{"id":740,"date":"2022-03-16T15:24:31","date_gmt":"2022-03-16T18:24:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=740"},"modified":"2022-03-16T15:25:33","modified_gmt":"2022-03-16T18:25:33","slug":"diaspora-literatura-angola-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/diaspora-literatura-angola-portuguesa\/","title":{"rendered":"Filha da di\u00e1spora: uma vida entre Portugal e Angola"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"font-weight: 400\">Vit\u00f3ria \u00e9 uma personagem curiosa. Quer saber o que houve com sua m\u00e3e, uma guerrilheira angolana que deixou a filha aos cuidados do av\u00f4 para lutar pela independ\u00eancia de Angola nos anos 1970. Quando a guerra se instala, a fam\u00edlia carrega Vit\u00f3ria para Portugal, onde ela vive uma vida a meio caminho entre duas culturas, na pele e nas tradi\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com o futuro encaminhado, alguma estabilidade, um marido a caminho e uma fam\u00edlia amorosa, a personagem poderia saltar o passado e seguir adiante, mas Vit\u00f3ria \u00e9 desassossegada. A ideia de uma m\u00e3e guerrilheira desconhecida, cuja morte ningu\u00e9m confirma, assim como ningu\u00e9m garante se est\u00e1 viva, perturba a jovem. E \u00e9 em busca desse passado, que \u00e9 tamb\u00e9m todo o presente de gera\u00e7\u00f5es de imigrados, ex-colonos e africanos desterrados, que ela empreende a jornada de <em>Essa dama bate bu\u00e9!<\/em>, uma surpresa delicada da literatura da di\u00e1spora.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Yara Nakahanda Monteiro \u00e9, ela mesma, uma filha da di\u00e1spora. Nasceu em Angola, cresceu em Portugal, morou em v\u00e1rias cidades, passando por Rio de Janeiro e Londres. O romance navega por esses mares de perdas e ganhos dos movimentos migrat\u00f3rios, visita uma mem\u00f3ria coletiva que \u00e9 tamb\u00e9m individual, afinal, cada um tem a sua viv\u00eancia da guerra, e a de Vit\u00f3ria envolve a orfandade, mas tamb\u00e9m a recupera\u00e7\u00e3o de suas ra\u00edzes. \u201cVit\u00f3ria surgiu de forma bastante org\u00e2nica: a partir da experi\u00eancia da perda e da partida de um lugar entendido como sendo a nossa casa, pa\u00eds, cultura e identidade, originando o ex\u00edlio interior vivido pela personagem\u201d, avisa Yara, que tamb\u00e9m \u00e9 poeta e apresentadora de um programa de r\u00e1dio na RDP \u00c1frica.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A di\u00e1spora de Yara passa por quest\u00f5es de g\u00eanero, com uma personagem prestes a se encaixar na narrativa tradicional que dela se espera. O reencontro com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria e com a trajet\u00f3ria da m\u00e3e, no entanto, implantam em Vit\u00f3ria a urg\u00eancia da verdade na pr\u00f3pria intimidade. Abaixo, a autora conta como levou para o livro<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/diversao-e-arte\/2021\/11\/4960226-lancamentos-literarios-abordam-discriminacao-identidade-e-diversidade.html\"> reflex\u00f5es sobre decoloniza\u00e7\u00e3o, racismo, g\u00eanero e identidade<\/a>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Essa dama bate bu\u00e9!<\/span><\/p>\n<p>De Yara Nakahanda Monteiro. Todavia, 198 p\u00e1ginas. R$ 64,90<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Entrevista: Yara Nakahanda Monteiro<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Como a sua trajet\u00f3ria e a de Vit\u00f3ria se entrela\u00e7am?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A hist\u00f3ria do livro \u00e9 100% fic\u00e7\u00e3o e 100% realidade. A imagina\u00e7\u00e3o, quando se entrela\u00e7a com a vida, derruba todas as fronteiras. As nossas trajet\u00f3rias s\u00e3o paralelas, intersectando-se em v\u00e1rios territ\u00f3rios geogr\u00e1ficos e emocionais, o que possibilitou a cria\u00e7\u00e3o de um mosaico narrativo onde as nossas hist\u00f3rias se confundem. A primeira frase do livro \u2013 \u201cA minha primeira mem\u00f3ria \u00e9 uma \u00e1rvore; a segunda uma onda.\u201d \u2013 traduz esse v\u00ednculo. Tenho como sendo a minha mais antiga recorda\u00e7\u00e3o visual o mar da praia das Ma\u00e7\u00e3s.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">Inquietava-me, tamb\u00e9m, a perda da minha negritude e o meu reencontro, consciente, enquanto mulher. Como escreveu L\u00e9lia Gonzalez: \u201cA gente n\u00e3o nasce negro, a gente se torna negro. \u00c9 uma conquista.\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Vit\u00f3ria retorna \u00e0 terra de seus ancestrais para se reencontrar com suas ra\u00edzes e com sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m se depara com um territ\u00f3rio marcado pelo imperialismo, pela desigualdade e pela viol\u00eancia, heran\u00e7a colonial. Por que \u00e9 importante essa trajet\u00f3ria?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A viagem suscita questionamentos \u00e0 personagem. Estes apenas s\u00e3o poss\u00edveis pelo seu deslocamento de Portugal e pelo distanciamento da sua identidade e da fam\u00edlia aportuguesadas. Vit\u00f3ria confronta-se com a falsidade da Angola ut\u00f3pica em que acreditava: o para\u00edso colonial.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A identidade tem sido um tema frequente entre autoras de origem africana na literatura de l\u00edngua portuguesa. Esse tema tem aparecido cada vez mais. Por que, na sua opini\u00e3o? E por que agora? Que momento \u00e9 esse que vivemos em que \u00e9 urgente erguer essas vozes?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Importa ressaltar que a identidade sempre foi problematizada e (des)constru\u00edda na literatura de origem africana em l\u00edngua portuguesa, tanto por escritoras como por escritores. Temos os escritos de Paulina Chiziane, Ana Paula Tavares, No\u00e9mia de Sousa, Lina Magaia.\u00a0\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">A literatura africana de express\u00e3o portuguesa sempre se alimentou desta tens\u00e3o entre o Sul e o Norte da linha do equador, \u00c1frica e Europa, negritude e branquitude. A minha gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 a dar continuidade ao mesmo questionamento, mas atrav\u00e9s de outras e novas perspectivas, viv\u00eancias e hist\u00f3rias.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Qual o papel da literatura na reflex\u00e3o sobre descoloniza\u00e7\u00e3o? E como esse tema \u00e9 importante para voc\u00ea?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A literatura possibilita a reflex\u00e3o sobre a descoloniza\u00e7\u00e3o quando partilha hist\u00f3rias tamb\u00e9m do lado colonizado. Para mim \u00e9 importante contar hist\u00f3rias silenciadas, humanizar a Hist\u00f3ria com H mai\u00fasculo. Desejo suscitar a reflex\u00e3o, o questionamento, apresentar narrativas alternativas. Todas as hist\u00f3rias dever\u00e3o poder ser contadas. A literatura, para mim, pode funcionar como um espa\u00e7o de media\u00e7\u00e3o naquilo que nos separa: a minha Hist\u00f3ria, a tua Hist\u00f3ria; a hist\u00f3ria pela perspetiva do colonizado e pela do colonizador. O leitor torna-se testemunha dessas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">outras <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">hist\u00f3rias. O meu prop\u00f3sito n\u00e3o \u00e9 o do historiador ou o do soci\u00f3logo; \u00e9 apenas e somente o de contar hist\u00f3rias e gerar emo\u00e7\u00f5es em quem l\u00ea os meus livros.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Pouco lemos sobre o papel das mulheres na guerra de Angola. Por qu\u00ea? E que papel elas tiveram?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Alguma bibliografia est\u00e1 dispon\u00edvel no mercado, mas n\u00e3o \u00e9 de f\u00e1cil acesso. Recordo-me de: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O livro da paz da mulher angolana: As hero\u00ednas sem nome<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, organizado pelas escritoras Dya Kasembe e Paulina Chiziane; <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Angola: Quando o imposs\u00edvel se torna poss\u00edvel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de Anabela Chipeio Muekalia; <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Di\u00e1rio de um ex\u00edlio sem regresso<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">,<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">de Deolinda Rodrigues. Os tr\u00eas livros s\u00e3o narrativas pessoais e de mem\u00f3rias. De uma \u00e9poca diferente, mas de grande import\u00e2ncia, \u00e9 a hist\u00f3ria da rainha e guerreira Njinga Mbandi.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">A mulher angolana, nos conflitos nacionalistas e na metamorfose pol\u00edtica e social do pa\u00eds, teve um papel ativo e equiparado ao da contraparte masculina. Por\u00e9m, a sua luta e resist\u00eancia foi dupla: contra o colonizador e contra o regime patriarcal militar e patri\u00f3tico.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 preciso que mais e mais hist\u00f3rias sejam contadas, ficcionadas, para que se reflita e pense a sua exist\u00eancia, como hero\u00ednas da resist\u00eancia angolana e do patriarcado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vit\u00f3ria \u00e9 uma personagem curiosa. Quer saber o que houve com sua m\u00e3e, uma guerrilheira angolana que deixou a filha aos cuidados do av\u00f4 para lutar pela independ\u00eancia de Angola nos anos 1970. 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