{"id":114,"date":"2017-09-28T15:07:55","date_gmt":"2017-09-28T18:07:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/?p=114"},"modified":"2017-09-21T15:36:47","modified_gmt":"2017-09-21T18:36:47","slug":"rita-lee-destila-ironia-em-livro-de-contos-blog-leio-de-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/rita-lee-destila-ironia-em-livro-de-contos-blog-leio-de-tudo\/","title":{"rendered":"Rita Lee destila ironia em livro de contos"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"font-weight: 400\"><em>Dropz<\/em> poderia muito bem ser um disco. Tudo o que Rita Lee escreveu nesse livro de contos, que chega depois da pol\u00eamica e sincera autobiografia, rende m\u00fasica simplesmente porque a cantora\/compositora\/escritora \u00e9 uma narradora de primeira, seja na fic\u00e7\u00e3o, seja na can\u00e7\u00e3o. Rita \u00e9, ainda, excelente em transformar coisinhas do cotidiano em textos que nos prendem por conterem a dose certa de ironia (autodirigida, muitas vezes), indigna\u00e7\u00e3o, humor e cr\u00edtica. Dito assim, os ingredientes de <em>Dropz<\/em> v\u00eam de um card\u00e1pio que sempre esteve presente nas m\u00fasicas da autora.<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Rita Lee olha para o mundo da \u201cbobaliza\u00e7\u00e3o\u201d, o \u201cmundinho esquisit\u00e3o\u201d no qual vivemos, com uma pena afiada e impiedosa. Para tal, cria personagens peculiares, como a Cantante decadante, a MulherSof\u00e1 e a MulherAlmofada, o pastor pecador, o mu\u00e7ulmano Ahmud e a Kundalini que era Deus. S\u00e3o tipos perfeitos para distribuir os tapas na cara que pontuam as cr\u00f4nicas: a narrativa \u00e9 engra\u00e7ada, mas n\u00e3o \u00e9 de gra\u00e7a que Rita Lee quer falar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Assim, a autora n\u00e3o poupa um. Comer animais parece esdr\u00faxulo no conto no qual o narrador visita um mundo comandado por bichos, uma \u201ccarona\u201d na <em>Revolu\u00e7\u00e3o dos bichos<\/em>, de George Orwell, porque Rita Lee tamb\u00e9m deixa claras suas refer\u00eancias e leituras. \u201cAinda bem que foi apenas uma viagem na maionese da minha imagina\u00e7\u00e3o. Ainda bem que a ra\u00e7a humana \u00e9 bacana\u201d, escreve. Ela faz uso de muita ironia, um dos recursos mais dif\u00edceis da fic\u00e7\u00e3o, para mostrar que n\u00e3o est\u00e1 ali a passeio. Mas tamb\u00e9m, o que seria da ex-Mutante sem ironia, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Quem acompanhou a trajet\u00f3ria da escritora sabe como suas composi\u00e7\u00f5es empregam bem a f\u00f3rmula de falar uma coisa querendo dizer outra coisa. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Um dos aspectos divertidos de <em>Dropz<\/em> s\u00e3o as refer\u00eancias. Elas n\u00e3o s\u00e3o apenas liter\u00e1rias &#8211; e Rita Lee \u00e9 uma excelente leitora, por sinal -, s\u00e3o tamb\u00e9m hist\u00f3ricas e contempor\u00e2neas, falam da &#8220;bobaliza\u00e7\u00e3o&#8221;, uma era na qual entramos recentemente gra\u00e7as \u00e0s doses cavalares de informa\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o que circulam pela internet. A \u201cbobaliza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 infantil e constrangedora. E Rita Lee explicita isso em contos como o da princesa inglesa entristecida, comparada a uma personagem de filme da Disney. Ou em um texto dedicado a Elvis Presley, um coitado em fim de carreira que se depara com a pr\u00f3pria decad\u00eancia enquanto rumina como vai dar fim \u00e0 pr\u00f3pria vida. Rita \u00e9 sutil ao falar desses personagens. N\u00e3o cita nomes diretamente, mas qualquer um com o m\u00ednimo de cultura pop vai saber do que ela est\u00e1 falando, situa\u00e7\u00e3o ali\u00e1s, que se repete em v\u00e1rios textos. \u00a0Alien\u00edgenas, universos paralelos, fantasias como a da menina que vira planta ou da morte que \u00e9 nascimento e a atriz que se alimenta da histeria dos f\u00e3s aparecem aqui e ali por raz\u00f5es muito boas: o absurdo pode ser a melhor maneira de falar de coisas s\u00e9rias que se tornam banais num cotidiano apressado e superficial. Ah, e s\u00e3o dela tamb\u00e9m as ilustra\u00e7\u00f5es que pontuam o livro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-thumbnail wp-image-116 alignleft\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-content\/uploads\/sites\/37\/2017\/09\/DROPZ_alta-150x150.jpg\" alt=\"DROPZ_alta\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/p>\n<p>Dropz<\/p>\n<p>De Rita Lee. Globo Livros, 272 p\u00e1ginas. R$ 44,90<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dropz poderia muito bem ser um disco. Tudo o que Rita Lee escreveu nesse livro de contos, que chega depois da pol\u00eamica e sincera autobiografia, rende m\u00fasica simplesmente porque a cantora\/compositora\/escritora \u00e9 uma narradora de primeira, seja na fic\u00e7\u00e3o, seja na can\u00e7\u00e3o. Rita \u00e9, ainda, excelente em transformar coisinhas do cotidiano em textos que nos prendem por conterem a dose certa de ironia (autodirigida, muitas vezes), indigna\u00e7\u00e3o, humor e cr\u00edtica. Dito assim, os ingredientes de Dropz v\u00eam de um card\u00e1pio que sempre esteve presente nas m\u00fasicas da autora.<\/p>\n","protected":false},"author":82,"featured_media":118,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[60,78,77,3,4,69,1,70],"tags":[80,82,81,79],"class_list":["post-114","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contos","category-ilustracao","category-ironia","category-literatura","category-livro","category-real","category-sem-categoria","category-surreal","tag-dropz","tag-excelente","tag-novo-livro","tag-rita-lee"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/82"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=114"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":121,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114\/revisions\/121"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/118"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/leiodetudo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}