A sutil (e animadora) relação entre ‘Ladrões de drogas’ e ‘Breaking bad’

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Não foi exatamente o submundo das drogas. Também não foi a dupla de protagonistas com um mais “esperto” e outro “inocente”. Muito menos o jogo de gato e rato com a polícia (que deve ocorrer em um limbo da legalidade) . As características de Dope thief — Ladrões de drogas que lembram Breaking bad são mais profundas — e por isso tornam a série uma promessa tão boa.

Nascida pelas mãos de Peter Craig (famosos por trabalhos pops no cinema, como parte da franquia Jogos Vorazes e Top Gun: Maverick) e baseada em um romance de mesmo título de 2009 de Dennis Tafoya, Ladrões de drogas acabou de estrear na Apple TV+. A produção conta a história de Ray (Brian Tyree Henry) e do melhor amigo Manny (Wagner Moura), em um mergulho no violento mundo da produção e tráfico de drogas.

O “trabalho” da dupla não é de todo mal — pelo menos é o que eles pensam: roubar drogas de traficantes “pequenos” fingindo serem policiais. Tudo vai bem, pelo menos até eles errarem um alvo e acabarem atrapalhando uma investigação da polícia (de verdade).

A realidade do ego e da motivação

O que chama a atenção nessa ligação entre Ladrões de drogas e Breaking Bad são os protagonistas. Ray e Walter White buscam o caos que vivem pelos desejos ambíguos e a subserviência aos próprios egos. Na produção de 2008, isso fica claro em diversos momentos, já na série da Apple TV+ está se desdobrando aos poucos. Brilhante o último diálogo do piloto, quando Ray conversa com Manny e deixa claro que agora eles “são alguém”.

Essa motivação é algo que encanta o telespectador especialmente pelas possibilidades de desenvolvimento. Em Breaking Bad Walter White se transfigurou do mocinho para o vilão, Ray não está garantido como a parte “boa” da história de Ladrões de drogas, pelo contrário.

“Eu queria que todos os temas da série ficassem com o público como um retrogosto. Algo que vem depois que você assiste”, comentou Peter Craig ao repórter Pedro Ibarra, do Correio em entrevista para a divulgação da série.

Vamos ao que importa

Apesar de ter sido a abertura deste texto, Ladrões de drogas vai bem além da semelhança com Breaking bad. Com um mundo próprio, a produção acerta em dois aspectos: um calibradíssimo elenco coadjuvante e um curioso dinamismo de gênero.

Além de Ray e Manny, a série constrói relações firmes entre os personagens de apoio que sabem muito bem quando entrar e sair. Destacam-se Mina (Marin Ireland), a agente da polícia que é brutalmente “atacada” pela dupla e Bart (Ving Rhames), o pai criminoso de Ray. Esses personagens ajudam a explicar a motivação de Ray e Manny e, em consequência, a desenvolver uma boa história.

É difícil classificar o gênero de Ladrões de drogas. A priori parece um thriller, um suspense, que se confunde com drama ensopado de ação e violência e algumas pitadas das já comuns “dramédias”. Ainda em entrevista ao Correio, Craig comentou sobre o assunto: “A série tem camadas de absurdos, tem tanta coisa junta que chega um momento que só dá para rir de tudo aquilo. O humor vem dessas coisas muito reais no meio de situações completamente inacreditáveis”.

No fim das contas, a produção parece ser mais afiada com essa dinâmica de gêneros. Definitivamente um ganho.

Óbvio que nem tudo é perfeito. Ladrões de drogas tropeça frequentemente ao tentar retratar o passado. Um filtro preto e branco entra em cena e tira toda e qualquer catarse que o telespectador possa ter com a história. Um recurso ultrapassado e sinceramente desnecessário.

Problemas à parte, Ladrões de drogas merece uma maratona — assim como Breaking bad uma vez já mereceu.

Ronayre Nunes

Jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB). No Correio Braziliense desde 2016. Entusiasta de entretenimento e ciências.

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