{"id":6,"date":"2016-01-03T17:18:49","date_gmt":"2016-01-03T19:18:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=6"},"modified":"2016-04-14T17:59:53","modified_gmt":"2016-04-14T20:59:53","slug":"quem-ama-liga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/quem-ama-liga\/","title":{"rendered":"Quem ama liga"},"content":{"rendered":"<p>Minha m\u00e3e, que nunca enviou um e-mail na vida, n\u00e3o desgrudou do celular durante as festividades de fim de ano. Era um tal de receber e responder mensagens de felicita\u00e7\u00e3o pelo Natal e pelos votos positivos para o ano que chegava&#8230; E a cada apito euf\u00f3rico de novo texto, ela fazia um coment\u00e1rio, lia os anseios das pessoas em voz alta, colocava a m\u00fasica do gif para tocar. Ela se divertia com a intera\u00e7\u00e3o dos parentes e dos amigos, distantes ou que estivessem aqui ao lado. At\u00e9 que escolheu uma das mensagens entre as recebidas para replicar. As felicita\u00e7\u00f5es padronizadas se encaixariam para qualquer amigo. \u201cPronto, assim resolvo tudo!\u201d, exaltou.<\/p>\n<p>Eu, que acompanhava aquela agita\u00e7\u00e3o, conclu\u00ed que sou mesmo avessa a esse troca-troca de carinho virtual. Sou da gera\u00e7\u00e3o que cresceu sem internet, WhatsApp ou Skype. Para falar com a fam\u00edlia ou com os amigos que estivessem longe, s\u00f3 mesmo pelo telefone ou por carta. Esta \u00faltima, tinha que ser escrita a m\u00e3o. S\u00f3 fui ter computador quando j\u00e1 estava na faculdade. Sorte de quem era dono de uma m\u00e1quina de escrever e impressora era um luxo. Ent\u00e3o, para dar not\u00edcias, era preciso parar tudo, escolher um canto da mesa e gastar tinta da caneta.<\/p>\n<p>Ah, como sinto falta disso! Nasci e morei boa parte da minha vida em Bras\u00edlia, mas meu sangue \u00e9 mineiro e a fam\u00edlia continua vivendo por l\u00e1. Tamb\u00e9m fiz amigos por aquelas bandas e era para essas pessoas que escrevia longos textos em folha A4. Tenho, at\u00e9 hoje, todas as respostas que recebi. Est\u00e3o todas em uma caixa, separadas pelo nome do remetente. Lamento que a nova gera\u00e7\u00e3o talvez nunca v\u00e1 saber qu\u00e3o deliciosa \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de esperar uma carta entregue pelos Correios.<\/p>\n<p>A primeira coisa que eu fazia ao chegar da escola era conferir se tinha algum envelope endere\u00e7ado a mim. A ansiedade aumentava quando uma resposta era esperada. E ela sempre vinha. Nenhuma amizade resistia a uma desfeita de n\u00e3o receber um retorno. Coisa que \u00e9 t\u00e3o simples de se fazer hoje: voc\u00ea olha a mensagem no celular, n\u00e3o l\u00ea, deleta e assunto encerrado. Na \u00e9poca em que se escrevia, era afronta e indelicadeza n\u00e3o retribuir o remetente.<\/p>\n<p>Deliciosa mesmo era a carta volumosa: sinal de que as coisas estavam movimentadas na vida das amigas e as fofocas de fam\u00edlia pipocando. N\u00e3o s\u00f3 eu penso assim. M\u00eas passado, estive em Belo Horizonte para participar do casamento de uma dessas correspondentes de inf\u00e2ncia\/adolesc\u00eancia. Rimos juntas e, c\u00famplices, contamos uma \u00e0 outra, que, quase 20 anos depois, guardamos as cartas trocadas. Eu aqui e ela l\u00e1. Se juntarmos os pap\u00e9is, remontamos cada detalhe dos momentos que desfrutamos naquela idade. Combinamos de fazer isso em breve. Estou certa de que ser\u00e1 uma del\u00edcia reler a hist\u00f3ria que eu mesma contei.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um privil\u00e9gio que s\u00f3 tem quem escrevia em papel. A tecnologia d\u00e1 pau. Ela nos faz perder e-mails, nos obriga a apagar as mensagens porque a m\u00e1quina n\u00e3o comporta tanta conversa trivial. Assim, n\u00e3o sobra espa\u00e7o para o que realmente \u00e9 importante. Vai tudo para a lixeira, some na nuvem e se apaga da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quem tem cartas pode rel\u00ea-las, relembrar epis\u00f3dios arquivados em algum cantinho esquecido do c\u00e9rebro e do cora\u00e7\u00e3o. As cartas t\u00eam cheiro. A letra tem personalidade. Emociona saber que algu\u00e9m caprichou na caligrafia para impressionar ou, no m\u00ednimo, se fazer intelig\u00edvel. Que fez um desenho junto com a assinatura s\u00f3 para demonstrar como estava feliz. Se a carta era de amor, a vontade era de abra\u00e7ar a folha na tentativa de reconhecer nela o toque do outro. Por sorte, ela poderia, inclusive, vir com um respingado de comida ou com o aroma do perfume de quem a escreveu. A carta sempre estava cheia de digitais e isso fazia parte da emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando faltava afinidade com as palavras ou tempo para a log\u00edstica de envi\u00e1-las, os telefonemas resolviam. Eles eram t\u00e3o acolhedores quando as letras. Ouvir a voz da pessoa do outro lado dava um frio na barriga. A risada do outro tamb\u00e9m te fazia rir. Pela voz, desenhavam-se na mente as fei\u00e7\u00f5es de algu\u00e9m que n\u00e3o se via h\u00e1 muito tempo, ou mesmo de quem voc\u00ea tinha visto h\u00e1 poucas horas, mas nunca tempo suficiente. Melhor ainda quando o \u201cal\u00f4\u201d era de quem se esperava. Nada disso voc\u00ea sente em um texto padr\u00e3o, autom\u00e1tico, ainda que seja para desejar felicidades. Uma pena!<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o de carinho virtual roubou a sensa\u00e7\u00e3o de sentir-se especial. Tudo passou a ser coletivo. Nada \u00e9 personalizado. As mensagens nem chegam com seu nome. Afinal, voc\u00ea sabe, ela n\u00e3o foi enviada com exclusividade. Ningu\u00e9m \u00e9 \u00fanico. Minha m\u00e3e, mesmo na euforia, retorceu a cara quando, em um dos recados que recebeu na noite de Natal, foi chamada de \u201cquerida\u201d. Seria carinhoso n\u00e3o fosse o fato de que a amiga remetente nunca se referia a ela daquela forma. Inconscientemente, ela manifestou o desagrado por n\u00e3o se reconhecer como destinat\u00e1ria do texto e de fazer parte de uma grande lista.<\/p>\n<p>Eu mesma passei por isso h\u00e1 uns anos. Um amigo querido, mas com o qual n\u00e3o falava h\u00e1 muito, muito tempo, me enviou uma mensagem pelo WhatsApp durante a ceia de Natal. O desejo de uma bela noite n\u00e3o vinha acompanhado de meu nome. O in\u00edcio era gen\u00e9rico e finalizado por um beijo. Pensei que ele tivesse mandado para a pessoa errada ou que estava em uma lista de contatos selecionada para receber a mensagem autom\u00e1tica. Pela minha teoria, ao menos ele tinha me adicionado a ao grupo de amigas mulheres. Pensei que n\u00e3o mandaria \u201cum beijo\u201d para todos os amigos homens. Era um bom sinal, j\u00e1 que, pelo menos, tinha o m\u00ednimo crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mensagem sem dono n\u00e3o me alegra. Pelo menos n\u00e3o toca meu cora\u00e7\u00e3o. No af\u00e3 de ser agrad\u00e1vel com todos, n\u00e3o fazemos a diferen\u00e7a na vida de ningu\u00e9m especificamente. Lemos e agradecemos por polidez. Mas, minutos depois, n\u00e3o nos lembramos mais do texto, muito menos de quem nos enviou. S\u00e3o todos iguais. Alguns s\u00e3o entediantes, aborrecidos e voc\u00ea logo apaga. Para evitar isso, n\u00e3o liguei nem mandei mensagem de fim de ano para ningu\u00e9m. Preferi, ao longo do ano, encher a caixa do telefone dos meus amigos com discursos de agradecimentos e dizer o quanto eles s\u00e3o importantes para mim, pessoalmente, quando o cora\u00e7\u00e3o pedia. Sem data especial.<\/p>\n<p>N\u00e3o desprezo aqui nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o de carinho, mas abra\u00e7os comovem mais do que palavras digitadas. Uma voz emocionada ao telefone te arranca l\u00e1grimas, suspiros e sorrisos. Feliz da vida fiquei quando aquele mesmo amigo me ligou este ano para desejar Feliz Natal e um ano promissor. Agora sim, sabia que os votos eram dirigidos a mim. Isso \u00e9 um grande presente. Afinal, discursos falados n\u00e3o s\u00e3o esquecidos. O cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o deleta emo\u00e7\u00e3o. Mas o celular, sim, pifa e apaga mem\u00f3ria cheia. 03<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha m\u00e3e, que nunca enviou um e-mail na vida, n\u00e3o desgrudou do celular durante as festividades de fim de ano. 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