After life: Nova série de Ricky Gervais transforma péssimos elementos em obra-prima

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Com apenas seis episódios, After life é uma das melhores produções do ano da Netflix

Ricky Gervais tem uma história singular no mundo do entretenimento. Com obras de comédias atemporais no quesito popularidade (como The office) e sucessos de crítica (como Derek), o britânico também “sofre” com uma Hollywood que ama o odiar. Sem muito filtro, o ator já apresentou três edições seguidas do Globo de Ouro (2010, 2011 e 2012) e deixou como maior marca um ataque ao corpo de celebridades classe A do evento, com direito a xingamentos e ofensas.

Entretanto, parece que Gervais segue inabalado com todas as “polêmicas”. No novo trabalho, a série After life, produção original da Netflix, o comediante apresenta uma verdadeira obra de arte, que mistura elementos cômicos, drama e tragédia. Mas independente de toda a vertente de dramédia, é importante lançar luz sobre um contexto curioso: o quanto Gervais deixa todos os elementos medíocres da produção em um estado de graça, leveza e excelência.

Crédito: Reprodução/imdb (em imdb.com) – Para enfrentar a retomada da vida, Tony terá uma ajuda incomum

Sob um olhar rápido, After life é uma produção no mínimo, preguiçosa — e preguiçosa com orgulho. Existem pouquíssimos cenários, os diálogos são simples, sem muita retórica e em determinados pontos, as cenas são tão repetitivas que é quase possível decorar as palavras. Contudo, nada disso diminui a qualidade da série, isso porque o conteúdo aborda uma das maiores características das pessoas ao redor do mundo: uma humanidade imperfeita, que independente dos percalços da vida, busca felicidade e paz acima de tudo.

Grande parte deste ensinamento ocorre pelo personagem de Gervais, o jornalista Tony. O homem acabou de passar pelo momento mais difícil da vida: a morte da mulher. Absolutamente arrasado, Tony passou a viver com um infinito de infelicidade e depressão, tendo como única motivação humilhar as pessoas ao redor (as quais ele classifica como “idiotas”).

Crédito: Reprodução/imdb (em imdb.com) – A cenas de Tony e da esposa são de cortar o coração, mas valem a pena pelo contexto da história

Grande parte da comédia da produção então vem deste desprezo de Tony. As piadas com os amigos ultrapassam aquele humor água com açúcar da maioria das séries “familiares” e mergulha de cabeça em ofensas que chegam a constranger o público. Desde as brincadeiras sobre o quanto o amigo de trabalho parece o Shrek, ou até mesmo xingar uma criança de “tubby little ginger cunt” (algo que pode ser traduzido como “Ruivo, filho da p***, gordinho em forma de tubo”), com aquele bom e velho estilo pesado e inconsequente de humor de Gervais é o mantra de After life.

Mas a comédia, definitivamente é uma fração de importância, em detrimento do drama da produção. A impressão final é de que Gervais decidiu extrapolar todos os limites — como sempre fez na comédia — agora no contexto trágico. O sofrimento de Tony é algo que incomoda, emociona e promove uma catarse de excesso no público.

Crédito: Reprodução/imdb (em imdb.com) – A acidez de Gervais é marca da série

Em apenas seis episódios, o homem aprende que a tragédia é inerente a própria existência, e em vez de simplesmente se matar, ou passar os dias tentando aterrorizar as pessoas, Tony abraça o drama. O grande ensinamento de After life é que as tragédias ocorrem, não há receitas para lidar com problemas e que a vida não tem realmente um objetivo ou sentido, além da busca pela felicidade independentemente de qualquer coisa.

O tema é clichê sim. Muito clichê inclusive. Mas funciona essencialmente porque é feito de uma forma extremada, quase radical. Rir de uma tragédia, ou quase chorar com uma piada fazem parte da marca de Gervais na série e isso a transforma de uma produção simples e preguiçosa para uma obra que representará a essência humana através da cinematografia no futuro.

Ronayre Nunes

Jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB). No Correio Braziliense desde 2016. Entusiasta de entretenimento e ciências.

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