{"id":2885,"date":"2016-09-20T11:16:39","date_gmt":"2016-09-20T14:16:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/servidor\/?p=2885"},"modified":"2016-09-20T11:16:39","modified_gmt":"2016-09-20T14:16:39","slug":"novos-ares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/servidor\/novos-ares\/","title":{"rendered":"Novos ares"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Zeina Latif*<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A pol\u00edtica e a sociedade est\u00e3o em descompasso, o que atrapalha a necess\u00e1ria corre\u00e7\u00e3o de rumos da economia e avan\u00e7o em uma agenda progressista. H\u00e1 raz\u00f5es, no entanto, para algum otimismo.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica sem precedentes abalou alicerces. Empresas enfrentam problemas financeiros e chefes de fam\u00edlias perdem o emprego. O impacto, no entanto, n\u00e3o se limita \u00e0s dificuldades cotidianas que tiram o sono de muitos. O fracasso da agenda econ\u00f4mica de Dilma &#8211; de intervencionismo, indisciplina fiscal e experimentalismo descuidado &#8211; vem tamb\u00e9m chacoalhando antigas convic\u00e7\u00f5es e despertando aqueles que discordavam dos rumos do pa\u00eds, mas estavam acomodados.<\/p>\n<p>Uma brisa liberalizante come\u00e7a a aliviar o ar contaminado por uma busca de paternalismo estatal pela classe empresarial e pela sociedade. H\u00e1 um reconhecimento crescente de que o atual de gigantismo estatal, que distingue o Brasil das experi\u00eancias bem-sucedidas de pa\u00edses pares, sufoca o crescimento e o avan\u00e7o nos indicadores sociais.<\/p>\n<p>O discurso das lideran\u00e7as tradicionais da ind\u00fastria que deram apoio \u00e0 agenda econ\u00f4mica de Dilma, aos poucos, perde espa\u00e7o para a vis\u00e3o de novas lideran\u00e7as que apontam os equ\u00edvocos daquela agenda e sua incompatibilidade com o crescimento sustentado da economia. Defendem a disciplina fiscal e uma agenda estruturante de redu\u00e7\u00e3o do custo-Brasil, com aprimoramento institucional e maior racionalidade e zelo na a\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n<p>Alguns que apoiaram o velho modelo de Dilma, felizmente, mudam de opini\u00e3o e outros que foram preteridos na agenda de est\u00edmulos setoriais digerem as duplas perdas, de antes e de agora, e pedem uma agenda econ\u00f4mica horizontal.<\/p>\n<p>Enfim, o setor produtivo, que promoveu um sofrido e expressivo ajuste, com corte de custos, demiss\u00f5es e reestrutura\u00e7\u00f5es internas, quer agora garantias de que o pa\u00eds n\u00e3o passar\u00e1 por esta experi\u00eancia novamente. Querem seguir adiante, e numa trajet\u00f3ria menos acidentada e com menor risco de retrocessos.<\/p>\n<p>A sociedade talvez ainda n\u00e3o compreenda a urg\u00eancia da reforma fiscal e da previdenci\u00e1ria. Mas o descontentamento e o desejo de mudan\u00e7a s\u00e3o inquestion\u00e1veis. N\u00e3o parece haver espa\u00e7o para a \u201cpol\u00edtica velha\u201d, sem transpar\u00eancia e di\u00e1logo. Hoje uma campanha eleitoral como a de 2014, provavelmente, n\u00e3o teria espa\u00e7o. Infantilizou-se a rela\u00e7\u00e3o com a sociedade, hoje mais conectada e participativa.<\/p>\n<p>A atitude da classe pol\u00edtica, no entanto, n\u00e3o ajuda. O governo anterior n\u00e3o admitiu os erros e o novo governo ainda n\u00e3o tem conseguido expor para a sociedade a heran\u00e7a recebida e as graves distor\u00e7\u00f5es no campo fiscal, e assim explicar a necessidade de ajuste. Essas posturas podem adiar o amadurecimento do pa\u00eds, mas n\u00e3o o impede.<\/p>\n<p>O pa\u00eds est\u00e1 mudando, o que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 de grande import\u00e2ncia. O movimento em dire\u00e7\u00e3o a reformas modernizantes parece inevit\u00e1vel. O que n\u00e3o sabemos \u00e9 a sua velocidade.<\/p>\n<p>Isso depender\u00e1 em boa medida da pol\u00edtica. \u00c9 crucial que a pol\u00edtica esteja conectada com o processo amadurecimento em curso e consiga conduzir essa transi\u00e7\u00e3o para que o pa\u00eds supere mais rapidamente a resist\u00eancia de setores organizados que n\u00e3o desejam ajustes; ou quando os desejam, s\u00e3o apenas para os outros.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que a pol\u00edtica conseguir\u00e1 reagir \u00e0 altura ao clamor por mudan\u00e7as? Haver\u00e1 postura respons\u00e1vel com o futuro do pa\u00eds ou a classe pol\u00edtica ficar\u00e1 presa a interesses paroquiais imediatistas? Como ser\u00e1 a atua\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o: de revanchismo e vis\u00e3o ideol\u00f3gica, batendo na mesma tecla de velhas bandeiras do passado, ou ter\u00e1 discurso e atua\u00e7\u00e3o respons\u00e1veis e antenados com a sociedade em muta\u00e7\u00e3o? Quando a crise de lideran\u00e7as, apontada unanimemente por analistas pol\u00edticos, ser\u00e1 superada com a desejada renova\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica?<\/p>\n<p>A concorr\u00eancia na pol\u00edtica existe e \u00e9 uma vari\u00e1vel cr\u00edtica para a renova\u00e7\u00e3o, substituindo pol\u00edticos com ideias obsoletas por outros mais capazes de compreender os novos anseios da sociedade por transpar\u00eancia, responsabilidade com a coisa p\u00fablica e igualdade. Radicalismos de esquerda e de direita, possivelmente, v\u00e3o ficar no lugar que lhes cabe: na margem.<\/p>\n<p>H\u00e1 um abismo entre sociedade e pol\u00edtica, especialmente em tempos de Lava-Jato. O tempo da sociedade e da pol\u00edtica n\u00e3o est\u00e3o sincronizados. O abismo, no entanto, tende a se estreitar.\u00c9 uma quest\u00e3o de tempo. \u00c0 luz das transforma\u00e7\u00f5es recentes, talvez n\u00e3o seja tanto tempo assim.<\/p>\n<p><em>*<span class=\"st\">Economista-chefe da XP Investimentos<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zeina Latif* A pol\u00edtica e a sociedade est\u00e3o em descompasso, o que atrapalha a necess\u00e1ria corre\u00e7\u00e3o de rumos da economia e avan\u00e7o em uma agenda progressista. H\u00e1 raz\u00f5es, no entanto, para algum otimismo. A crise econ\u00f4mica sem precedentes abalou alicerces. Empresas enfrentam problemas financeiros e chefes de fam\u00edlias perdem o emprego. 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