Dona de Mim Leona, protagonista de ‘Dona de Mim’, vivida por Clara Moneke Leona (Clara Moneke) | Globo/ Manoella Mello

Análise: “Dona de mim” se despede como um marco controverso

Publicado em Novela

Fica como legado a discussão sobre como contar, hoje, histórias populares atravessadas por complexidade emocional — e reafirma Rosane Svartman como uma mente disposta a correr riscos, mesmo quando o resultado se revela tão desigual quanto estimulante

Patrick Selvatti

No final de 2023, poucos meses após o término do sucesso Vai na fé, tive a oportunidade de me conectar com a autora Rosane Svartman — com louvor, uma das melhores da atualidade. Em um papo longo, detalhado, conversamos sobre o sucesso dessa sua primeira novela solo, repetindo o feito das anteriores escritas em parceria com Paulo Halm, e da expectativa para o trabalho seguinte, do que a criadora consagrada tinha mente para uma nova obra que conquistaria o Brasil. O anúncio de Dona de mim para ocupar o horário das 19h veio um ano depois, com a premissa que dialogava com a linha marcante da novelista — uma protagonista com ares de conto de fadas, mas com a força de uma guerreira: a babá Leona, uma jovem preta do subúrbio que, após perder um bebê, encontra na menina órfã adotada por uma família rica de quem passa a cuidar a chance de superar sua maior dor.

Corta para janeiro de 2026. Nesta sexta-feira (9), Dona de mim chega ao fim como uma das novelas mais discutidas do horário das sete nos últimos anos, não por ter alcançado unanimidade ou consagração imediata, mas justamente por expor, de forma bastante visível, os desafios contemporâneos do folhetim popular. A novela se propôs a atualizar o gênero ao deslocar o conflito central do embate maniqueísta para o terreno da subjetividade, da saúde emocional, das relações familiares e das contradições íntimas de seus personagens. Deu bom, mas não chegou a garantir o mesmo brilhantismo das anteriores, que seguiram receitas de bolo mais tradicionais.

Davi (Rafa Vitti), Ayla(Bel Lima), Samuel (Juan Paiva), Rosa (Suely Franco), Sofia (Elis Cabral), Abel (Tony Ramos), Filipa (Claudia Abreu) e Leona | Globo/Divulgação

Interesse x desgate

Desde a estreia, em abril de 2025, a obra foi recebida com expectativa e desconfiança. A proposta temática era clara e coerente com a trajetória da talentosa autora — associada a uma dramaturgia voltada para o diálogo com o presente —, mas a identidade visual e a abertura pouco inspiradas já indicavam que a novela teria dificuldade em se comunicar de forma mais imediata com o público acostumado à leveza tradicional do horário. A audiência confirmou esse movimento irregular: houve períodos de bom desempenho e estabilidade, alternados com quedas significativas, refletindo uma recepção marcada por interesse, mas também por desgaste, acentuado pela duração excessiva da trama, que se estendeu por mais de 200 capítulos e acabou diluindo conflitos, retardando resoluções e ampliando a sensação de cansaço narrativo ao longo do tempo.

No centro da narrativa esteve uma protagonista construída deliberadamente fora do molde clássico da mocinha carismática e infalível. Sua trajetória controversa foi um dos eixos mais discutidos da novela. Interpretada pela jovem atriz Clara Moneke, que já havia se destacado positivamente em um papel periférico de Vai na fé, Leona errou, insistiu em decisões questionáveis, voltou atrás e reincidiu em conflitos já conhecidos, o que dividiu o público entre identificação e rejeição. A aposta de Rosane Svartman em uma heroína falha, atravessada por inseguranças e recaídas, foi conceitualmente ousada e coerente com o discurso da obra, mas sofreu com a dilatação excessiva da trama, que transformou complexidade em repetição e enfraqueceu a empatia de parte dos espectadores. Uma grande prova disso foi a sua constante idas e vindas com os mocinhos da trama, deixando muito em aberto quem, de fato, era o dono do seu coração — dividindo a torcida de um jeito diferente, sem grandes afetos e muitas rejeições.

Os protagonistas masculinos refletiram essa mesma oscilação. Samuel (Juan Paiva, um dos maiores atores desta geração) teve um arco marcado por indefinições, alternando momentos de maturidade emocional com atitudes incoerentes, muitas vezes ditadas mais pela necessidade de sustentar conflitos do que por uma evolução orgânica. Já o Davi de Rafa Vitti acabou esvaziado dramaticamente, tornando-se um personagem reativo, refém das idas e vindas da trama. Em contraste, o policial Marlon (bem defendido pelo novato Humberto Morais) emergiu como um dos acertos mais evidentes da novela: seu percurso introspectivo, construído com mais silêncio e coerência, ofereceu um retrato masculino sensível e consistente, frequentemente citado como um dos pontos altos da narrativa.

Ainda no universo masculino, a presença do patriarca Abel Boaz funcionou como um pilar dramático decisivo, ainda que breve. Carismático e central, ele trouxe densidade e gravidade à história, sustentadas sobretudo pela potência cênica do veterano e incontestável Tony Ramos, que imprimiu ao personagem uma autoridade afetiva rara, feita menos de gestos grandiosos e mais de silêncios, olhares e pausas carregadas de sentido. Sua atuação conferiu espessura humana ao empresário, transformando-o em uma figura capaz de organizar o entorno emocional da narrativa, seja como referência moral, seja como catalisador de conflitos. 

Mas a morte precoce do personagem representou uma das escolhas mais ousadas da novela, e seu impacto foi imediato e potente, reorganizando relações, instaurando um clima de luto e ruptura e evidenciando o peso simbólico que Tony Ramos havia construído em cena. Ao mesmo tempo, sua ausência deixou um vazio estrutural que a novela demorou a preencher, reforçando a sensação de que um de seus motores dramáticos — e um de seus intérpretes mais sólidos — havia sido retirado cedo demais, com consequências profundas para o equilíbrio da história.

Como Filipa e Abel, Claudia Abreu e Tony Ramos se reencontraram em cena após quase 20 anos  | Globo/Divulgação

Triunfo feminino

Entre os grandes trunfos de Dona de mim esteve o elenco feminino experiente, em especial a construção cuidadosa de personagens que ganharam densidade para além de suas funções narrativas. De volta à cena após nove anos de hiato, Cláudia Abreu, como Filipa, compôs uma mulher atravessada por ambiguidades morais e afetivas, fugindo do maniqueísmo fácil. Filipa não foi desenhada como vilã nem como figura plenamente redentora, mas como alguém marcada por contradições, escolhas equivocadas e tentativas sinceras — ainda que nem sempre bem-sucedidas — de reparação. Seu arco foi construído em camadas, revelando aos poucos fragilidades, culpas e um desejo constante de controle que escondia insegurança e medo da perda. A experiente Cacau imprimiu sofisticação à personagem ao equilibrar dureza e vulnerabilidade, fazendo de Filipa uma presença inquietante e, ao mesmo tempo, profundamente humana.

Já a magistral Suely Franco ofereceu à novela uma personagem que funcionava como memória viva e consciência afetiva da história. Rosa foi construída a partir de uma sabedoria que não vinha da idealização, mas da experiência e das marcas do tempo. Seu arco dialogou com temas como envelhecimento, pertencimento e a transmissão de afetos entre gerações, muitas vezes servindo como contraponto emocional aos conflitos mais inflamados. Em cena, a veterana atriz trabalhou com precisão o humor contido, a ternura e a autoridade silenciosa, fazendo de Rosa uma figura de acolhimento, mas também de confronto quando necessário. Era através dela que a novela frequentemente encontrava pausas de escuta e reflexão, momentos em que o texto ganhava respiro e profundidade.

Ao lado dessas duas personagens densas e complexas, a novatinha Elis Cabral se destacou como uma revelação ao sustentar um arco emocionalmente exigente, marcado pela transição entre fragilidade e força. A pequena órfã Sofia atravessou conflitos internos e externos com uma verdade cênica que evitava o excesso, revelando uma atriz capaz de escutar em cena e reagir com precisão emocional. A atriz mirim trouxe frescor ao elenco e funcionou como ponte entre gerações, dialogando com as veteranas sem se apagar, o que reforçou a riqueza do conjunto feminino da novela.

Foram esses arcos — de Filipa, Rosa e Sofia — que ajudaram a sustentar Dona de mim nos momentos de maior instabilidade narrativa, oferecendo complexidade, humanidade e camadas emocionais que permaneceram como alguns dos elementos mais sólidos e lembrados da trama.

Destaques inesperados

A reta final encontrou novo fôlego com a reviravolta envolvendo o retorno de Ellen, vivida por Camila Pitanga, um movimento dramatúrgico clássico que apostou no impacto emocional e no carisma da atriz para reposicionar a narrativa. A reaparição da personagem funcionou como um abalo estrutural: relações foram reconfiguradas, segredos vieram à tona e conflitos que pareciam esgotados ganharam novas camadas. 

Ao lado do sempre bom Emílio Dantas, outro reforço de peso garantido, Camila Pitanga trouxe à cena um magnetismo imediato, imprimindo à Ellen uma mistura de força, ambiguidade e vulnerabilidade que rapidamente deslocou o eixo dramático da novela. Sua presença devolveu tensão e densidade às interações, elevando o nível das cenas e reativando o interesse do público. Ainda assim, a sensação dominante foi a de que esse retorno chegou tardiamente, funcionando mais como um último impulso narrativo do que como uma virada capaz de reverter plenamente o desgaste acumulado ao longo de uma trama excessivamente estendida.

Em paralelo, o arco de Kamila, interpretada por Giovanna Lancelotti, representou uma das apostas mais arriscadas e contundentes da novela. A trajetória da segunda mocinha da história mergulhou de forma direta em temas como trauma, dor psíquica e processos de sobrevivência emocional, resultando em algumas das cenas mais duras e desconfortáveis de Dona de mim. Giovanna entregou uma atuação intensa, marcada por entrega emocional e contenção, evitando o melodrama fácil e sustentando momentos de grande exposição psicológica. O núcleo foi amplamente elogiado pela coragem de tratar essas questões com seriedade e respeito, sem recorrer a atalhos ou amenizações excessivas. Ao mesmo tempo, a permanência prolongada desse tom sombrio, somada a outros conflitos densos da trama, contribuiu para a percepção de desequilíbrio tonal, afastando parte do público que esperava do horário das 19h uma experiência mais leve e escapista.

Ellen (Camila Pitanga) participa do primeiro capítulo e volta na reta final| Globo/Divulgação

Vilões donos de si

Outro ponto recorrente de crítica foi o excesso de êxito dos vilões, que acabaram ocupando um espaço desproporcional na engrenagem dramática da novela. Diferentemente do antagonismo mais pontual ou episódico, Dona de mim apostou em vilões múltiplos, persistentes, estrategistas e quase sempre um passo à frente dos protagonistas, o que, com o passar do tempo, gerou desgaste.

Os antagonistas centrais da trama foram responsáveis por uma sequência de armações bem-sucedidas, que incluíram manipulações emocionais, sabotagens profissionais, distorções de fatos e jogos psicológicos prolongados. Muitas dessas ações tinham consequências imediatas devastadoras para Leona e seu entorno, mas raramente resultavam em punições à altura no curto prazo. Ao contrário, os vilões frequentemente escapavam ilesos, ganhavam novas chances de agir e, não raro, ampliavam seu poder de influência dentro da narrativa.

Essa dinâmica ficou especialmente evidente nos embates envolvendo heranças, disputas afetivas e controle de informações-chave. Segredos foram usados como moeda de troca por longos blocos de capítulos, chantagens se estenderam além do necessário e mentiras estruturais demoraram excessivamente a vir à tona. O público passou a perceber um desequilíbrio claro: enquanto os protagonistas acumulavam perdas, recuos e humilhações emocionais, os antagonistas pareciam prosperar, reforçando a sensação de injustiça narrativa.

O problema não esteve na existência de vilões fortes — algo tradicional e desejável no folhetim —, mas na assimetria prolongada entre ação e consequência. A demora em oferecer viradas efetivas ou punições concretas fez com que o conflito parecesse artificialmente estendido, como se a narrativa dependesse da vitória constante do mal para seguir adiante. Esse excesso de êxito acabou minando a tensão dramática: em vez de expectativa, produziu previsibilidade e cansaço.

Quando as quedas e desmascaramentos finalmente começaram a acontecer, sobretudo na reta final, parte do impacto já havia sido diluída pelo tempo. A sensação predominante foi a de alívio, não de catarse. Assim, o arco dos vilões sintetizou uma das principais fragilidades de Dona de mim: a dificuldade de equilibrar suspense e progressão, fazendo com que a força do antagonismo, em vez de potencializar a narrativa, acabasse contribuindo para a percepção de prolongamento excessivo e desgaste emocional do público.

Ao lado de malvados periféricos como Ricardo (Marcos Pasquim), Tânia (Aline Borges) e Vanilson (Armando Babaioff), o grande vilão da novela foi Jacques, interpretado por Marcello Novaes, um antagonista clássico, carismático e profundamente manipulador, cuja presença acabou se impondo como eixo central do conflito. O irmão de Abel concentrou boa parte das críticas justamente por seu excesso de êxito: frio, calculista e estrategista, ele parecia sempre antecipar os movimentos dos demais personagens, acumulando vitórias sucessivas que raramente vinham acompanhadas de consequências imediatas. Suas armações envolveram desde golpes financeiros e fraudes cuidadosamente arquitetadas, passando por chantagens morais, até a destruição simbólica e prática de adversários, minando reputações e isolando emocionalmente quem ousava enfrentá-lo. A demora em expor seus crimes e puni-lo à altura reforçou no público a sensação de que Jacques operava acima de qualquer limite ético ou legal dentro da narrativa.

Ao seu lado, surgiu Danilo, vivido por Felipe Simas, apresentado inicialmente como um jovem ambíguo, vulnerável e em busca de reconhecimento, mas que aos poucos se consolidou como o aprendiz do vilão. Seduzido pelo poder e pela promessa de ascensão rápida, Danilo tornou-se peça-chave nas engrenagens de Jacques, executando tarefas sujas, servindo de intermediário em esquemas ilícitos e assumindo riscos que o mentor preferia evitar. Sua trajetória foi marcada por um conflito moral constante: em alguns momentos, o personagem demonstrava culpa e hesitação; em outros, mergulhava de vez na lógica do oportunismo e da traição.

A relação entre os dois funcionou como um jogo de espelhos. Jacques via em Danilo uma extensão descartável de sua própria crueldade, enquanto Danilo oscilava entre a admiração cega e o medo de ser o próximo sacrificado. Essa dinâmica reforçou a crítica de que os vilões dominavam excessivamente a narrativa: mesmo quando Danilo era exposto ou quase desmascarado, surgiam reviravoltas que o mantinham protegido pela sombra do mentor.

Quando a queda de Jacques finalmente começou a se desenhar, já na reta final, o impacto foi parcialmente enfraquecido pela longa sequência de vitórias anteriores. Ainda assim, a dupla Jacques–Danilo sintetizou um dos motores dramáticos mais potentes da novela, ao mesmo tempo em que exemplificou o risco do folhetim quando o mal vence por tempo demais: a tensão se transforma em desgaste, e a catarse chega tarde, ainda que inevitável.

Rosane Svartman, autora e diretora de dramaturgia

Pronta para a faixa das nove

Ao longo de sua exibição, Dona de mim apresentou um conjunto de cenas fortes que destoaram do padrão tradicional do horário, contribuindo para o estranhamento de parte do público. Não se tratava apenas de intensidade emocional, algo comum ao melodrama, mas de situações construídas com crueza, duração e realismo, frequentemente mais associadas a faixas noturnas.

Também causaram impacto as cenas de luto e morte, especialmente após a perda de Abel. O velório, os confrontos emocionais entre personagens e os silêncios prolongados foram construídos com um realismo quase seco, recusando soluções fáceis ou sentimentalismo tradicional. A ausência de respiro narrativo transformou o luto em uma experiência prolongada, mais contemplativa e densa do que o público costuma esperar naquele horário.

Essas escolhas evidenciam uma novela que apostou na força dramática e no enfrentamento direto de temas duros, mas que, ao fazê-lo, tensionou os limites do horário. O estranhamento não veio apenas do conteúdo em si, mas da forma insistente e pouco atenuada com que essas cenas foram exibidas, revelando uma obra que preferiu o impacto e a densidade ao conforto, mesmo correndo o risco de afastar parte do público tradicional.

No conjunto, Dona de mim se afirma como um projeto ambicioso, que expõe tanto as virtudes quanto os riscos de se tentar renovar o folhetim popular sem abrir mão de sua longa duração e de suas engrenagens tradicionais. O êxito de Rosane Svartman está na coragem de colocar temas contemporâneos e personagens emocionalmente complexos no centro da dramaturgia, recusando soluções fáceis e personagens unidimensionais. Seu desafio, por outro lado, esteve em equilibrar essa densidade com o ritmo, a leveza e a síntese que o formato diário exige.

Ao terminar, a novela não se consolida como um clássico imediato nem como um fracasso incontestável, mas se impõe como uma obra relevante, que provoca debate e reflexão sobre os caminhos possíveis da teledramaturgia brasileira. Mais do que uma história memorável como foram Totalmente demais, Bom Sucesso e Vai na fé, as anteriores da autora, Dona de mim deixa como legado a discussão sobre como contar, hoje, histórias populares atravessadas por complexidade emocional — e reafirma Rosane Svartman como uma mente disposta a correr riscos, mesmo quando o resultado se revela tão desigual quanto estimulante. E pronta para se jogar de cabeça no horário das 21h.