{"id":4508,"date":"2017-03-06T12:03:42","date_gmt":"2017-03-06T15:03:42","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/servidor\/?p=4508"},"modified":"2017-03-06T12:03:42","modified_gmt":"2017-03-06T15:03:42","slug":"59-dos-aposentados-devem-no-consignado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/servidor\/59-dos-aposentados-devem-no-consignado\/","title":{"rendered":"59% dos aposentados devem no consignado"},"content":{"rendered":"<p><em>Dos 33,79 milh\u00f5es de benefici\u00e1rios do INSS, 20,05 milh\u00f5es contra\u00edram empr\u00e9stimos com desconto em folha. D\u00edvida de R$ 102,3 bilh\u00f5es representa R$ 5.104,46 para cada um, tr\u00eas vezes o valor m\u00e9dio que recebem mensalmente<\/em><\/p>\n<p><strong>ANTONIO TEM\u00d3TEO<\/strong><\/p>\n<p>Chegar \u00e0 velhice tem sido doloroso para milh\u00f5es de brasileiros. Mesmo ap\u00f3s uma vida de trabalho e sacrif\u00edcios, os aposentados e pensionistas da Previd\u00eancia n\u00e3o conseguem desfrutar do tempo livre com dinheiro no bolso. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram que, de cada 10 benefici\u00e1rios do sistema, pelo menos seis est\u00e3o endividados pela contrata\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito consignado.<\/p>\n<p>Grande parte dos idosos faz isso n\u00e3o para pagar as pr\u00f3prias contas, mas para sustentar filhos ou netos desempregados. Em outros casos precisam ajudar familiares que t\u00eam renda, mas insistem em manter um padr\u00e3o de vida acima do que o contracheque permitiria.<\/p>\n<p>Segundo o INSS, dos 33,79 milh\u00f5es de benefici\u00e1rios, 20,05 milh\u00f5es t\u00eam opera\u00e7\u00f5es com desconto em folha, 59% do total. Esse grupo devia R$ 102,3 bilh\u00f5es as institui\u00e7\u00f5es financeiras at\u00e9 janeiro de 2017, conforme dados do Banco Central (BC).<\/p>\n<p>O n\u00famero de segurados que t\u00eam uma parcela da renda comprometida com o pagamento de empr\u00e9stimos tende a ser bem maior, j\u00e1 que o INSS n\u00e3o tem controle sobre outros financiamentos contratados pelos aposentados.<\/p>\n<p>Com foco restrito no consignado, pode-se dizer que cada uma dos benefici\u00e1rios do INSS que contratou essa linha de financiamento deve, em m\u00e9dia, R$ 5.104,46. Esse valor \u00e9 tr\u00eas vezes maior do que o benef\u00edcio m\u00e9dio pago aos segurados da Previd\u00eancia em janeiro, de R$ 1.240,65.<\/p>\n<p>O cr\u00e9dito consignado tem sido a galinha dos ovos de ouro das institui\u00e7\u00f5es financeiras. Enquanto a crise econ\u00f4mica destruiu milh\u00f5es de empregos e levou os bancos a restringirem a oferta de linhas de financiamento, o apetite delas por benefici\u00e1rios do INSS s\u00f3 aumentou, j\u00e1 que o desconto em folha reduz muito a chance de calote.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ser a \u00fanica modalidade de cr\u00e9dito que n\u00e3o perdeu espa\u00e7o, teve crescimento de dois d\u00edgitos, em plena recess\u00e3o. O estoque de empr\u00e9stimos com desconto em folha de aposentados e pensionistas cresceu 15,6% nos \u00faltimos 12 meses encerrados em janeiro.<\/p>\n<p>A garantia de receber o pagamento diretamente do governo tranquiliza as institui\u00e7\u00f5es financeiras a manter os juros est\u00e1veis e garante a menor taxa de inadimpl\u00eancia do pa\u00eds, de apenas 1,9%. Nos \u00faltimos 12 meses, a taxa encolheu 0,7 ponto percentual, de 31,4% ao ano para 30,7%.<\/p>\n<p><strong>Armadilha<\/strong><\/p>\n<p>Entretanto, a facilidade para conseguir um empr\u00e9stimo consignado \u00e9 uma armadilha para quem n\u00e3o controla as finan\u00e7as e tem prejudicado a vida de milh\u00f5es de benefici\u00e1rios do INSS. A pensionista Rita de Sousa Fernandes, 75 anos, \u00e9 uma delas. H\u00e1 dois anos contratou um financiamento com desconto em folha para pagar contas atrasadas. A opera\u00e7\u00e3o comprometia R$ 175 do or\u00e7amento por 60 meses. Ap\u00f3s um per\u00edodo de pagamentos e a abertura de margem com o aumento no valor do benef\u00edcio, o gerente do banco fez a ela nova proposta, que foi prontamente aceita.<\/p>\n<p>Sem qualquer controle sobre quanto paga mensalmente \u00e0 institui\u00e7\u00e3o, Rita sabe apenas o valor que recebeu quando sacou o benef\u00edcio, porque estava com o comprovante da opera\u00e7\u00e3o na carteira: ficou s\u00f3 com R$ 913 para as despesas do m\u00eas.<\/p>\n<p>Esse dinheiro \u00e9 usado para pagar contas, comprar rem\u00e9dios e comida. Ela n\u00e3o se lembra a \u00faltima vez que comprou uma roupa. Com a filha e uma das netas desempregada, Rita tem sido o esteio da fam\u00edlia. Diante da perspectiva de mudan\u00e7as nas regras para concess\u00e3o de benef\u00edcios, corre para solicitar um benef\u00edcio adicional, por idade para pessoa com defici\u00eancia, j\u00e1 que \u00e9 cega de um olho.<\/p>\n<p>Caso o texto que tramita no Congresso Nacional seja aprovado antes do requerimento, Rita n\u00e3o ter\u00e1 direito a acumular os dois benef\u00edcios. \u201cA vida n\u00e3o est\u00e1 f\u00e1cil. Quem diz que a vida come\u00e7a ap\u00f3s os 60 est\u00e1 profundamente enganado\u201d, resume.<\/p>\n<p><strong>Incentivo ao consumo<\/strong><\/p>\n<p>O crescimento explosivo nas concess\u00f5es de cr\u00e9dito consignado ocorreu durante as gest\u00f5es de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que mantiveram o incentivo ao consumo mesmo ap\u00f3s a deflagra\u00e7\u00e3o da crise economia. Em setembro de 2015, o Congresso Nacional autorizou os benefici\u00e1rios do INSS a comprometer at\u00e9 35% da remunera\u00e7\u00e3o com empr\u00e9stimos com desconto em folha \u2014 antes eram 30%. O texto definiu que o limite adicional deve ser usado, exclusivamente, para o pagamento das despesas contra\u00eddas por meio de cart\u00e3o de cr\u00e9dito, de modo a reduzir o comprometimento com essa linha de cr\u00e9dito, mais cara.<\/p>\n<p>Um ano antes, em setembro de 2014, o Conselho Nacional de Previd\u00eancia Social (CNPS) aprovou a eleva\u00e7\u00e3o de 60 meses para 72 meses no prazo de pagamentos desses financiamentos. \u00c0 \u00e9poca, o extinto Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social calculou que a medida resultaria em um incremento anual de R$ 23,7 bilh\u00f5es no volume contratado pelos aposentados e pensionistas.<\/p>\n<p>Especialistas recomendam que o consignado seja usado pelos benefici\u00e1rios do INSS somente em uma emerg\u00eancia, jamais para consumir. O ideal, destacam os educadores financeiros, \u00e9 que ao longo da vida, uma poupan\u00e7a seja formada para garantir a queda de renda que ocorre no momento da aposentadoria, j\u00e1 que existe um teto para os benef\u00edcios.<\/p>\n<p><strong>Facilidade \u00e9 criticada<\/strong><\/p>\n<p>O fato de os benefici\u00e1rios do INSS estarem endividados \u00e9 um problema grave, avalia o coordenador de Previd\u00eancia do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), Rog\u00e9rio Nagamine. Ele explica que, com o comprometimento da renda, o que sobra \u00e9 pouco para fazer frente o aumento de despesas que a velhice traz. Em muitos casos, ressalta o especialista, os segurados fazem opera\u00e7\u00f5es que chegam ao limite da margem consign\u00e1vel e n\u00e3o se d\u00e3o conta de que a renda diminuir\u00e1 significativamente. \u201cPara quem ganha um sal\u00e1rio-m\u00ednimo ou o benef\u00edcio m\u00e9dio, \u00e9 uma queda brutal\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Nagamine ainda alerta que muitos segurados acumulam dividas al\u00e9m do consignado e isso agrava ainda mais o problema. Na opini\u00e3o dele, tanto o limite da renda que pode ser comprometida com os empr\u00e9stimos consignados como o prazo para pagamento das dividas precisa ser revisto pelo governo. \u201cAs parcelas v\u00e3o se acumulando e se tornam uma bola de neve. Essa situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m dificulta a recupera\u00e7\u00e3o da economia\u201d, comenta.<\/p>\n<p><strong>Desinforma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A falta de educa\u00e7\u00e3o financeira e de uma cultura previdenci\u00e1ria estimulam o crescimento do n\u00famero de benefici\u00e1rios e das d\u00edvidas dividas com consignado, explica Leonardo Rolim, consultor legislativo da C\u00e2mara dos Deputados e especialista em Previd\u00eancia. Ele ressalta que muitos segurados, sobretudo aqueles que se aposentam por tempo de contribui\u00e7\u00e3o, requerem o benef\u00edcio aos 55 anos, se mant\u00e9m no mercado de trabalho e t\u00eam um incremento na renda.<\/p>\n<p>Entretanto, detalha Rolim, isso \u00e9 uma armadilha, porque os segurados aceitam se aposentar com um benef\u00edcio menor que ser\u00e1 a renda quando decidirem deixar de trabalhar. Com a crise econ\u00f4mica, muitos perderam o emprego e tiveram uma queda brutal da renda. E a maneira encontrada para tentar solucionar o impasse e manter as contas em dia \u00e9 correr para o consignado. \u201cH\u00e1 quem passe toda a velhice pagando parcelas as institui\u00e7\u00f5es financeiras\u201d, diz.<\/p>\n<p>Rolim relembra que at\u00e9 2012, enquanto ocupou a Secretaria de Pol\u00edticas de Previd\u00eancia de Social do Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia Social, de cada 10 benefici\u00e1rios do INSS, apenas quatro tinham consignado contratado. \u201cO crescimento do n\u00famero de endividados \u00e9 preocupante porque muitos aposentados t\u00eam sustentado as fam\u00edlias nesse momento de crise. Alguns chegam a tomar empr\u00e9stimos para parentes e amigos e s\u00e3o obrigados a assumir as d\u00edvidas. Isso ainda acontece mesmo com os alertas para os riscos de fazer essas opera\u00e7\u00f5es nessas condi\u00e7\u00f5es\u201d, explica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dos 33,79 milh\u00f5es de benefici\u00e1rios do INSS, 20,05 milh\u00f5es contra\u00edram empr\u00e9stimos com desconto em folha. D\u00edvida de R$ 102,3 bilh\u00f5es representa R$ 5.104,46 para cada um, tr\u00eas vezes o valor m\u00e9dio que recebem mensalmente ANTONIO TEM\u00d3TEO Chegar \u00e0 velhice tem sido doloroso para milh\u00f5es de brasileiros. 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