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Apoio e incentivo a mulheres na prática de esportes

De volta depois de um tempinho de férias, a coluna sobre pessoas do Parque apresenta Márcia, que encontrei depois de uma corrida na pista, ainda no final do ano. Amante e ativista do esporte como elemento de mudança e gerador de bem-estar, Márcia Rodrigues Camargo, tem 52 anos, casada, 2 filhos. Nasceu em Brasília e se considera guaraense, “amo o Guará”, como diz, lugar onde mora desde a infância. Profissional de contabilidade, atua como gerente nas organizações PauloOctavio, onde trabalha há 33 anos. Ela também é a gestora de um grupo de mulheres que praticam corrida de rua, o Elas vão de tênis. Entusiasmada com corridas e com a prática do esporte por esse grupo de mulheres que mobiliza, Márcia atualmente cursa educação física no Iesb e se prepara para se formar, quando pretende montar uma assessoria esportiva, e sonha poder motivar mais mulheres para a prática de atividade física como forma de autocuidado. Conheça Márcia e sua experiência inspiradora.

Márcia sonha em incentivar mais mulheres no esporte.

Perguntas para Márcia Camargo:

P- Por que, depois de quase cinquenta anos, você decidiu fazer outro curso, que é totalmente diferente da sua área de trabalho?
R- Desde adolescente, o meu sonho era fazer educação física, mas, na época, ou podia fazer magistério, ou técnico em contabilidade. Eu resolvi ir pro técnico em contabilidade. De lá pra cá, eu entrei na profissão, fiz a faculdade, fiz o curso, mas eu tinha aquele desejo de voltar às minha origens de lá da minha adolescência. Porque eu sempre fui muito amante dos esportes, gosto de todos os esportes e gosto de incentivar as pessoas a fazerem atividade física. Então, quando surgiu a pandemia, aquilo de a gente ter que ficar dentro de casa, a gente ter que fazer exercício dentro de casa, sem poder sair de casa, acendeu mais ainda esse desejo no meu coração. Foi quando eu comecei a faculdade, e ano que vem eu me formo, se Deus quiser. Aí eu quero trazer a proposta do quanto a atividade física faz bem, tanto pro corpo, como pra mente.

P- Então, a sua ideia é se formar, continuar trabalhando, mas usar o seu conhecimento para ajudar pessoas e incentivar o esporte?
R- Incentivar o esporte e pra mulheres. Porque o meu grande foco é incentivar mulheres a fazerem algo por si e pra si. Por quê? Porque eu fui mãe solo, hoje eu sou casada, mas eu fui mãe solo, quando eu casei, meus filhos já estavam adultos. Quando me separei do pai deles, uma tinha quatro e o outro tinha dois anos, eu fui mãe solo e aí eu esqueci de mim, eu esqueci da minha essência. Eu era só a mãe e o pai, mas a Márcia tava totalmente esquecida. Em 2013, eu me encontrei na corrida de rua. Eu voltei a fazer academia, porque eu tinha parado tudo, e na academia tinha um senhor que falava sempre de corrida de rua e eu comecei a pesquisar, pesquisar, e descobri e participei da minha primeira corrida, me inscrevi por incentivo dos meus filhos.

P- Foi sem correr antes, só com a coragem?
R- Foi, com a cara e a coragem. Não sabia nem o que era o papelzinho que a gente recebia, que era o número de peito, o chip, que naquela época era no tênis que a gente colocava. Eu fui com a cara e a coragem. Quando eu cheguei lá, eu vi um mar rosa, porque era a corrida do McDonald’s, as blusas eram sempre rosa, voltado pra mulher. E ali eu comecei a conversar com uma moça, ela me explicou como que era a corrida, me explicou como que colocava o número de peito, o chip, e eu saí pra correr. Ela me falou que ia me esperar e eu falei: não precisa, porque eu vou caminhar, eu devo ser a última a chegar. Eu não fui a última, mas quando eu cheguei, ela estava lá me apoiando, e eu recebi um abraço. E aquilo ali, pra mim, foi algo tremendo, ali eu vi que eu poderia também ajudar e apoiar outras mulheres. Aí, eu procurei pra ver se em Brasília tinha um grupo de mulheres. Na época, tinha um que se chamava um outro nome. Eu entrei pra esse grupo e logo ele se desfez, o grupo ficou solto, e a gente escolheu o nome Elas vão de tênis. Foi um nome em comum de todas que estavam ali naquele momento, tinha mais ou menos umas 80 mulheres. Passado alguns anos, eu assumi o grupo. Então, tem seis anos que eu assumi o grupo Elas vão de tênis. Eu recebi ele com oitenta mulheres, hoje nós temos oitocentas mulheres.

Elas: grupo de 800 Mulheres que correm juntas.

P- Que bacana!
R- É, a gente incentiva, todos os dias, a mulher separar um pouquinho do seu dia pra ela. Por quê? Porque a gente carrega o mundo nas costa e esquece da gente, a gente esquece a nossa essência. A gente cuida de filho, marido, trabalho, casa, compras, e cadê o tempo? A gente sempre vai se deixando pra depois. E o que eu incentivo é: faça um pouquinho a cada dia, nem que seja de dez minutos. Se você fizer uma caminhada, ou se você não pode sair pra rua, faça um alongamento em casa, no YouTube tem tantas aulas.

P- O grupo funciona por Whatsapp ou nas outras redes sociais?
R- Nós temos o grupo do Whatsapp e, dentro do grupo do Whatsapp, nós temos 800 mulheres. Dentro do grupo, a gente vai se incentivando todos os dias. Às cinco horas da manhã, já tem alguém que posta sua foto, aí meio dia, outra posta, seis horas da tarde, outra posta.

P- Falam da agenda de corridas?
R- Toda corrida que surge a gente coloca no grupo, a gente vai se ajudando, se informando. Nós temos cupom de descontos, porque nós temos parceria com as organizações de corrida de Brasília. A gente combina viagens, nós vamos num grupo para São Silvestre, esse ano nós fomos em torno de trinta mulheres pra meia maratona de Guarapari. Então a gente vai se ajudando, inclusive, nessa viagem de Guarapari, muitas mulheres não conheciam a praia, foi a primeira vez que elas tiveram contato.

P- Como é o perfil do grupo? São mulheres de todas as regiões administrativas?
R- Nós temos todas as regiões administrativas dentro do grupo, mas algumas são mais dominantes. Por exemplo, na região de Ceilândia, tem muitas Elas. Na região do Gama, do entorno, que eu inclui Gama, Santa Maria, tem muitas Elas também. Sobradinho tem bastante Elas. A gente vai se incentivando e elas vão se conhecendo e vão combinando treinos, elas treinam juntas.
Então, por exemplo, em Sobradinho nós temos lá Mazé, ela incentiva todos os dias as meninas a correrem pela região. A minha intenção esse ano era fazer uma vez por mês um treino em cada região administrativa, mas não foi possível por motivo de doença minha. E temos os desafios também.

P- Qual o perfil social dessas mulheres, idade, classe, de forma geral?
R- No geralzão, eu tenho mulher de 20 anos até 78 anos. A predominância tá no meio, de 35 até 60, a maioria das mulheres tá nessa faixa.
Eu tenho uma a classe média, que deve ser em torno de uns 40%, classe baixa tem mais 40%, classe alta tem, mas não é tanto, sabe? E essas mulheres, o que me fascina nelas é que, à medida que elas vão se conhecendo, elas vão criando um vínculo entre elas, uma rede de apoio. Quando elas vão pra corrida, elas fazem vaquinha, vão no carro de uma. Quando vai pegar kit, elas se organizam pra uma pegar pras outras. Então, elas se comunicam. Isso que é fascinante, e quando uma às vezes tá triste, a outra vai lá dar apoio, vem falar comigo, elas falam muito comigo, elas se apoiam muito em mim. Nós temos mulheres que têm, que tiveram depressão, que sofrem de depressão, que tiveram câncer, que sofrem de câncer, que sofrem abuso, tem todo esse público lá dentro do grupo. Todos os dias, a primeira coisa que é colocada no grupo é um bom dia de incentivo, isso faz a diferença pra elas. A gente coloca a aniversariante do dia, a gente homenageia aquela aniversariante. Então elas se sentem pertencentes, e isso é algo que transcende, elas ficam encantadas. Porque, quem não gosta de ser cuidada? E quando tem alguém que se dispõe a te dar uma palavra, a te dar um apoio, a te dar um bom dia, faz uma diferença você pertencer a um grupo. Eu vejo o quanto isso é importante, e o quanto esse propósito fala alto no meu coração. Então eu falo do Elas aonde quer que eu vá.

P- Qual a sua experiência com o Parque da Cidade, você vem sempre aqui?
R- Aqui é o nosso ponto de encontro. Sempre frequentei. Os meus treinos eu sempre fiz aqui, porque eu trabalho aqui perto. E aqui é muito grande, né? No Guará eu tenho um parque excelente, que é o Parque Ezequias, mas o Ezequias é 1,100Km, o Parque da Cidade é 10km.

P- O Elas vem pra cá também, tem frequência de treino aqui?
R- Aqui as meninas gostam demais, o Parque é maravilhoso, esse parque é o maior da América Latina. Eu acho o parque sensacional, maravilhoso. Aqui a sensação de liberdade, de você tá contemplando esse céu lindo que a gente tem aqui em Brasília, que só tem aqui, porque esse céu é único gente, aqui, do nosso quadradinho. Então, você tá aqui no Parque, você consegue ter tudo isso, os pássaros cantando, o verde, essa liberdade, esse céu azul. Você pode fazer um treino de seis quilômetros e você não vai andar no mesmo lugar, você não vai ficar indo e voltando, você vai fazer um círculo, você vai conseguir completar e vai ver vários estacionamentos do Parque. Então, numa frase: o parque é maravilhoso, é lindo, é liberdade também. Aqui, dentro do Parque, a liberdade é algo que é maravilhoso. Quando eu tô naquele momento de estresse, eu venho, porque aqui eu sei que eu vou ajustar as minhas ideias, eu sei que eu vou me renovar. Então, o Parque, pra mim, hoje, se eu tiver que falar uma palavra pra você, é renovação, ele me traz renovação.

P- Márcia, o que lhe conduz na vida?
P- O amor ao próximo. É justamente isso que eu falo sempre no grupo, da gente se apoiar. E dentro do grupo, eu sempre falo que a gente não é concorrente, a gente é apoio. Então, esse amor ao próximo, essa dedicação, ao falar algo pra alguém, é o que me move, a incentivar. Porque, às vezes, a pessoa amanhece num dia tão abalado, tão triste, e você receber um bom dia ou falar assim: “você é especial”, isso me move, isso me traz um amor e é um valor que eu carrego, o valor do amor.

P- E qual o recado que você daria pras pessoas em geral?
R- Olha a vida é um sopro. E nós tivemos uma Ela que semana retrasada faleceu, e foi de uma forma, assim, inesperada. Foi aquela que afundou o carro no rio. Então, ela estaria aqui hoje, presente no evento. Ela tinha comprado a camiseta, a medalha, o filho dela teve aqui. Então, o que eu digo é: lute, levante! Às vezes, a gente levanta meio cabisbaixo, meio triste, mas deixe essa tristeza durar só um minutinho e levante a cabeça, erga e siga em frente. E pense: hoje é um dia maravilhoso, hoje é um dia lindo. E faça atividade física, nem que seja dez minutinhos de caminhada, isso vai te trazer um bem-estar tão grande, e não só físico, mas mental. A gente precisa hoje cuidar muito de nossa mente, e a atividade física, ela traz esse bem-estar, porque ela libera o hormônio, ela libera endorfina. Então, faça atividade física, não deixe de fazer. “Ah, eu não posso fazer uma caminhada porque eu tenho problema no joelho”, faz um alongamento. “Ah eu não gosto de fazer caminhada, nem alongamento”, faz uma dança. Hoje a internet traz opções, taí o YouTube, aulas de dança, aulas de forró, porque tudo isso é atividade física.

P- E como uma pessoa faz para participar do grupo Elas vão de tênis?
Pode entrar em contato lá no direct do Instagram @elasvaodetenis.
Pode mandar uma mensagenzinha lá, que vai cair no meu número de telefone.
E aí eu vou conversar com você, mostrar a história do grupo. Você vai preencher um formulário muito simples, não tem seu cpf, não tem nada. Eu só quero saber a sua história, a sua idade, se você já faz alguma atividade física. Depois de preencher esse formulário, eu te adiciono no grupo e te dou boas vindas. E aí você já é uma Ela!

O amor pela corrida une o Elas

cilenevieira

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