Rodrigo França questiona a humanidade em cena

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No ar em Arcanjo renegado, multiartista e ativista carioca potencializa representatividade preta

Patrick Selvatti

Ator, autor, produtor e produto. Rodrigo França é uma potência, principalmente quando se fala em representatividade negra. Escritor de três livros, inovou ao trazer para a literatura a figura do Pequeno Príncipe Preto, fruto de uma peça de teatro que exalta a beleza e a ancestralidade negra como símbolo de realeza. Somente neste ano, França está à frente de três peças teatrais — incluindo a aclamada JORGE para sempre VERÃO, que homenageia o ícone Jorge Laffond e seu personagem Vera Verão. “Não conheço outro artista completo. A cultura deste país deve ao Laffond, querendo ou não”, exalta.

No cinema, o multiartista de 45 anos assinou a direção do filme Barba, cabelo & bigode, com Solange Couto e Lucas Koka Penteado, disponível na Netflix. No streaming, aguarda a estreia da série Veronika e da terceira temporada do sucesso Arcanjo renegado, produções em que atua. E, há algumas semanas, marcou presença no especial exibido pelo Multishow, o Humor Negro, que tonaliza as vozes negras da comédia no Brasil.

Humor negro

Estrelado apenas por comediantes pretos com stand-up e esquetes inspiradas no cotidiano, o projeto busca ressignificar uma expressão associada ao racismo, ainda que, para Rodrigo, existam fatos históricos que não dá para amenizar contextualizando à época ou mesmo personalidades. “Porém, a formação linguística a partir do colonizador trará alguns termos pejorativos que grupos ou coletivos podem ressignificar. Trazer o termo Humor Negro como uma espécie de gênero veio da jornalista Val Benvindo. Porque fazemos uma comédia diferenciada. O nosso fazer rir não é uma forma de opressão, como outras escolas de humor”, argumenta ele, que celebra 31 anos de carreira e, apesar das décadas de estrada, especialmente nos palcos, passou a ser conhecido nacionalmente ao participar do Big Brother Brasil, em 2019.

Tolerância

Atacar o preconceito e a intolerância é uma marca do trabalho de França, ativista pelos direitos civis, sociais e políticos da população negra no Brasil. Em Veronika, que será exibida pelo Globoplay, ele dá vida a Pai Adhemar, um sacerdote religioso que tem o seu terreiro invadido pela milícia. Para ele, a ficção forma parte da moral do brasileiro e é importante que ela retrate a realidade que choca e necessita de intervenção. “Colocar como cena, de forma responsável, um terreiro sendo depredado por intolerância religiosa é fundamental. Não estará de forma gratuita, descontextualizada”, explica.

Rodrigo lembra que ainda se banaliza mortes como a da liderança quilombola e Ialorixá Bernadete Pacífico. “A arte não consegue modificar uma sociedade, mas faz a sociedade refletir sobre si”, defende o ator, que, em Arcanjo renegado, empresta o corpo ao deputado estadual Ivanir Semog, aliado da personagem de Cris Vianna, a Maíra, que é presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. “É fundamental termos personagens feitos por atores e atrizes negros na grande esfera do poder político partidário com ótimas narrativas.”

Narrativa é poder

Para França, o movimento que vem colocando pretos no protagonismo nas novelas é um feito que deve ser comemorado, mas sem se acomodar. “Negar o avanço seria negar uma luta histórica. Mas ainda estamos caminhando lentamente. Não tem como regredir, mas temos que avançar mais”, observa. O carioca acredita na importância de que os profissionais negros estejam em todos os campos do audiovisual.

“Porque narrativa é poder, que estejamos escrevendo, dirigindo, iluminando… E que possamos encontrar personagens negros e negras com uma história digna, decente e que represente potência”, acrescenta Rodrigo, destacando que ainda se vê o fetiche sobre as dores do povo preto, principalmente com o período de escravização sendo contado de forma “leviana e irresponsável”. “Nós amamos, consumimos, sonhamos… Onde está a nossa humanidade em cena?”, questiona.

Patrick Selvatti

Sabe noveleiro de carteirinha? A paixão começou ainda na infância, quando chorou na morte de Tancredo Neves porque a cobertura comeu um capítulo de A gata comeu. Fã de Gilberto Braga, ama Quatro por quatro e assiste até as que não gosta, só para comentar.

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