Análise: “Vale tudo” é um clássico harmonizado… e descaracterizado

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É compreensível que a produção seja rejuvenescida, mas é imperdoável que se “botoxize” a obra icônica de Gilberto Braga até que se assemelhe a um folhetim de Manoel Carlos

Patrick Selvatti

Após duas semanas no ar, impõe-se uma constatação: a interpretação ainda carente de maturação de Bella Campos no papel de Maria de Fátima não configura o principal entrave do remake de Vale tudo. Compará-la a Glória Pires — já então com duas décadas de trajetória artística em 1988 — evidencia, de fato, suas limitações. No entanto, a jovem atriz, embora desejosa de maior refinamento, cumpre, com dignidade, os preceitos básicos do ofício. O cerne da problemática reside no texto adaptado por Manuela Dias.

A narrativa concebida por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères em 1988 foi um retrato vívido de sua era: um Brasil em transição democrática, assolado por dilemas econômicos e feridas sociais profundas. Ainda assim, a essência de Vale tudo transcende sua época. É inegável que muitas circunstâncias tidas como naturais àquele tempo hoje se revelam anacrônicas, até mesmo repulsivas. Contudo, não houve uma transformação sociocultural tão radical a ponto de justificar a conversão de um drama denso e provocativo em um folhetim brando e asséptico inadequado ao horário pós-Jornal Nacional.

O que se vê é um processo de “harmonização” da obra original. É compreensível — até desejável — que a produção seja rejuvenescida, mas é artisticamente imperdoável que se “botoxize” a obra icônica — um clássico — de Gilberto Braga — com suas marcas inconfundíveis — até que, com estética solar e conflitos aburguesados girando em torno de uma mãe abnegada e uma filha ingrata, a novela se assemelhe a um folhetim de Manoel Carlos — por melhor que eles fossem. A Brasil cantada por Gal Costa e a abertura propriamente dita se mantém, mas a letra da canção do Cazuza e as imagens que permeiam o clipe referem-se a uma outra novela, que — é inequívoco afirmar — não está sendo exibida. Teria sido melhor terem programado uma bossa nova de Tom Jobim sobre imagens de fotos antigas de mãe e filha ao longo da vida.

Não se pode apontar com precisão se a responsabilidade recai sobre a autora, a direção ou as instâncias superiores da emissora, mas o que se apresenta é uma versão suavizada de Vale tudo — perfeitamente palatável à faixa das 18h, por que não? A atualização promove uma sucessão de cenas que causam a incômoda sensação de desalinho narrativo, como se algo essencial estivesse irremediavelmente fora de lugar. Algo como: “eu te conheço, mas você não era bem assim…” quando se reencontra um velho amigo e percebe-se, nas pequenas sutilezas, que ele era preferível ao natural, sem os equivocados procedimentos estéticos realizados.

Um indicativo dessa esterilização dramática é a diluição dos temas sociais, outrora abordados com contundência. Salvo a trajetória de Raquel — interpretada com vigor e sutileza por Taís Araújo e cuja narrativa e intensidade permanecem quase intactas —, nos perguntamos em que outro ponto a nova versão permanece fiel ao espírito original? A espinha dorsal da trama persiste, mas revestida por um verniz que fragiliza o texto e esvazia personagens outrora complexos.

O temor de atribuir atitudes politicamente incorretas aos protagonistas masculinos, por exemplo, resulta em figuras empobrecidas, esvaziadas de sua ambivalência humana. Veja-se Afonso, vivido por Humberto Carrão, que perde sua natureza mimada e possessiva para dar lugar a um namorado melancólico, excessivamente sensível e engajado em causas sociais — uma reformulação que elimina camadas realistas e esmaece sua força dramática. Assim como o desfecho da passagem de Franklin (Samuel Melo), amigo de César (Cauã Reymond), ao ser expulso pelo dono do apartamento que os dois ocupavam. Na versão original, o homem se mostra furioso e impiedoso com Maria de Fátima, mas acolhe o rapagão sarado revelando segundas intenções.  Nesta, Franklin sequer se despede, tampouco se explicita uma interação sexual entre ele e o proprietário do imóvel. Sutilezas que denunciam um inescapável receio de polemizar…

Leila (Carolina Dieckmann) e Bruno (Miguel Moro): dinâmica familiar enfraquecida | Globo/Divulgação

Mais grave, contudo, é o caso de Ivan. O protagonista de Renato Góes se resume a um homem de 40 anos frustrado profissionalmente, que passa inúmeros capítulos fugindo do pai — um Bartolomeu mais inconveniente que o original — para esconder sua inépcia. A virilidade inquieta e contestadora do Ivan de Antônio Fagundes, visível até na impostação vocal, foi substituída por uma postura submissa, quase apática. A crítica ao sistema capitalista, ao desemprego estrutural e às formas veladas de assédio moral e até a sagacidade natural das criaturas geradas pelo genial Gilberto Braga foram, até o momento, solenemente negligenciadas. Ao invés da indignação ardente e da malícia oportunista do personagem, vemos um burocrata que clama para que o superior leia seu relatório — sem sequer suspeitar da participação dele na corrupção que insiste em denunciar.

A personagem Leila, outrora assassina de Odete Roitman e pivô de cenas memoráveis, perdeu por completo sua relevância. Na pele de Carolina Dieckmann, a figura antes interpretada com intensidade por Cássia Kiss tornou-se mero adorno. Suas falas incisivas e seus confrontos com Ivan — fundamentais para o desenvolvimento emocional do protagonista, inclusive — foram substituídos por uma presença discreta e quase ornamental. Até mesmo sua interação inicial com Marco Aurélio (Alexandre Nero, muito bem, por sinal) e Renato Filipelli (João Vicente de Castro) — que deveria delinear um triângulo amoroso — foi eliminada, até então.

Outro fator preocupante, aliás, é o esvaziamento de personagens coadjuvantes de importância substancial. Além da própria Leila — com a sua intérprete de peso rebaixada inclusive nos créditos de abertura —, outras figuras foram relegadas à margem. Onde está o otimismo exacerbado de Poliana (Matheus Nachtergaele), que gerou, inclusive, seu apelido exótico? E a gula sexual de Aldeíde (Karine Teles), uma notável devorada de homens jovens e sarados de praia, que a leva a hesitar quando recebe o pedido de casamento de um milionário bem mais velho? De que adianta alardear a sobrevivência de um casal lésbico se Cecília (Maeve Jinkings) e Laís (Lorena Lima) mal possuem tempo de tela? É receio da reação do público conservador que também pode anular a dupla? E o que restou do mordomo Eugênio (Luís Salém), antes um cinéfilo encantador e agora reduzido a um servo monocórdico, em participações episódicas e destituídas de brilho?

Por que transformar personagens tão luminosos em meros figurantes? Adaptar de 1988 para 2025 não é uma justificativa! Ainda mais tendo o privilégio de ostentar no elenco artistas reconhecidamente valiosos.

À luz dessas considerações, é necessário revisitar uma analogia feita no início. Para se assemelhar a uma novela de Manoel Carlos, não basta exibir um Rio de Janeiro idílico, colorido e solar, permeado por dramas cotidianos. Afinal, até mesmo os personagens de “Maneco” apresentam maior densidade psicológica do que os arquétipos genéricos que povoam esta versão quase anêmica de Vale tudo.

A expectativa segue concentrada na chegada de Odete Roitmann, a perversa vilã que marcou a história da teledramaturgia. O que é um incêndio de grandes proporções prestes a ser ativado. Afinal, por mais que Debora Bloch seja uma veterana inegavelmente apta a segurar o peso de uma personagem tão icônica, quase mitológica, haja estofo para salvar um texto com uma abordagem tão oca.

Patrick Selvatti

Sabe noveleiro de carteirinha? A paixão começou ainda na infância, quando chorou na morte de Tancredo Neves porque a cobertura comeu um capítulo de A gata comeu. Fã de Gilberto Braga, ama Quatro por quatro e assiste até as que não gosta, só para comentar.

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