{"id":581,"date":"2026-07-29T15:49:32","date_gmt":"2026-07-29T18:49:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/jusbraziliense\/?p=581"},"modified":"2026-07-29T16:14:50","modified_gmt":"2026-07-29T19:14:50","slug":"split-payment-a-reforma-tributaria-vai-passar-pelo-caixa-da-sua-empresa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/jusbraziliense\/2026\/07\/29\/split-payment-a-reforma-tributaria-vai-passar-pelo-caixa-da-sua-empresa\/","title":{"rendered":"Split payment: a reforma tribut\u00e1ria vai passar pelo caixa da sua empresa"},"content":{"rendered":"<p><strong>O recolhimento do IBS e da CBS na pr\u00f3pria liquida\u00e7\u00e3o financeira <em>(split payment) acaba<\/em> com o tr\u00e2nsito do tributo pelo caixa e exige prepara\u00e7\u00e3o j\u00e1 em 2026.<\/strong><\/p>\n<p><em>Por <\/em><a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/daniel-de-miranda-220a56ba\/\"><em>Daniel de Miranda<\/em><\/a><\/p>\n<p>O <em>split payment<\/em> \u00e9 a face menos comentada e mais radical da reforma tribut\u00e1ria. Previsto nos arts. 31 a 35 da Lei Complementar 214\/2025, ele determina que o IBS e a CBS sejam segregados e recolhidos no momento da liquida\u00e7\u00e3o financeira da opera\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, quando o cliente paga, o tributo j\u00e1 nasce separado: o dinheiro do imposto vai para o Fisco e s\u00f3 o valor l\u00edquido chega ao fornecedor.<\/p>\n<p>A engrenagem saiu do papel em 2026. Em maio, a Receita Federal e o Comit\u00ea Gestor do IBS editaram o Ato Conjunto RFB\/CGIBS 2\/2026. Na sequ\u00eancia, publicaram o manual de integra\u00e7\u00e3o da Plataforma P\u00fablica do <em>Split Payment<\/em>. Nesse sentido, o que era promessa legislativa virou cronograma tecnol\u00f3gico em execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos parece que o tema merece mais aten\u00e7\u00e3o jur\u00eddica do que vem recebendo. O <em>split payment<\/em> n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um detalhe operacional: ele muda a l\u00f3gica de capital de giro, realoca responsabilidades e deve inaugurar um contencioso pr\u00f3prio.<\/p>\n<h2><strong>Como funciona o recolhimento na liquida\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p><em>Split payment<\/em>, em tradu\u00e7\u00e3o livre, \u00e9 o pagamento repartido: o tributo se separa da receita dentro do pr\u00f3prio fluxo financeiro da opera\u00e7\u00e3o. Atualmente, a empresa recebe o valor cheio da venda, usa o dinheiro do imposto como caixa por semanas e recolhe na data de vencimento. Por outro lado, com o split, a institui\u00e7\u00e3o de pagamento segrega o tributo na pr\u00f3pria transa\u00e7\u00e3o e o repassa diretamente aos cofres p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Vejamos as modalidades desenhadas pela LC 214\/2025:<\/p>\n<p>i) <strong>Split padr\u00e3o, dito inteligente (art. 32)<\/strong>: o sistema consulta em tempo real os dados da opera\u00e7\u00e3o e segrega apenas o valor efetivamente devido, j\u00e1 considerando cr\u00e9ditos do fornecedor;<\/p>\n<p>ii) <strong>Split simplificado (art. 33)<\/strong>: aplica percentual fixo predefinido sobre o pagamento, com ajuste posterior; o excesso retido deve ser devolvido em at\u00e9 tr\u00eas dias \u00fateis;<\/p>\n<p>iii) <strong>Procedimentos de conting\u00eancia<\/strong>: para falhas sist\u00eamicas e meios de pagamento fora do arranjo eletr\u00f4nico, com reten\u00e7\u00e3o pelo valor destacado no documento fiscal ou recolhimento pelo pr\u00f3prio adquirente.<\/p>\n<p>A Plataforma P\u00fablica do Split Payment \u00e9 o elo t\u00e9cnico dessa engrenagem. Divulgada em junho de 2026, ela far\u00e1 a ponte entre as institui\u00e7\u00f5es de pagamento e os entes tributantes. Nesse sentido, por meio dela transitar\u00e3o os dados que permitem segregar CBS e IBS na liquida\u00e7\u00e3o de cada transa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2><strong>O impacto real: o fim do tributo como capital de giro<\/strong><\/h2>\n<p>Quanto custa, em liquidez, perder o uso tempor\u00e1rio do imposto como caixa? A resposta costuma ser subestimada. A t\u00edtulo de exemplo, pense numa distribuidora que fatura R$ 2 milh\u00f5es por m\u00eas, tudo recebido via Pix e boleto. Hoje, a parcela de tributo embutida nesses recebimentos, perto de um quarto do valor na al\u00edquota de refer\u00eancia estimada (aproximadamente 26,5%), dorme no caixa at\u00e9 o recolhimento. Nesse intervalo, ela financia estoque, folha e juros evitados. Com o split, essa parcela deixa de entrar: nasce carimbada e segue direto para o Fisco.<\/p>\n<p>Isso porque o float tribut\u00e1rio, aquele intervalo em que o imposto cobrado do cliente financia a opera\u00e7\u00e3o, simplesmente desaparece. Na pr\u00e1tica, para empresas alavancadas em capital de giro, o efeito equivale a uma redu\u00e7\u00e3o permanente de liquidez. Quem opera com margem apertada e prazo longo de fornecedores sentir\u00e1 primeiro.<\/p>\n<p>Ainda assim, h\u00e1 uma contrapartida relevante. O split tende a reduzir a inadimpl\u00eancia tribut\u00e1ria e, com ela, uma distor\u00e7\u00e3o concorrencial conhecida: o concorrente que vende mais barato porque n\u00e3o recolhe. Em setores de sonega\u00e7\u00e3o estrutural, o campo de jogo ficar\u00e1 mais plano.<\/p>\n<h2><strong>Os riscos jur\u00eddicos que o <em>split payment<\/em> inaugura<\/strong><\/h2>\n<p>Quatro focos devem concentrar o contencioso do <em>split payment<\/em>: reten\u00e7\u00e3o a maior, falhas de segrega\u00e7\u00e3o, cr\u00e9ditos ignorados e contratos desatualizados. Vale destacar que todos nascem de detalhes operacionais, n\u00e3o de grandes teses. Vejamos um a um:<\/p>\n<p>i) <strong>Reten\u00e7\u00e3o a maior<\/strong>: o split simplificado trabalha com percentuais fixos, e a devolu\u00e7\u00e3o do excesso em tr\u00eas dias \u00fateis ser\u00e1 testada na pr\u00e1tica. Atraso sistem\u00e1tico significa apropria\u00e7\u00e3o indevida de caixa alheio;<\/p>\n<p>ii) <strong>Falhas de segrega\u00e7\u00e3o<\/strong>: erro da institui\u00e7\u00e3o de pagamento que ret\u00e9m tributo indevido ou deixa de ret\u00ea-lo abre disputa sobre responsabilidade entre fornecedor, adquirente e operador do arranjo;<\/p>\n<p>iii) <strong>Cr\u00e9ditos ignorados<\/strong>: se o sistema n\u00e3o refletir em tempo real os cr\u00e9ditos do contribuinte, o split inteligente vira reten\u00e7\u00e3o bruta, com efeito confiscat\u00f3rio sobre o fluxo de caixa;<\/p>\n<p>iv) <strong>Contratos desatualizados<\/strong>: contratos de longo prazo firmados sem cl\u00e1usula de adapta\u00e7\u00e3o ao novo fluxo de recebimento gerar\u00e3o pedidos de revis\u00e3o e discuss\u00f5es sobre reequil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Diante disso, a defesa preventiva vale mais que a tese futura. Desse modo, documentar apura\u00e7\u00f5es, guardar trilhas de auditoria das liquida\u00e7\u00f5es e revisar contratos com meios de pagamento s\u00e3o provid\u00eancias que deveriam come\u00e7ar agora.<\/p>\n<h2><strong>O que fazer em 2026, antes da primeira etapa<\/strong><\/h2>\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 gradual, e \u00e9 justamente a gradualidade que abre a janela de prepara\u00e7\u00e3o. Segundo o cronograma divulgado com a regulamenta\u00e7\u00e3o, 2026 \u00e9 o ano de especifica\u00e7\u00e3o e homologa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Em seguida vem a primeira etapa de opera\u00e7\u00e3o, prevista a partir de 2027, facultativa e concentrada em pagamentos eletr\u00f4nicos entre empresas.<\/p>\n<p>Em termos pr\u00e1ticos, quatro frentes deveriam entrar na agenda da diretoria ainda neste ano:<\/p>\n<p><strong>a) Redimensionar o fluxo de caixa<\/strong>, simulando as opera\u00e7\u00f5es sem o tr\u00e2nsito do tributo e renegociando prazos com fornecedores e linhas de capital de giro;<\/p>\n<p><strong>b) Revisar contratos relevantes<\/strong>, incluindo cl\u00e1usulas de repasse, reequil\u00edbrio e concilia\u00e7\u00e3o financeira adaptadas ao recolhimento na liquida\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p><strong>c) Preparar sistemas e concilia\u00e7\u00e3o cont\u00e1bil<\/strong>, porque o casamento entre documento fiscal, transa\u00e7\u00e3o de pagamento e tributo segregado ser\u00e1 a nova rotina de fechamento;<\/p>\n<p><strong>d) Definir a estrat\u00e9gia de modalidade<\/strong>, avaliando se o perfil de cr\u00e9ditos da empresa recomenda o split padr\u00e3o ou o simplificado, quando a op\u00e7\u00e3o existir.<\/p>\n<h2><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>Resumindo a situa\u00e7\u00e3o, o <em>split payment<\/em> deixa de ser conceito e vira infraestrutura em constru\u00e7\u00e3o, com base legal nos arts. 31 a 35 da LC 214\/2025 e regulamenta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica editada em 2026. O recolhimento na liquida\u00e7\u00e3o eliminar\u00e1 o tributo como capital de giro informal e transferir\u00e1 para sistemas de pagamento uma fun\u00e7\u00e3o historicamente exercida pelo contribuinte.<\/p>\n<p><strong>A empresa que tratar o <em>split payment<\/em> como assunto de TI descobrir\u00e1 tarde que ele sempre foi assunto de caixa, de contrato e de estrat\u00e9gia jur\u00eddica.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 certo que a regulamenta\u00e7\u00e3o ainda trar\u00e1 cap\u00edtulos novos, inclusive sobre as etapas obrigat\u00f3rias, e seguiremos analisando cada um deles por aqui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O recolhimento do IBS e da CBS na pr\u00f3pria liquida\u00e7\u00e3o financeira (split payment) acaba com o tr\u00e2nsito do tributo pelo caixa e exige prepara\u00e7\u00e3o j\u00e1 em 2026. Por Daniel de Miranda O split payment \u00e9 a face menos comentada e mais radical da reforma tribut\u00e1ria. 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