{"id":276,"date":"2018-03-05T18:01:52","date_gmt":"2018-03-05T21:01:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=276"},"modified":"2018-03-05T18:01:52","modified_gmt":"2018-03-05T21:01:52","slug":"alberto-manguel-leitura-livros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/alberto-manguel-leitura-livros\/","title":{"rendered":"Que tipo de leitor \u00e9 voc\u00ea? Viajante, isolado ou devorador?"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"font-weight: 400\">O leitor do s\u00e9culo 21 \u00e9 uma esp\u00e9cie de sobrevivente. E tamb\u00e9m um salvador. Cabe a ele salvar o ato de ler. O escritor argentino Alberto Manguel n\u00e3o \u00e9 exatamente um otimista nesse campo, embora seja um Dom Quixote da leitura, com sua biblioteca de 30 mil livros no interior da Fran\u00e7a. Leitores e escritores como Manguel est\u00e3o em extin\u00e7\u00e3o, por isso vale a pena prestar aten\u00e7\u00e3o nas compara\u00e7\u00f5es e alegorias que costumam usar. Em<em> O leitor como met\u00e1fora<\/em>, Manguel investiga os significados simb\u00f3licos da leitura para concluir que h\u00e1 tr\u00eas tipos de leitores.<\/span><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400\">\u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 muito tempo, desde sempre, eu falo e escrevo sobre a leitura e os livros. E, para isso, emprego imagens e met\u00e1foras. Um dia, me perguntei o significado desses vocabul\u00e1rios metaf\u00f3ricos, por que falamos sobre a leitura com um vocabul\u00e1rio gastron\u00f4mico, ou um vocabul\u00e1rio de viagem, ou ainda de reclus\u00e3o, isolamento. Algumas respostas est\u00e3o no meu livro.\u201d \u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O viajante faz do livro todo um universo. Das iluminuras do s\u00e9culo 15 aos meios eletr\u00f4nicos contempor\u00e2neos, esse tipo de leitor encara o livro como a vida, o mundo como um texto e a leitura, como uma viagem. \u00c9, Manguel lembra, a met\u00e1fora mais antiga j\u00e1 concebida para o ato da leitura, da <em>B\u00edblia<\/em> ao Kindle, de Homero \u00e0 Amazon. \u201cA vida como uma viagem \u00e9, como vimos, uma das nossas mais antigas met\u00e1foras\u201d, escreve o autor, nesse ensaio publicado originalmente em 2013 e que agora chega ao Brasil pelas Edi\u00e7\u00f5es Sesc S\u00e3o Paulo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O alheamento ao mundo \u00e9 caracter\u00edstica do segundo tipo de leitor. Esse est\u00e1 confortavelmente instalado em sua torre de marfim e mergulha na leitura para n\u00e3o estar no mundo. Ou para estar em outro mundo. Traduzir o mundo em palavras, alimentar a vida interior, mergulhar na privacidade, recolher-se s\u00e3o movimentos desse leitor, um intelectual que Manguel chama de melanc\u00f3lico, encarcerado em sua torre, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de massas e multid\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na terceira met\u00e1fora, o leitor inventa o mundo a partir de suas leituras, \u00e9 um devorador de livros. Tal qual uma tra\u00e7a, coloca para dentro de si os peda\u00e7os da hist\u00f3ria e acredita que tudo que l\u00ea \u00e9 real. \u00c0s vezes, nessa par\u00f3dia, o leitor \u00e9 tamb\u00e9m um sujeito tolo, que tudo l\u00ea e nada ret\u00e9m. E est\u00e1 sempre arrebatado pela leitura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hoje em dia, segundo Manguel. n\u00e3o h\u00e1 predomin\u00e2ncia de um tipo de leitor. Todos coexistem. O que h\u00e1 \u00e9 uma profunda modifica\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica em consequ\u00eancia do desenvolvimento tecnol\u00f3gico e da digitaliza\u00e7\u00e3o. Manguel lembra que todo instrumento modifica o ato para o qual \u00e9 empregado e a eletr\u00f4nica \u00e9 uma tecnologia que privilegia a rapidez e a brevidade. \u201cA<\/span><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0leitura \u00e9 um ato lento e profundo. O choque entre essas duas tend\u00eancias d\u00e1 \u00e0 leitura ou um contorno fragment\u00e1rio e fragmentado do ato de ler, ou um gesto de oposi\u00e7\u00e3o, ou seja de desvio, do instrumento eletr\u00f4nico\u201d, diz o escritor. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ainda assim, os livros podem nos ajudar a compreender o mundo. Eles abrem portas e janelas, embora sair e tomar o caminho dependa de uma for\u00e7a subjetiva. A motiva\u00e7\u00e3o de Manguel para continuar lendo vem de seu pr\u00f3prio interesse pelo mundo. A curiosidade e a necessidade de escapar \u00e0 besteira cotidiana o levam para os livros. Nesse universo, o leitor tem um papel: \u201cComo sempre, \u00e9 o de \u00a0um n\u00e1ufrago que se esfor\u00e7a para sobreviver em um oceano de estupidez. O papel do leitor \u00e9 o de um salvador do prest\u00edgio do ato intelectual\u201d. <\/span><\/p>\n<p><strong>O leitor como met\u00e1fora<\/strong><\/p>\n<p>De Alberto Manguel. Edi\u00e7\u00f5es Sesc, 148 p\u00e1ginas. R$ 45<\/p>\n<h2>TR\u00caS PERGUNTAS PARA ALBERTO MANGUEL<\/h2>\n<p><strong>O intelectual est\u00e1 em vias de desaparecer?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o. \u00c9 toda a ra\u00e7a humana que est\u00e1 desaparecendo. <\/span><\/p>\n<p><strong>Como seria o Gilgamesh dos tempos modernos, o leitor que viaja? \u00c9 poss\u00edvel viajar por meio da leitura em um mundo t\u00e3o cheio de est\u00edmulos e tecnologias? <\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Era assim ao longo das nossas hist\u00f3rias. Na Idade M\u00e9dia e na Renascen\u00e7a, a distra\u00e7\u00e3o vinha das imagens. O leitor devia se isolar para ler, ou transformar as imagens em texto na pr\u00f3pria cabe\u00e7a. Mas a leitura foi e ser\u00e1 sempre uma viagem pelo texto, mesmo que ele seja curto e fragmentado. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>O que perde o leitor que devora livros?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nada. H\u00e1 diferentes maneiras de ler: Oscar Wilde, por exemplo, era um leitor voraz que percorria as p\u00e1ginas rapidamente e depois se lembrava de tudo. E foi um dos maiores leitores do s\u00e9culo 19.<\/span><\/p>\n<p><strong>Ainda existe espa\u00e7o para her\u00f3is \u00e9picos na literatura contempor\u00e2nea?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Certamente. O atleta Emil Z\u00e1topek, em <em>Correr<\/em>, de Jean Echenoz, o m\u00e9dico Alexandre Yersin, em <em>Peste&amp; C\u00f3lera,<\/em> de Patrick Deville, <em>Caim<\/em>, no romance hom\u00f4nimo de Jos\u00e9 Saramago, s\u00e3o todos her\u00f3is \u00e9picos. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O leitor do s\u00e9culo 21 \u00e9 uma esp\u00e9cie de sobrevivente. E tamb\u00e9m um salvador. Cabe a ele salvar o ato de ler. 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