‘Boots’ tem qualidades, mas erra ao tentar ser engraçada

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Os fãs de séries devem se lembrar de meados dos anos 2000, quando as dramédias começaram a ganhar espaço nas telinhas. É difícil cravar a precursora do gênero, já que traços desse tipo de produção podem ser identificados desde E.R. e Early Edition (ainda nos anos 1990), até sucessos dos anos 2000, como Desperate housewives e Nurse Jackie.
A partir de 2010, as dramédias conquistaram tanto espaço que quase se tornaram regra. Mesmo nas séries com “episódio da semana” (as chamadas “procedurals”), era preciso incluir uma piada em meio a um enredo sério. A verdade, contudo, é que, apesar da popularidade, as dramédias não são fáceis de colocar na tela. Boots mostra isso na prática: a nova produção da Netflix tem qualidades que a fazem prosperar, mas tropeça ao tentar equilibrar humor e drama.

A primeira temporada da série, criada por Andy Parker e baseada no livro The pink marine, de Greg Cope White, acompanha a verdadeira saga de Cameron Cope (Miles Heizer), um jovem gay que decide entrar para o treinamento do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos para acompanhar o melhor amigo, Ray (Liam Oh) — tudo isso em meados dos anos 1990. Boots foi vendida nas redes sociais como “a série que mostra o mundo gay no exército”, mas vai bem além disso.

Como é possível imaginar, o ambiente militar não é acolhedor para homossexuais — pelo contrário. O treinamento também não é fácil para Cope. Ainda assim, movido pelo amor ao país e pela crença no direito de estar onde quiser, ele tenta prosperar ao lado de outros jovens, que também enfrentam seus próprios dilemas.

Boots tem qualidades importantes, e a maior delas é saber apresentar boas histórias. Todos os arcos de Cope — da mãe disfuncional ao “clone” imaginário — são interessantes, e os personagens coadjuvantes também são excepcionais. No início da série, destacam-se os gêmeos Cody e John Bowman (interpretados por Brandon Tyler Moore e Blake Burt, respectivamente), com uma trama cheia de camadas e bem conduzida. Já no meio da temporada, o foco se volta para Sullivan (Max Parker), o sargento gay que se esconde nas profundezas de um armário de amargura e mágoas. Os coadjuvantes são tão bons que isso se torna um problema: acabam “roubando” o interesse do público em Cope, que, em certos momentos, desaparece para dar espaço às outras histórias.

O drama, a comédia e o exército

Retratar as forças armadas norte-americanas não é novidade em Hollywood — há inúmeros exemplos entre filmes e séries. Ainda assim, o tema continua a despertar curiosidade, e Boots mantém o interesse com ritmo ágil e personagens envolventes.

O principal tropeço da produção, porém, está no esforço forçado de transformá-la em uma dramédia. Chega a ser desconfortável ver o peso emocional de uma cena ser quebrado por uma piada de peido ou fezes. Não parece ser essa a forma mais eficaz de explorar o gênero.

Boots entretém, emociona e tem bons momentos. Mas não espere gargalhadas nem um drama profundo. Nesse meio-termo, a série perde parte da força — e mostra que fazer rir e chorar na mesma medida continua sendo um desafio para a TV.

Em síntese, Boots é um retrato sincero de uma geração que tenta se encontrar entre vulnerabilidade e bravura — e que, por isso mesmo, merecia uma condução mais cuidadosa. Ainda que falhe em dosar o riso e o choro, a série acerta ao lembrar que coragem nem sempre tem uniforme, e que às vezes o verdadeiro campo de batalha é simplesmente o de ser quem se é.

Ronayre Nunes

Jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB). No Correio Braziliense desde 2016. Entusiasta de entretenimento e ciências.

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