{"id":1172,"date":"2020-07-04T09:13:58","date_gmt":"2020-07-04T12:13:58","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/?p=1172"},"modified":"2020-07-04T09:13:58","modified_gmt":"2020-07-04T12:13:58","slug":"a-estatua-do-padre-vieira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/severino\/a-estatua-do-padre-vieira\/","title":{"rendered":"A est\u00e1tua do padre Vieira"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Severino Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fiquei triste quando vi, na tev\u00ea, a est\u00e1tua do padre Antonio Vieira, com ind\u00edgenas agarrados em sua batina, ser pichada por manifestantes contra o racismo em Lisboa. Sou inteiramente solid\u00e1rio aos movimentos antirracistas, eles constituem um dos acontecimentos mais alentadores do nosso tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto, tenho a impress\u00e3o de que vandalizar monumentos n\u00e3o resolver\u00e1 em nada o problema do racismo e, al\u00e9m disso, contribuir\u00e1 para destruir a mem\u00f3ria. O melhor ant\u00eddoto \u00e9 conhecer a hist\u00f3ria e estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o cr\u00edtica com os seus personagens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se defendeu a liberdade dos \u00edndios de maneira contundente, a postura de Vieira em rela\u00e7\u00e3o aos negros escravizados \u00e9 contradit\u00f3ria. Ele dedicou v\u00e1rios serm\u00f5es ao tema. No c\u00e9lebre Serm\u00e3o vig\u00e9simo do Ros\u00e1rio, pregado diretamente aos escravos de uma irmandade, o sentimento humanista e crist\u00e3o de Vieira o leva comparar o mart\u00edrio dos negros ao que Cristo padeceu na cruz: \u201cEm seu engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis de um mundo muito semelhante ao que o mesmo Senhor padeceu na cruz, em toda a sua paix\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A saga dos escravos torna-se mat\u00e9ria de profunda medita\u00e7\u00e3o em outro serm\u00e3o, o vig\u00e9simo s\u00e9timo do Ros\u00e1rio: \u201cComparo o presente com o futuro, o tempo com a eternidade, o que vejo com o que creio, e n\u00e3o posso entender que Deus que criou estes homens tanto \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, como os demais, os predestinasse para dous infernos: um nesta vida, outro na outra\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A perplexidade se transmuta em indigna\u00e7\u00e3o, em alguns momentos: \u201cOh trato desumano, em que a mercancia s\u00e3o homens! Oh, mercancia diab\u00f3lica, em que os interesses se tiram das almas alheias, e os ricos das pr\u00f3prias!\u201d Em outro trecho, indaga: \u201cQuem vos sustenta no Brasil, sen\u00e3o os vossos escravos? Pois se eles s\u00e3o os que vos d\u00e3o de comer, por que lhes haveis de negar a mesa, que \u00e9 mais sua que vossa?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto, Vieira faz um estranho contorcionismo ret\u00f3rico e transfere a quest\u00e3o moral da escravid\u00e3o para o plano celeste. O padecimento da terra seria o pre\u00e7o da salva\u00e7\u00e3o no c\u00e9u: \u201cQue importa por\u00e9m que os senhores os n\u00e3o admitam \u00e0 sua mesa, se Deus os convida e regala com a sua?\u201d<\/p>\n<p>E continua: \u201cMas \u00e9 particular provid\u00eancia de Deus, e sua (da M\u00e3e do Redentor), que vivais de presente escravos e cativos, para que por meio do mesmo cativeiro temporal, consigais muito facilmente a liberdade eterna.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com isso, acaba justificando a mercancia dos escravos na terra. Al\u00e9m disso, Vieira se posicionou contra o plano do padre italiano Antonil, que pretendia transformar os mocambos do quilombo de Palmares em aldeamentos, nos quais os negros seriam evangelizados. \u201cEssa mesma liberdade (se concedida) seria a total destrui\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d, escreveu o autor de\u00a0<i>Os serm\u00f5es<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vieira gostava de alardear supostas e imagin\u00e1rias ascend\u00eancias fidalgas. Mas, na verdade, era mulato, filho de um funcion\u00e1rio do terceiro escal\u00e3o da Justi\u00e7a R\u00e9gia e de uma padeira da ordem franciscana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 um escritor extraordin\u00e1rio e foi al\u00e7ado por Fernando Pessoa \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201cimperador da l\u00edngua portuguesa\u201d. De minha parte, prefiro o Vieira que diz: \u201cA verdadeira fidalguia \u00e9 a a\u00e7\u00e3o; o que fazeis, isso sois, nada mais\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Severino Francisco &nbsp; Fiquei triste quando vi, na tev\u00ea, a est\u00e1tua do padre Antonio Vieira, com ind\u00edgenas agarrados em sua batina, ser pichada por manifestantes contra o racismo em Lisboa. 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