O cheiro de naftalina de uma gostosa nostalgia

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O Viva passou a exibir Escrito nas estrelas, obra que estava no ar originalmente em 2010, exatamente no ano de inauguração do canal

Humberto Martins e Nathália Dill são os protagonistas de Escrito nas Estrelas | Divulgação Globo

Por Patrick Selvatti

O ano é 2010. A Netflix nasce com a proposta de ser uma espécie de video locadora de filmes e séries para assistir on-line, o embrião do streaming. Surgindo no mesmo ano, o Canal Viva também causa um frenesi entre os amantes da televisão. Especialmente na turma da nostalgia, que está ávida por rever antigos produtos, mas lhe resta fazer buscas desordenadas no YouTube e contentar-se com imagens de péssima qualidade, muitas vezes extraídas de gravações do bom e velho vídeo cassete.

Logo de cara, os telemaníacos são presenteados com a oportunidade de rever na TV uma trinca de novelas de altíssimo poder de atração: Quatro por quatro (1994), Por amor (1997) e a clássica das clássicas, Vale tudo (1988). Esta última, por sinal, vem com a promissora proposta de inaugurar uma faixa dedicada essencialmente às produções com cheiro de naftalina. De acordo com o novo canal da TV a cabo, pertencente ao grupo Globo, o objetivo é trazer de volta sucessos mais antigos, campeões de audiência desejados e solicitados no Vale a pena ver de novo, mas que não têm a qualidade de imagem necessária para a Era HD que passa a vigorar na emissora-mãe.

Nesses últimos 13 anos, não dá para afirmar que a promessa não foi cumprida. Após a exibição festejada da valiosa trama assinada por Gilberto Braga e Aguinaldo Silva, outros “mofos preciosos” foram retirados do fundo do armário. Para matar a saudade do público mais antigo e a curiosidade dos mais jovens, o Canal Viva exibiu clássicos de quando o Brasil ainda não era tetracampeão, desconhecia o real como moeda e sequer sonhava com a internet. Tieta (1989), Roque Santeiro (1985), A gata comeu (1985), Baila comigo (1981), Água viva (1980), Dancin Days (1978), Pai Herói (1978) e A sucessora (1978) são alguns exemplos de títulos que estavam esquecidos no churrasco e puderam ser apreciados, simultaneamente, com peças mais recentes do acervo, lançadas no mundo pós queda do muro de Berlim, mas igualmente festejadas e repletas de saudosismo. Como, por exemplo, Barriga de aluguel (1990), A viagem (1994), O rei do gado (1995), Anjo mau (1997), Laços de família (2000) e tantos outros sucessos inesquecíveis da teledramaturgia brasileira.

Entretanto, não dá para viver do passado. Nem mesmo o Viva, uma prestadora de serviço que surgiu justamente desse desejo de resgate da memória. Ao contrário de um museu, que busca manter sua coleção o mais íntimo possível da antiguidade, o canal por assinatura caminha no tempo e, ao passo em que os anos avançam, o intervalo do que é considerado antigo também. Dessa forma, depois de trazer ao catálogo campeões de audiência não tão datados assim — como Senhora do destino (2004) e Caminhos das índias (2009), que poderiam muito bem retornar ao Vale a pena ver de novo —, eis que, nessa semana, o Viva passou a exibir Escrito nas estrelas, obra que estava no ar originalmente em 2010, exatamente no ano de inauguração do canal.

Para os mais velhos, que ainda sentem aquela necessidade de retorno ao mais longínquo do calendário, fica a sensação de frustração. Até porque obras desse período mais jurássico da TV ainda não foram revisitadas, como O astro (1977), Sol de verão (1982) e Louco amor (1983), para citar alguns exemplos. De toda forma, não dá para condenar o Viva pela falta de coerência. Afinal, Escrito nas estrelas tem a mesma idade que Por amor tinha quando inaugurou o canal. A lição que fica é de que, assim como as novelas, nós também precisamos aprender a envelhecer.

Patrick Selvatti

Sabe noveleiro de carteirinha? A paixão começou ainda na infância, quando chorou na morte de Tancredo Neves porque a cobertura comeu um capítulo de A gata comeu. Fã de Gilberto Braga, ama Quatro por quatro e assiste até as que não gosta, só para comentar.

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