{"id":8,"date":"2016-01-10T17:46:31","date_gmt":"2016-01-10T19:46:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=8"},"modified":"2016-04-14T17:59:51","modified_gmt":"2016-04-14T20:59:51","slug":"diante-do-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/diante-do-mar\/","title":{"rendered":"Diante do mar"},"content":{"rendered":"<p>Diante do mar arisco na Playa Delfines, em Canc\u00fan, amonta-se uma multid\u00e3o de gente que fala l\u00edngua aprendida nos mais diferentes lugares mundo. Naquela parte do litoral mexicano, aquele monstro de \u00e1guas muito azuladas \u00e9, de fato, o grande espet\u00e1culo. N\u00e3o podia ser diferente. Qualquer um, inevitavelmente, se curva em frente a tamanha beleza da natureza. Quem vive em cidade incrustada no meio de um continente gigantesco, como os brasilienses, desconhece a rotina com o mar. Uma visita \u00e0 praia equivale a uma visita ao para\u00edso. Pelo menos assim funciona comigo, que s\u00f3 ponho meus p\u00e9s em \u00e1gua salgada em bons momentos da vida, como as f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Desta vez, por\u00e9m, a imensid\u00e3o daquelas \u00e1guas atraiu minha aten\u00e7\u00e3o por outra raz\u00e3o que n\u00e3o sua \u00f3bvia exist\u00eancia. Acreditamos que todos somos plateias do mar, mas, na verdade, ele, sim, \u00e9 a verdadeira testemunha de in\u00fameras hist\u00f3rias an\u00f4nimas encenadas, diariamente, diante dele. Nasce sol e elas estreiam com o dia. O mar \u00e9, de fato, um espectador privilegiado. Se pudesse falar, certamente regurgitaria com as ondas as boas hist\u00f3rias assistidas de camarote.<\/p>\n<p>Basta fazer o exerc\u00edcio de trocar de lugar. Por alguns momentos, n\u00e3o me interessava em nada o vaiv\u00e9m daquela \u00e1gua arredia, de colora\u00e7\u00e3o indescrit\u00edvel. Meu foco eram as representa\u00e7\u00f5es particulares que aconteciam simultaneamente em cada canto daquela praia.<\/p>\n<p>Diante do mar caribenho, vi casais enroscados na areia, dormindo abra\u00e7ados sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com o calor que certamente lhes tostava desigualmente a pele. Amantes que misturavam saliva e suor para garantir a selfie para a eternidade do amor at\u00e9 quando ele durasse. Tamb\u00e9m me deparei com fam\u00edlias inteiras, munidas de comida pouco saud\u00e1vel e suficiente para abastecer uma semana de acampamento. Pelos tra\u00e7os f\u00edsicos, n\u00e3o restavam d\u00favidas de que eram mexicanos, gente que tem o privil\u00e9gio de ter aquela paisagem no quintal de casa. S\u00f3 n\u00e3o posso ter a certeza de que o programa era corriqueiro ou um luxo planejado por semanas, como uma ocasi\u00e3o especial de estar com a fam\u00edlia naquele cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Comigo, o mar testemunhou os filhos que rolavam pelas areias ou jogavam bola acompanhados pelos pais. Ouvi risadas de velhos e de adultos. Escutei choro de crian\u00e7a. Diante do mar, n\u00e3o h\u00e1 barulho definido. H\u00e1 uma mistura de sons. Um jovem tocava viol\u00e3o para uma senhora que poderia ser sua m\u00e3e. Ela estava feliz e acompanhava o ritmo, que eu n\u00e3o podia identificar, com os p\u00e9s. Pelo compasso, acredito que era m\u00fasica animada, uma boa pedida para aquele dia ensolarado.<\/p>\n<p>Na praia do M\u00e9xico, vi gente de diferentes pa\u00edses desfrutando da prerrogativa de verdadeiros monarcas. Afinal, com dinheiro estrangeiro, eles pagaram pelo direito de usufruir um peda\u00e7o daquele para\u00edso onde os limites de cimento erguidos pelo homem criaram cercas no espa\u00e7o aberto planejado pela natureza.<\/p>\n<p>Praia \u00e9 lugar de se despir. Mostrar o corpo e desnudar a alma. O primeiro, vi de todos os jeitos, como, gra\u00e7as a Deus, deve ser na democracia da beleza. Esbarrei com gente malhada, de corpo bem-desenhado, fosse por ben\u00e7\u00e3o divina ou por esfor\u00e7o mundano. Exibiam-se os que tiveram as formas esculpidas pelo tempo; tamb\u00e9m os desapegados e desleixados. Tinha quem entrasse no mar com biqu\u00edni de etiqueta cara ou de cal\u00e7a jeans e camiseta mesmo. Vai saber se por vergonha, por praticidade ou por falta de dinheiro&#8230; N\u00e3o sei dizer. Vi mulher de cal\u00e7a comprida dourada dentro da \u00e1gua e tamb\u00e9m homem de sunga enfiada, fora dela. O melhor da praia \u00e9 a liberdade. Cada um anda como quer. Se uns vestiram roupa, outros as tiraram. Tinha mulher de topless e fio dental. Ali, quase tudo pode.<\/p>\n<p>Diante do mar, vi gente hipnotizada ao contemplar aquela vis\u00e3o, escutando o arrebentar das ondas e os caminhos feitos pelo vento. Arrisco a dizer que os pensamentos podem entrar em sintonia com o movimento das mar\u00e9s. O barulho da \u00e1gua \u00e9 calmante natural e tem poderosa capacidade de fazer qualquer um se teletransportar. Em conversas silenciosas, certamente, aquelas pessoas reviviam hist\u00f3rias, remoinham o passado, buscavam perdoar e serem perdoadas. Ou, pode-se dizer, tentavam se livrar do mais pesado que levavam na cabe\u00e7a e carregavam nas costas. Jogaram o fardo para o mar. Ainda que simbolicamente, vai que a onda leva para bem longe&#8230; E na falta de certeza, por que n\u00e3o pedir? Teve quem aproveitasse as primeiras horas de 2016 para celebrar naquela praia e estourar champanhe quente e barata. No m\u00ednimo, se n\u00e3o fosse atendido, j\u00e1 valeu o brinde diante do mar.<\/p>\n<p>E quantas s\u00e3o as coisas que n\u00e3o se pode ver, mas imaginar, que acontecem naquelas areias? Diante do mar, muitos casais dividiriam os detalhes da primeira noite de amor, vividas nas horas antes. Ali, estou segura de muitos amores come\u00e7am e, certamente, h\u00e1 os que terminam tamb\u00e9m. O mar \u00e9 testemunha da emo\u00e7\u00e3o de quem o v\u00ea pela primeira vez e tamb\u00e9m compartilha a inoc\u00eancia de quem desconhece que ser\u00e1\u00a0 essa a \u00faltima vez a desfrutar desse encontro. Pessoalmente, entrar no mar me acalma, me energiza. Um banho que me faz ser grata pela oportunidade de fazer parte desse universo caprichoso que desenhou palcos assim. Mar traz paz, cuida da cabe\u00e7a, do esp\u00edrito e recicla os pensamentos. S\u00f3 \u00e9 ingrato em um detalhe: definitivamente, n\u00e3o faz nada bem para os cabelos. Ao menos, para os meus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante do mar arisco na Playa Delfines, em Canc\u00fan, amonta-se uma multid\u00e3o de gente que fala l\u00edngua aprendida nos mais diferentes lugares mundo. Naquela parte do litoral mexicano, aquele monstro de \u00e1guas muito azuladas \u00e9, de fato, o grande espet\u00e1culo. N\u00e3o podia ser diferente. Qualquer um, inevitavelmente, se curva em frente a tamanha beleza da natureza. 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