attachment-1268\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1268\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"937\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033-256x300.jpg 256w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033-768x900.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033-550x644.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT040320060033-230x269.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1268\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Cr\u00e9dito: Jo\u00e3o Martins\/O Cruzeiro\/EM\/D.A Press. Guimar\u00e3es Rosa: afinidades com Manoel de Barros.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>De maneira similar ao que ocorreu com a minha entrevista, o pantaneiro transformou a conversa com Rosa em um acontecimento po\u00e9tico. \u201cHavia o caramujo perto de uma \u00e1rvore. Rosa disse: &#8216;Habemos lesma, Manoel&#8217;. Eu disse: &#8216;Caramujo \u00e9 que ajuda \u00e1rvore crescer&#8217;. Ele riu. Relvas cresciam nas palavras e na terra. Rosa escutava as coisas. Escutava o luar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em seguida, Rosa teria perguntado: \u201cE como \u00e9 o homem aqui, Manoel?\u201d E Manoel replicou nervoso: \u201cO homem se completa com os bichos \u2013 eu disse \u2013 com os seus marandov\u00e1s e com as suas \u00e1guas. Esse ermo cria motucas. Aqui \u00e9 brejo, boi e cerrado. E anta que assobia sem barba e sem banheiro\u201d. Rosa quis saber tamb\u00e9m o nome de \u00e1rvores: \u201cAqui sabemos \u00e9 por instinto e por apalpos. N\u00e3o \u00e9 como o senhor faz com as palavras\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1269\" aria-describedby=\"caption-attachment-1269\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1269\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT130320191080.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"1832\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT130320191080.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT130320191080-131x300.jpg 131w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT130320191080-768x1759.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT130320191080-447x1024.jpg 447w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT130320191080-550x1260.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/08\/CBNFOT130320191080-230x527.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1269\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Cr\u00e9dito: Companhia das Letras\/Reprodu\u00e7\u00e3o. Mapa do <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, de Guimar\u00e3es Rosa.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas, no livro <i>Retrato do artista enquanto coisa<\/i>, Manoel transformou o di\u00e1logo imagin\u00e1rio em verso de poesia: \u201cLevei Rosa na beira dos p\u00e1ssaros que fica no meio da Ilha Lingu\u00edstica.\/Rosa gostava muito de frases em que entrassem p\u00e1ssaros.\/E fez uma na hora:\/A tarde est\u00e1 verde no olho das gar\u00e7as.\/E completou com Job:\/Sabedoria se tira das coisas que n\u00e3o existem.\/A tarde no olho das gar\u00e7as n\u00e3o existia\/mas era a fonte do ser. Era poesia.\/Era o n\u00e9ctar do ser\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Adiante, Manuel prossegue em narrativa fragmentada: \u201cRosa gostava muito do corpo f\u00f4nico das palavras.\/Veja a palavra bunda, Manoel\/Ela tem um bonito corpo f\u00f4nico al\u00e9m do propriamente.\/Apresentei-lhe a palavra gravanha.\/Por instinto lingu\u00edstico achou que gravanha\/seria um lugar entran\u00e7ado de espinhos e bem\/emprenhado de filhos de gravat\u00e1 por baixo. \/E era.\u201d Manoel escreveu que se n\u00e3o fosse a poesia todos n\u00f3s ser\u00edamos rob\u00f4s. E ser\u00edamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; No final da d\u00e9cada de 1990, soube que o poeta Manoel de Barros estava em Bras\u00edlia, numa exposi\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional. Peguei um gravador e fui l\u00e1 para entrevist\u00e1-lo. Ele me recebeu de maneira muito cordial, com os olhos faiscantes de menino que aprontou alguma. 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