{"id":8595,"date":"2018-03-22T08:23:51","date_gmt":"2018-03-22T11:23:51","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/servidor\/?p=8595"},"modified":"2018-03-21T20:32:19","modified_gmt":"2018-03-21T23:32:19","slug":"amor-nao-correspondido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/servidor\/amor-nao-correspondido\/","title":{"rendered":"Amor n\u00e3o correspondido"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Devemos reconhecer, com certa melancolia, que o Brasil \u00e9 rico de recursos, mas segue atrasado, pobre e socialmente violento. Muitos culpam o capitalismo. Mas nem o capitalismo liberal nem a democracia pol\u00edtica foram praticados no Brasil de forma completa&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>Jos\u00e9 Pio Martins*<\/em><\/p>\n<div>\n<p>Eug\u00eanio Gudin, que viveu 100 anos (1886-1986), foi um brasileiro not\u00e1vel, com importante participa\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria do desenvolvimento nacional. Formando em Engenharia Civil, mas versado em outras \u00e1reas, ele se dedicou aos estudos de economia e passou a ensinar l\u00f3gica econ\u00f4mica aos estudantes de Engenharia e de Direito. Como te\u00f3rico autodidata, escreveu quatro obras de economia, com grande repercuss\u00e3o. Foi ele quem redigiu, em 1944, o Projeto de Lei que instituiu o curso de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas no Brasil.<\/p>\n<div class=\"c-assine-container\">\n<div>\n<p>O professor Gudin, como era conhecido, tinha uma obsess\u00e3o: ajudar o Brasil a ser um pa\u00eds rico e desenvolvido. Respeitado por sua intelig\u00eancia, cultura e conduta moral, muito cedo Gudin desacreditou da compet\u00eancia gerencial do governo e passou a defender limita\u00e7\u00e3o do Estado em suas interven\u00e7\u00f5es no <span id=\"OBJ_PREFIX_DWT1637_com_zimbra_date\" class=\"Object\"><span id=\"OBJ_PREFIX_DWT1650_com_zimbra_date\" class=\"Object\">dom<\/span><\/span>\u00ednio econ\u00f4mico e na vida das pessoas. Ele era um homem global e nunca entendeu por que o governo amava fazer d\u00edvidas em d\u00f3lar para pagar importa\u00e7\u00f5es, enquanto rejeitava investimentos estrangeiros em empresas no territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Gudin faleceu em outubro de 1986, oito meses ap\u00f3s a implanta\u00e7\u00e3o do Plano Cruzado pelo presidente Sarney, que congelou pre\u00e7os, prendeu pecuaristas, fechou supermercados e praticou um amontoado de insanidades em nome do combate \u00e0 hiperinfla\u00e7\u00e3o. Gudin, que houvera sido ministro da Fazenda por sete meses, de setembro de 1954 a abril de 1955, abominava invencionices em economia e, j\u00e1 indo para o fim de seu s\u00e9culo de vida, ele desabafou: \u201cO Brasil foi a amante que mais amei, e foi a que mais me traiu\u201d.<\/p>\n<p>O Brasil foi o amor n\u00e3o correspondido do professor Gudin e, com tristeza, ele dizia que sua gera\u00e7\u00e3o fracassou, pois, tendo tudo para atingir a grandeza, o Brasil insistia na mediocridade. O professor Gudin n\u00e3o ficou sozinho: desde sua morte em 1986 at\u00e9 <span id=\"OBJ_PREFIX_DWT1638_com_zimbra_date\" class=\"Object\"><span id=\"OBJ_PREFIX_DWT1651_com_zimbra_date\" class=\"Object\">hoje<\/span><\/span>, todas as gera\u00e7\u00f5es fracassaram na miss\u00e3o de atingir a riqueza econ\u00f4mica e eliminar a pobreza. Tendo tudo para ser rico, o pa\u00eds abriga milh\u00f5es de miser\u00e1veis.<\/p>\n<p>Em discurso de despedida do parlamento, Roberto Campos repetiu as palavras de Gudin, e disse mais: h\u00e1 pa\u00edses que s\u00e3o naturalmente pobres, mas vocacionalmente ricos (caso do Jap\u00e3o), e pa\u00edses que s\u00e3o naturalmente ricos, mas vocacionalmente pobres (caso do Brasil). Devemos reconhecer, com certa melancolia, que o Brasil \u00e9 rico de recursos, mas segue atrasado, pobre e socialmente violento. Muitos culpam o capitalismo. Mas nem o capitalismo liberal nem a democracia pol\u00edtica foram praticados no Brasil de forma completa.<\/p>\n<p>Aqui, tanto o capitalismo como a democracia foram usados apenas parcialmente e apresentaram muitos de seus defeitos sem <span id=\"OBJ_PREFIX_DWT1639_com_zimbra_date\" class=\"Object\"><span id=\"OBJ_PREFIX_DWT1652_com_zimbra_date\" class=\"Object\">ter<\/span><\/span> revelado todas as virtudes. O pa\u00eds \u00e9 parecido com o sujeito que, tendo grave doen\u00e7a, adere a um tratamento, por\u00e9m, toma metade dos medicamentos, erra na dosagem, confunde os hor\u00e1rios e agrega outras drogas que o m\u00e9dico n\u00e3o receitou. N\u00e3o obtendo a cura, ele culpa o m\u00e9dico e a receita, abstendo-se de assumir suas falhas.<\/p>\n<p>Agora mesmo, nos \u00faltimos quatro anos, o pa\u00eds se deu ao luxo de jogar quatro anos no lixo, com a brutal recess\u00e3o econ\u00f4mica, e mergulhar em profunda crise pol\u00edtica agravada pela rede de corrup\u00e7\u00e3o a\u00e7ambarcada pela opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e suas cong\u00eaneres. O Brasil tornou-se especialista em sabotar a si pr\u00f3prio e desperdi\u00e7ar as chances de crescer e de se desenvolver.<\/p>\n<div class=\"c-pedigree\"><em><span class=\"c-autor\">*Jos\u00e9 Pio Martins <\/span>&#8211; <\/em>economista, reitor da Universidade Positivo.<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Devemos reconhecer, com certa melancolia, que o Brasil \u00e9 rico de recursos, mas segue atrasado, pobre e socialmente violento. Muitos culpam o capitalismo. 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