{"id":801,"date":"2022-07-08T15:41:01","date_gmt":"2022-07-08T18:41:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=801"},"modified":"2022-07-08T15:41:01","modified_gmt":"2022-07-08T18:41:01","slug":"livro-ricardo-lisias-covid-hospital-experiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/livro-ricardo-lisias-covid-hospital-experiencia\/","title":{"rendered":"O ser humano diante do fim no relato de Ricardo L\u00edsias"},"content":{"rendered":"<h2><span style=\"font-weight: 400\">Ricardo L\u00edsias come\u00e7ou a dar forma a <em>Uma dor perfeita<\/em> ainda no leito da UTI. Internado com covid-19 durante duas semanas entre mar\u00e7o e abril de 2021, o escritor tinha acesso a um telefone celular por meio do qual trocava mensagens com a mulher, alguns amigos, a m\u00e3e e o editor Marcelo Ferroni. Deste \u00faltimo veio a sugest\u00e3o de pensar em um livro. Quando teve alta da UTI e foi para o quarto, L\u00edsias passou ent\u00e3o a tomar notas para o relato. Gra\u00e7as \u00e0s enfermeiras, conseguiu papel, caneta e uma pasta para dar in\u00edcio \u00e0 escrita.\u00a0<\/span><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Depois de quase ser entubado, de sentir dores terr\u00edveis nas pernas e de vivenciar o drama da incerteza diante da morte, uma constante em ambiente de UTI, L\u00edsias sentiu que havia material para um livro, mas n\u00e3o s\u00f3. \u201cSegundo os m\u00e9dicos, ele me ajudaria a organizar um pouco as ideias, pois para muitos que contra\u00edram a vers\u00e3o mais forte da covid-19, h\u00e1 problemas, inclusive, de mem\u00f3ria. Por isso seria um bom trabalho, a organiza\u00e7\u00e3o de um livro\u201d, conta. \u201cO livro me ajudou a recuperar muitas quest\u00f5es perdidas ou confusas para mim durante a interna\u00e7\u00e3o, sobretudo durante o acesso de dor dos primeiros dias. A depress\u00e3o tamb\u00e9m atinge muitos pacientes logo depois da alta. Eu n\u00e3o tive nada parecido e tenho certeza de que se deve ao livro, j\u00e1 que tive um trabalho muito intenso nos meses seguintes.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Escrito em primeira pessoa, como boa parte dos romances de L\u00edsias,<em> Uma dor perfeita<\/em> tamb\u00e9m traz a concord\u00e2ncia do autor quanto a ser um livro autobiogr\u00e1fico. O detalhe \u00e9 importante: apesar de beber em fontes reais para escrever <em>O c\u00e9u dos suicidas<\/em> (2012) e <em>Div\u00f3rci<\/em>o (2013), o escritor sempre insistiu serem essas narrativas ficcionais. \u201cEu de fato n\u00e3o sei como cham\u00e1-lo, n\u00e3o sei qual classifica\u00e7\u00e3o adotar\u201d, explica. O livro est\u00e1 registrado como um romance, mas L\u00edsias acredita que isso \u00e9 apenas uma consequ\u00eancia da exig\u00eancia de uma categoria no momento de registrar o material. \u201cEu pr\u00f3prio j\u00e1 n\u00e3o penso nesses termos. O termo fic\u00e7\u00e3o, por exemplo, n\u00e3o me atrai muito, o que obviamente tamb\u00e9m faz com que o termo n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o tenha o mesmo destino. O que posso dizer \u00e9 que Uma dor perfeita \u00e9 o livro que fiz. \u00c9 um livro\u201d, diz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Deitado na cama da UTI, consciente do privil\u00e9gio de ter conseguido um lugar em um bom hospital particular em momento de pico da pandemia, o narrador mergulha na pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana. A dor, o medo, a revolta, a raiva e a compaix\u00e3o se misturam na maneira como descreve a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a daqueles que transitam ao seu redor: os enfermeiros sobrecarregados f\u00edsica e emocionalmente diante de pacientes que morrem todos os dias, o av\u00f4 que se despede da neta antes de ser entubado, a senhora que exige luxo e cloroquina, o pr\u00f3prio narrador, que se reconhece como parte de uma elite envergonhada\u2026. \u00c0s vezes, L\u00edsias deixa desfilar pela narrativa o melhor e o pior de um Brasil que n\u00e3o pisa no freio nem olha pela janela.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2022\/07\/lisias.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-804\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2022\/07\/lisias-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Uma dor perfeita<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De Ricardo L\u00edsias. Alfaguara, 148 p\u00e1ginas. R$ 54,90<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma dor perfeita \u00e9 um texto bem corajoso do ponto de vista pessoal, especialmente quando o narrador se permite sentimentos dos quais j\u00e1 sabe que vai se arrepender. Pode falar um pouco como foi trabalhar esses sentimentos no texto?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 algo de importante e dif\u00edcil de discutir falando do ponto de vista da linguagem: eu fiquei internado, no in\u00edcio sem conseguir me mover direito, sobretudo as pernas, muito pr\u00f3ximo de outras pessoas, todas elas sem nenhum tipo de relativiza\u00e7\u00e3o correndo o risco concreto de morrer. Aconteceu com alguns dos meus vizinhos. Outros iam para o entubamento. Ouvi por exemplo um senhor telefonando para a neta de 6 anos e se despedindo antes de ser entubado. A enfermeira que o transportou come\u00e7ou a chorar ouvindo a liga\u00e7\u00e3o e acabou substitu\u00edda por outra. \u00c0 noite, sobretudo, algumas pessoas gritavam de medo. Uma tarde uma mulher deu entrada bem ao meu lado e come\u00e7ou logo a chorar, repetindo apenas uma frase: \u201cquem est\u00e1 com o meu filho?\u201d. Ela passou meia hora e depois silenciou. N\u00e3o ouvi mais a voz dela. Diante disso, muitas coisas acabam sendo facilmente relativizadas e muitas outras perdem o sentido, ou ao menos a import\u00e2ncia. \u00c9 o que acontece com os sentimentos citados na pergunta.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>O que o livro diz sobre o Brasil contempor\u00e2neo?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa \u00e9 mesmo uma pergunta boa e que me provoca, penso muito nisso. Eu acho que algo importante precisa ser dito de imediato: o governo federal atrasou a vacina, como a CPI demonstrou. A vacina teria evitado muitas mortes, como os especialistas indicam. Ent\u00e3o, aquela situa\u00e7\u00e3o toda que o livro traz \u00e9 tamb\u00e9m resultado de um atraso proposital justamente para que o terror existisse. Acho isso central: aqueles idosos perto de mim j\u00e1 poderiam ter tido duas doses: eles n\u00e3o estariam l\u00e1! Assim, esse terror todo \u00e9 o nosso pa\u00eds, \u00e9 o que o governo federal produziu, sem que, ali\u00e1s, institui\u00e7\u00e3o nenhuma tenha sido capaz de det\u00ea-lo!\u00a0 No momento em que respondo essas perguntas, um jornalista e um indigenista est\u00e3o desaparecidos, muito provavelmente em decorr\u00eancia das pol\u00edticas lenientes e c\u00famplices do governo com rela\u00e7\u00e3o a garimpo, pesca ilegal, extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira e por a\u00ed vai. O desaparecimento deles \u00e9 uma imensa dor para muita gente, como o desaparecimento de Marielle e a morte de centenas de milhares de pessoas por covid-19, muitas resultado da pol\u00edtica intencionalmente assassina do governo federal.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">O Brasil hoje me parece ser essa imensa dor, s\u00f3 que doentiamente h\u00e1 bastante gente gozando com ela, tendo prazer com ela.<\/span><\/p>\n<p><strong>\u201cComo todos os outros, voc\u00ea acha que vai mudar o mundo, mas tudo o que consegue \u00e9 usar o belo conv\u00eanio e ao mesmo tempo se dizer solid\u00e1rio. Inventa a\u00ed um narrador, tempo e espa\u00e7o, e quem sabe um palco para sua fraqueza\u201d: qual a fraqueza do narrador? E do autor?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A pr\u00e1tica liter\u00e1ria levanta muitas quest\u00f5es para mim e de naturezas diferentes. O fato \u00e9 que qualquer um que possa publicar um livro ou mesmo se manifestar de forma art\u00edstica j\u00e1 ocupa um lugar de privil\u00e9gio. Esse privil\u00e9gio \u00e9 conhecido e foi discutido de formas muito diferentes ao longo da hist\u00f3ria da arte. Foi tamb\u00e9m escamoteado e ocultado. Eu prefiro lidar com isso diretamente: assumir esse lugar e no pr\u00f3prio texto tratar dele. H\u00e1 muitos exemplos poss\u00edveis para essa quest\u00e3o, posso dar um trivial: n\u00e3o ter morrido, para a gravidade da doen\u00e7a que sofri, \u00e9 j\u00e1 um privil\u00e9gio. Depois disso, ainda posso escrever sobre essa n\u00e3o-morte, portanto acho que o mais razo\u00e1vel \u00e9 admitir esse privil\u00e9gio. Mas a fraqueza est\u00e1 em muitos outros lugares: qual a for\u00e7a da literatura diante do governo fascista? A literatura discutiu in\u00fameras quest\u00f5es, muitas delas muito complexas (a presen\u00e7a do Mal por exemplo) ao longo da sua exist\u00eancia. E de fato onde tudo isso pode ter chegado? Eu n\u00e3o tenho respostas, mas sei que essas perguntas s\u00e3o importantes.\u00a0\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">De resto n\u00e3o tenho d\u00favidas sobre a verdade que uma velha proposi\u00e7\u00e3o da filosofia do s\u00e9culo 20 colocou: se h\u00e1 um documento de cultura diante de n\u00f3s, temos diante de n\u00f3s um documento de barb\u00e1rie. Eu ao menos admito.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>\u201cDurante toda a minha interna\u00e7\u00e3o, senti vergonha do excelente tratamento que recebi\u201d: somos uma elite envergonhada? Ainda h\u00e1 vergonha na elite brasileira? O que a literatura pode fazer pela elite brasileira?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vou come\u00e7ar pelo final: acho que a literatura bem pode expor a elite brasileira, colocar em pratos limpos o que essa gente significa. Para tanto, a literatura tamb\u00e9m ter\u00e1 que se expor, o que exige a descoberta de mecanismos espec\u00edficos para isso. Eu sinto vergonha de muitas quest\u00f5es ligadas ao espa\u00e7o que ocupo e n\u00e3o sei lidar bem com todas. Essa \u00e9 uma delas. Tento por sua vez conviver com isso \u201ctraindo\u201d a minha classe social, o que obviamente n\u00e3o consigo o tempo inteiro. Como eu disse com muita clareza no livro: quando precisei, fui ao melhor hospital a que eu tinha acesso. Posso minorar um pouco essa culpa (venc\u00ea-la por inteiro \u00e9 imposs\u00edvel) tratando disso com clareza, expondo os mecanismos da minha pr\u00f3pria classe e lidando com tens\u00e3o com o meu pr\u00f3prio meio \u2013 o que acaba tamb\u00e9m me levando a ser visto muitas vezes com antipatia. Mas a quest\u00e3o do acesso n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica vergonha que a minha classe deveria sentir: no geral, foram meus pares (eu n\u00e3o, essa culpa eu n\u00e3o carrego!) de classe social, sexo, cor da pele e forma\u00e7\u00e3o que elegeram isso a\u00ed para presidente da rep\u00fablica. Se os meus similares n\u00e3o tivessem votado nas elei\u00e7\u00f5es, centenas de milhares de pessoas estariam vivas. \u00c9 uma culpa muito clara e sem qualquer relativiza\u00e7\u00e3o. Muitas outras culpas podem ser listadas: muita gente por exemplo fez quest\u00e3o de levar uma vida normal em meio a um governo fascista, ali\u00e1s como ocorreu na Alemanha e na It\u00e1lia durante os anos 1930 e 1940. N\u00e3o sei como isso pode ser poss\u00edvel, mas foi.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">A \u00fanica coisa \u00e9 que acho que a culpa sequer \u00e9 percebida, muito menos assumida. \u00c9 um problema, pois quem foi capaz de votar no presidente depois de tudo o que ele afirmou durante a campanha \u00e9 capaz de fazer qualquer coisa, e aqui qualquer coisa \u00e9 qualquer coisa mesmo&#8230;\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>Sobre o coment\u00e1rio do editor, que disse que o livro parecia uma arca de No\u00e9 contempor\u00e2nea: algu\u00e9m nessa arca merecia ser salvo?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Enfim, as pessoas tinham que ter tido acesso o mais r\u00e1pido poss\u00edvel \u00e0 vacina. Todas as pessoas, sem exce\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, todos os que cometeram crimes (por exemplo n\u00e3o dar acesso a essa vacina) devem ser julgadas. Acho que isso seria o mais razo\u00e1vel, mas infelizmente acabamos muito longe do razo\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p><strong>Para voc\u00ea, o que foi mais impactante dessa experi\u00eancia de ter covid-19 em um momento em que ainda n\u00e3o havia vacinas?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa tamb\u00e9m \u00e9 uma pergunta dif\u00edcil, que me deixa pensativo. Eu acho que, de forma objetiva, dizendo em um plano muito particular, foi a dor da cintura para baixo que senti nos primeiros dias de interna\u00e7\u00e3o. Foi de fato marcante. Mas eu acho que falando de forma geral, o ambiente todo era muito eloquente: o trabalho dos m\u00e9dicos, o stress dos enfermeiros, a presen\u00e7a da morte como um rato insistente, os gritos de noite, o av\u00f4 fazendo uma liga\u00e7\u00e3o para a neta que poderia ser a \u00faltima, meu filho de 6 anos do outro lado da tela compreendendo tudo, a incerteza de qualquer coisa. O ser humano diante do seu fim.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo L\u00edsias come\u00e7ou a dar forma a Uma dor perfeita ainda no leito da UTI. Internado com covid-19 durante duas semanas entre mar\u00e7o e abril de 2021, o escritor tinha acesso a um telefone celular por meio do qual trocava mensagens com a mulher, alguns amigos, a m\u00e3e e o editor Marcelo Ferroni. Deste \u00faltimo veio a sugest\u00e3o de pensar em um livro. Quando teve alta da UTI e foi para o quarto, L\u00edsias passou ent\u00e3o a tomar notas para o relato. 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