{"id":942,"date":"2026-08-21T16:55:57","date_gmt":"2026-08-21T19:55:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=942"},"modified":"2026-08-21T16:55:58","modified_gmt":"2026-08-21T19:55:58","slug":"sobre-infancia-luto-e-colonialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/sobre-infancia-luto-e-colonialismo\/","title":{"rendered":"Sobre inf\u00e2ncia, luto e colonialismo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c8ve Guerra conta que <em>Repatria\u00e7\u00e3o<\/em> nasce de um sentimento de duplo fracasso: o fracasso de um primeiro romance inacabado e abandonado sobre a guerra civil no Congo-Brazzaville e o afundamento em uma vida que se desfaz, na qual se prolonga indefinidamente um luto inconsol\u00e1vel. Para compreender e fazer o que ela chama de \u201caut\u00f3psia desse desastre\u201d, a autora francesa de origem congolesa e italiana mergulhou na escrita do primeiro romance, premiado em 2024 com o Goncourt do primeiro romance, um bra\u00e7o prestigiado do n\u00e3o menos prestigiado Goncourt.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No texto, a protagonista conta a saga para trazer o corpo do pai, morto na \u00c1frica, de volta para a Fran\u00e7a, onde deveria ser enterrado. Estudante de letras, falida e, agora, \u00f3rf\u00e3, Annabella n\u00e3o est\u00e1 bem. Ela n\u00e3o est\u00e1 bem h\u00e1 muito tempo. Assim como \u00c8ve desmoronou quando precisou enfrentar o desastre de perder o pai em outro continente e n\u00e3o ter dinheiro para traz\u00ea-lo de volta. \u201cA escrita deste livro nasce de um sentimento de raiva, ao mesmo tempo que de desilus\u00e3o. Mas acredito que <em>Repatria\u00e7\u00e3o<\/em> coloca tr\u00eas quest\u00f5es que eu precisava desvendar antes de entrar na idade da raz\u00e3o: somos verdadeiramente livres ou, ao contr\u00e1rio, estamos enraizados em uma paisagem, em um lugar de nascimento, em uma fam\u00edlia? Para que serve a literatura? Como algu\u00e9m se torna escritor?\u201d, conta a autora, que foi uma das convidadas da Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty em julho deste ano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00edtulo<em> Repatria\u00e7\u00e3o<\/em> designa, antes de tudo, uma realidade que \u00c8ve classifica como bastante prosaica: encontrar 20 mil euros para repatriar o corpo do pai, morto na Rep\u00fablica dos Camar\u00f5es, uma urg\u00eancia administrativa, financeira e burocr\u00e1tica. \u201cE foi justamente essa trivialidade da palavra que me interessou, porque ela diz algo de cruel sobre a morte quando n\u00e3o se tem dinheiro\u201d, observa a autora. Mas o t\u00edtulo cont\u00e9m mais: repatriar \u00e9 trazer de volta \u00e0 p\u00e1tria. \u201cE a quest\u00e3o da p\u00e1tria, do pertencimento, do enraizamento, est\u00e1 no centro do livro\u201d, aponta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Annabella vive em Lyon, na Fran\u00e7a, e n\u00e3o tem uma p\u00e1tria fixa. Passou a inf\u00e2ncia na mata congolesa, criada pelo pai franc\u00eas, de origem italiana e voluntariamente expatriado na \u00c1frica. Repatriar o corpo do pai \u00e9 tamb\u00e9m tentar repatriar uma hist\u00f3ria familiar dispersa, reunir os fragmentos de uma inf\u00e2ncia africana e de uma vida francesa que n\u00e3o coincidem. \u201cE h\u00e1 ainda um terceiro sentido, mais \u00edntimo: Annabella precisa repatriar a si mesma \u2014 retornar a si depois de anos de aus\u00eancia do mundo, de mentira e de fuga. A repatria\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, ao mesmo tempo, um procedimento administrativo, um gesto de mem\u00f3ria e um renascimento interior\u201d, explica \u00c8ve, que transita na corda bamba entre a autofic\u00e7\u00e3o e a fic\u00e7\u00e3o e conversou com o Correio sobre o livro e como a hist\u00f3ria de Annabelle traduz o sentimento de uma gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Repatria\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De \u00c8ve Guerra. Tradu\u00e7\u00e3o: Diogo Cardoso. Companhia das Letras, 178 p\u00e1ginas. R$ 79,90<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para enfrentar a realidade, Annabella recorre frequentemente \u00e0 fic\u00e7\u00e3o. Qual \u00e9 o lugar da fic\u00e7\u00e3o e da literatura na vida contempor\u00e2nea, em que muitas vezes somos confrontados com uma realidade que se desenrola cada dia mais rapidamente em fun\u00e7\u00e3o das redes sociais e da internet?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Repatria\u00e7\u00e3o<\/em>, a fic\u00e7\u00e3o \u2014 ou a mentira \u2014 n\u00e3o \u00e9 uma fuga da realidade: \u00e9 a ferramenta que permite enfrent\u00e1-la, rel\u00ea-la e torn\u00e1-la suport\u00e1vel. As redes sociais, \u00fateis para fazer circular informa\u00e7\u00f5es, descobrir o mundo e conhecer outras culturas, s\u00e3o tamb\u00e9m, por meio do uso excessivo das telas, uma forma de escapar da vida, que acaba nos afastando da pr\u00f3pria vida. As redes sociais frequentemente funcionam por sele\u00e7\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o, algo que um livro n\u00e3o faz, e os conte\u00fados confirmam sobretudo nossos gostos, nossas indigna\u00e7\u00f5es e nossas convic\u00e7\u00f5es, gra\u00e7as ao sistema de algoritmos. Isso cria uma esp\u00e9cie de c\u00e2mara de eco, na qual nossas certezas nunca correm o risco de ser confrontadas, como acontece em um romance. As obras de fic\u00e7\u00e3o, sobretudo quando s\u00e3o escritas por grandes escritores capazes de colocar em cena ideias e opini\u00f5es por vezes contradit\u00f3rias \u00e0s suas pr\u00f3prias, podem ser justamente o espa\u00e7o da reinterpreta\u00e7\u00e3o, da transforma\u00e7\u00e3o e da redefini\u00e7\u00e3o das certezas e, portanto, de uma leitura mais refinada do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O livro fala tamb\u00e9m de toda uma gera\u00e7\u00e3o e das quest\u00f5es que envolvem a entrada na vida adulta dos jovens nascidos no s\u00e9culo 21. Esse tema \u00e9 importante para voc\u00ea?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, essa leitura me parece muito pertinente. <em>Repatria\u00e7\u00e3o<\/em> pode ser lido como um romance sobre a sa\u00edda da inf\u00e2ncia e a entrada na vida adulta, com toda a desorienta\u00e7\u00e3o que isso implica. Annabella tem 23 anos, e esse simples detalhe j\u00e1 a situa em um momento de transi\u00e7\u00e3o: ela n\u00e3o \u00e9 mais crian\u00e7a, mas ainda n\u00e3o est\u00e1 estabelecida em uma forma est\u00e1vel de vida adulta. O romance explora essa zona flutuante em que \u00e9 preciso inventar o pr\u00f3prio lugar sem manual de instru\u00e7\u00f5es, em um mundo marcado pela instabilidade afetiva e pela precariedade das refer\u00eancias. Por isso, pode-se falar de um livro sobre uma gera\u00e7\u00e3o nascida no s\u00e9culo 21 ou, pelo menos, que chegou \u00e0 idade adulta em um mundo no qual as certezas herdadas ru\u00edram. H\u00e1 uma cena muito eloquente a esse respeito. Annabella percebe que os longos anos de estudo que dedicou n\u00e3o lhe servem para nada e, sobretudo, n\u00e3o a ajudam a encontrar um emprego. Penso que a minha gera\u00e7\u00e3o, e a que vem depois, est\u00e1 um pouco inquieta diante da ideia de que tudo aquilo que aprendeu, pacientemente e com muito esfor\u00e7o, talvez n\u00e3o sirva mais para nada, j\u00e1 que a intelig\u00eancia artificial far\u00e1 seu trabalho melhor e mais rapidamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 falou, em entrevistas, sobre as semelhan\u00e7as entre Annabella e voc\u00ea: voc\u00ea nasceu no Congo, fugiu da guerra ainda muito jovem e \u00e9 francesa de origem italiana. A voz de Annabella seria tamb\u00e9m uma voz perif\u00e9rica, a voz, de certa maneira, dos problemas contempor\u00e2neos gerados pela coloniza\u00e7\u00e3o?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, mas de maneira mais indireta e encarnada por meio dos personagens do que sob a forma de um ensaio de den\u00fancia. <em>Repatria\u00e7\u00e3o<\/em> aparece como uma cr\u00edtica ao colonialismo porque mostra como a ordem colonial continua a estruturar os corpos, as rela\u00e7\u00f5es familiares, a viol\u00eancia, os privil\u00e9gios e at\u00e9 mesmo a maneira de viver em um pa\u00eds africano quando se \u00e9 um ocidental, como \u00e9 o pai de Annabella. A cr\u00edtica ao colonialismo tamb\u00e9m passa pela representa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia como um microcosmo de poder. As rela\u00e7\u00f5es entre o pai franc\u00eas de origem italiana, a m\u00e3e congolesa e a filha mostram como a domina\u00e7\u00e3o colonial se prolonga na intimidade, no casal e na filia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas da den\u00fancia de um passado j\u00e1 encerrado: o romance sugere que o colonialismo deixa marcas ps\u00edquicas e sociais que sobrevivem a ele. \u00c9 preciso, contudo, evitar reduzir o livro a uma simples cr\u00edtica pol\u00edtica. O livro \u00e9 tamb\u00e9m um romance sobre a inf\u00e2ncia, o luto, a mentira e a reconstru\u00e7\u00e3o de si.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autora francesa \u00c8ve Guerra fala sobre Repatria\u00e7\u00e3o, seu primeiro romance, vencedor do pr\u00eamio Goncourt<\/p>\n","protected":false},"author":82,"featured_media":947,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-942","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/942","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/82"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=942"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/942\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":955,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/942\/revisions\/955"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=942"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=942"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=942"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}