{"id":79,"date":"2016-04-18T13:36:51","date_gmt":"2016-04-18T16:36:51","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=79"},"modified":"2016-04-18T13:38:45","modified_gmt":"2016-04-18T16:38:45","slug":"em-cima-do-muro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/em-cima-do-muro\/","title":{"rendered":"Em cima do muro"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Podem me chamar de covarde, esquizofr\u00eanica e at\u00e9 de habitante de uma realidade paralela. Mas, preciso confessar: fa\u00e7o parte do grupo de brasileiros que n\u00e3o conseguiu, em todos esses meses, assumir fortemente uma opini\u00e3o diante dos rumos pol\u00edticos que arrastam o nosso pa\u00eds. No dia em que a C\u00e2mara dos Deputados decide pelo processo de impeachment<span style=\"color: #444444\"> da <\/span><span style=\"color: #000000\">presidente Dilma Rousseff, ainda n\u00e3o sei qual posi\u00e7\u00e3o escolher. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #000000\">N\u00e3o queria no comando uma Dilma coagida, um Lula investigado, um inexpressivo Temer, menos ainda um Eduardo Cunha, que mudou o foco dos holofotes e conseguiu se livrar de uma apura\u00e7\u00e3o feita do Conselho de \u00c9tica, ao colocar a presidente na linha de tiro e transform\u00e1-la na protagonista da indigna\u00e7\u00e3o brasileira. Desde que a poss\u00edvel retirada de poder da presidente come\u00e7ou a ser debatida, me abri a ouvir opini\u00f5es distintas. Estava disposta a escutar argumentos de quem defende a perman\u00eancia dela no governo e de quem quer v\u00ea-la bem longe dali.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #000000\">N\u00e3o consegui chegar a uma conclus\u00e3o pac\u00edfica com minha consci\u00eancia, por\u00e9m. Ent\u00e3o, me questiono se sou a \u00fanica a ter esse sentimento de caminhar em uma \u201crua sem sa\u00edda\u201d. N\u00e3o fecho os olhos para os erros de quem atualmente comanda o pa\u00eds, mas como me tranquilizar diante da solu\u00e7\u00e3o apontada? A nova possibilidade tamb\u00e9m n\u00e3o me traz sossego.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Na d\u00favida, n\u00e3o me vesti de vermelho nem fui para a Esplanada dos Minist\u00e9rios com camisa verde e amarelo. N\u00e3o fiz selfies, enrolada na bandeira brasileira. N\u00e3o acordei cedo para ir \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o em fam\u00edlia ou entre amigos sorridentes, certos de estarem fazendo parte da hist\u00f3ria do pa\u00eds. N\u00e3o cheguei em casa com a pele tostada pelo sol, depois de horas \u201cprotestando\u201d. Tamb\u00e9m n\u00e3o fiz discursos emocionados no facebook defendendo minha opini\u00e3o, menos ainda criticando quem n\u00e3o a compartilhava. Alienada, eu? Alienado voc\u00ea que tamb\u00e9m n\u00e3o o fez?<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Moro em Bras\u00edlia. Simbolicamente \u00e9 a cidade onde os gritos, que pedem pelo fim da corrup\u00e7\u00e3o e por uma verdadeira democracia, ser\u00e3o ouvidos mais de perto. Soar\u00e3o mais alto, ao menos. Afinal, a multid\u00e3o se concentra ao lado da m\u00e1quina pol\u00edtica. Ontem, no entanto, enquanto os deputados votavam pela aprova\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, do impeachment de Dilma, eu n\u00e3o refor\u00e7ava o grupo de manifestantes, divididos por um muro na Esplanada dos Minist\u00e9rios.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Ali\u00e1s, por uma semana esse muro, constru\u00eddo para separar os grupos pr\u00f3 e contra Dilma, virou ponto tur\u00edstico, tema de charge, reportagens de todos o Brasil. Piadista, o brasileiro esqueceu a pol\u00eamica dentro do Congresso e o transformou em rede para jogar v\u00f4lei. Houve quem brincasse de telefone sem-fio ou usasse o alambrado como mural para escrever e desenhar suas aspira\u00e7\u00f5es. Algu\u00e9m teve a sutileza de colocar uma flor branca na extremidade do pared\u00e3o. Talvez fosse esse um convite a unir esfor\u00e7os para que o Brasil volte a respirar. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Para mim, o muro significou a m\u00e1xima materializa\u00e7\u00e3o das diverg\u00eancias de pontos de vista dos brasileiros. No \u00faltimo m\u00eas, ouvi relatos de pessoas que foram verbalmente agredidas na rua porque estavam, despretensiosamente, vestidas de vermelho, em um momento que a cor da roupa diferencia politicamente os cidad\u00e3os. Li hist\u00f3rias de quem foi fisicamente violentado pela mesma raz\u00e3o. Vi amigos se alfinetarem e se criticarem nas redes sociais porque defendiam cren\u00e7as distintas. O muro, na verdade, j\u00e1 existia. Ele s\u00f3 ganhou forma na capital do poder. Se o muro existe, h\u00e1 dois lados. E quando meus netos perguntarem em qual deles eu fiquei, serei obrigada a responder: \u201cEm nenhum, meu filho! Eu estava, literalmente, em cima dele.&#8221;<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Podem me chamar de covarde, esquizofr\u00eanica e at\u00e9 de habitante de uma realidade paralela. Mas, preciso confessar: fa\u00e7o parte do grupo de brasileiros que n\u00e3o conseguiu, em todos esses meses, assumir fortemente uma opini\u00e3o diante dos rumos pol\u00edticos que arrastam o nosso pa\u00eds. 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