‘Overcompensating’ mergulha na excelência das produções autorais

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Insecure (2016), Fleabag (2016), Bebê Rena (2024), Chewing Gum (2015). Apesar de diferentes em diversos aspectos, essas séries compartilham uma característica em comum: são produções autorais e autobiográficas. Ou seja, uma pessoa criou, escreveu, dirigiu e atuou na narrativa da própria vida — retratando momentos não tão positivos. Não é algo exatamente inédito, mas ainda encanta pela forte ligação que consegue estabelecer com o público. Agora, um novo exemplo desse modelo estreia no Prime Video: Overcompensating.

A série — que conta com oito episódios na primeira temporada — foi criada, escrita, produzida e protagonizada por Benito Skinner e narra a história de Benny. Ele é um jovem que acaba de entrar na universidade e precisa lidar com o enorme desafio de esconder a homossexualidade. Logo no primeiro dia, Benny conhece Carmen (Wally Baram), uma garota solitária com quem forma uma amizade cheia de altos e baixos.

Overcompensating: amizades nada perfeitas, mas muito reais — Crédito: Divulgação/Sabrina Lantos/Prime Video

Desde o início, Overcompensating não esconde os profundos traços de comédia pastelão — piadas sexuais, xingamentos, risadas de pessoas caindo — em uma atualização do que se tornou popular com a franquia American Pie. “Atualização” de forma relativa, porque a série se passa na década de 2010 e dá um show ao apresentar referências desse momento tão peculiar na vida de todos os Millennials, seja em gírias, músicas ou estilo.

O que impressiona mesmo é como Overcompensating consegue contrapor todo o tom “besteirol” com o delicado tema de se assumir gay em um ambiente inseguro e vulnerável como a universidade. Skinner usa a própria experiência para mostrar como a dor de uma pessoa LGBTQIA+ que não se aceita convive em um complexo ecossistema social em que outras coisas (boas ou não) continuam acontecendo. Não há militância, mas sim uma representação sincera sobre o assunto.

Após oito episódios, fica claro que Overcompensating não se move por ego, ou seja, não se leva a sério. Naturalmente, essa leveza causa alguns ruídos — como a longa cena de crise de diarreia e vômito no quarto episódio. Contudo, essa leveza é a peça base que arranca algumas risadas e sustenta uma ligação de intimidade com o público.

Overcompensating além do protagonista

Soma-se a isso o arrojado (e não tão jovem) elenco coadjuvante. Indo além das caras e bocas que as atuações desse gênero pressupõem, Mary Beth Barone (que interpreta Gracie, a irmã de Benny), Adam DiMarco (que dá vida ao inescrupuloso Peter) e até Wally conseguem entrar e sair das cenas com fluidez, e com os conflitos dos personagens bem representados. O elenco só não ganha nota 10 pelo preguiçoso desenvolvimento de Rish Shah, que interpreta Miles, o interesse romântico de Benny.

Em síntese, Overcompensating é divertida, engraçada e consegue transmitir uma mensagem mais profunda do que o gênero besteirol costuma permitir. Uma surpreendente novidade que pode ser explicada pela excelência da ligação entre séries autorais e autobiográficas com o público.

Ronayre Nunes

Jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB). No Correio Braziliense desde 2016. Entusiasta de entretenimento e ciências.

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