{"id":519,"date":"2023-01-23T17:05:44","date_gmt":"2023-01-23T20:05:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=519"},"modified":"2023-01-23T17:05:44","modified_gmt":"2023-01-23T20:05:44","slug":"despeca-se-do-para-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/despeca-se-do-para-sempre\/","title":{"rendered":"Despe\u00e7a-se do \u201cpara  sempre\u201d"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2023\/01\/4B4F1A06-FCC2-4DBF-90D7-59C4BA69BDC7.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-520\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2023\/01\/4B4F1A06-FCC2-4DBF-90D7-59C4BA69BDC7.jpeg\" alt=\"\" width=\"258\" height=\"176\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2023\/01\/4B4F1A06-FCC2-4DBF-90D7-59C4BA69BDC7.jpeg 258w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2023\/01\/4B4F1A06-FCC2-4DBF-90D7-59C4BA69BDC7-230x157.jpeg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 258px) 100vw, 258px\" \/><\/a><\/p>\n<div>Sempre fui avessa a despedidas. Nascida em Bras\u00edlia, n\u00e3o conhe\u00e7o outra realidade que n\u00e3o a de viver distante de minha fam\u00edlia. Todos \u2014 exceto pai, m\u00e3e e meus dois irm\u00e3os \u2014 moram em Minas Gerais. Aqui, somos s\u00f3 n\u00f3s cinco: \u00f3rf\u00e3os das festas de domingo na casa da matriarca; dos anivers\u00e1rios de primos e dos sobrinhos; mas tamb\u00e9m livres das tretas e das lamenta\u00e7\u00f5es da parentada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Desde muito cedo, aprendi que \u00e9 preciso dizer \u201ctchau\u201d a quem mais gostamos, e sempre achei isso chato pra caramba. Chegava a \u00e9poca de visitar av\u00f3s e tios na inf\u00e2ncia, era drama certo na hora de partir. Eu me debulhava em l\u00e1grimas, escrevia cartas emocionadas aos familiares, como se a volta para a casa fosse uma travessia para uma indesejada viagem solit\u00e1ria. Talvez seja culpa do meu signo de caranguejo \u2014 dram\u00e1tico, carente, \u00e1gua pura \u2014, mas sempre choro quando preciso ir embora ou deixar que algu\u00e9m v\u00e1. Sofro. Passo dias com o cora\u00e7\u00e3o carcomido pela ideia antecipada da separa\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>J\u00e1 tentei algumas alternativas para amenizar a como\u00e7\u00e3o exagerada, como ignorar a partida e pensar que amanh\u00e3 estaremos todos juntos novamente. N\u00e3o d\u00e1 certo. A alma muito apegada n\u00e3o engana o c\u00e9rebro fingidor e, por mais que a mente tente se convencer de que a vida \u00e9 um surpreendente percurso, e sempre haver\u00e1 a possibilidade de um reencontro, os sentimentos de d\u00favida e a hip\u00f3tese do \u201cnunca mais\u201d arru\u00ednam a minha tentativa de bom senso.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outra t\u00e1tica foi deixar pelo meio do caminho as pessoas as quais o universo conspirou para que fisicamente estivessem distantes. Talvez doesse menos n\u00e3o me lembrar da boa experi\u00eancia que n\u00e3o poderia, nunca mais, ser revivida. A tentativa foi igualmente frustrada. Minha mem\u00f3ria, insistente em mudar os tempos verbais e transformar passado em presente, se recusa a deletar as figuras importantes que cruzaram minha vida. E d\u00e1-lhe sofrimento!<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A alternativa foi, ent\u00e3o, conviver com a danada da saudade. Uma vez me disseram que eu sou daquele tipo que quer deixar, no jardim alheio, o nome escrito, para sempre, no tronco de uma \u00e1rvore, como uma lembran\u00e7a em forma de cicatriz. O exemplo soa dram\u00e1tico, mas achei fidedigno. Quem n\u00e3o quer ser inesquec\u00edvel e fazer parte das recorda\u00e7\u00f5es de outra pessoa? Pretensiosa, eu sempre quis estar na lista de privilegiados indel\u00e9veis de quem me \u00e9 igualmente caro. Mas como garantir a sobreviv\u00eancia dentro de algu\u00e9m? Imposs\u00edvel ter garantias.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>At\u00e9 que me convenceram de que v\u00ednculos verdadeiros n\u00e3o t\u00eam prazo de validade. Pouco importa o contato f\u00edsico ou a conversa\u00e7\u00e3o frequente. Cen\u00e1rios e personagens fora do comum s\u00e3o para sempre inolvid\u00e1veis e estar\u00e3o em um canto seguro da mem\u00f3ria, para onde podemos voltar quando o banzo chegar. Se vamos encontrar o outro ali? N\u00e3o sei, mas compartilho a filosofia cantada por Raul Seixas, que definiu, na m\u00fasica Prel\u00fadio, o seguinte: \u201cSonho que se sonha s\u00f3\/ \u00c9 s\u00f3 um sonho que se sonha s\u00f3\/ Mas sonho que se sonha junto \u00e9 realidade.\u201d Ent\u00e3o, quem sabe a gente se v\u00ea de novo. Ainda que na minha, na sua ou na nossa imagina\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Escreva: fsduarte@hotmail.com<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre fui avessa a despedidas. 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