{"id":477,"date":"2022-06-09T15:27:55","date_gmt":"2022-06-09T18:27:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=477"},"modified":"2022-06-09T15:27:55","modified_gmt":"2022-06-09T18:27:55","slug":"gente-feliz-nao-posta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/gente-feliz-nao-posta\/","title":{"rendered":"Gente feliz n\u00e3o posta!"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito, tenho refletido sobre meu comportamento exibicionista nas redes sociais e me sentindo um tanto inc\u00f4moda com o personagem que inventei \u2013 e todos inventamos \u2013 para ter a melhor foto do feed. Eu, que nasci com tend\u00eancia bastante ostensiva, que era l\u00edder de turma na escola e que n\u00e3o aceitava nada menos do que ser a protagonista na pe\u00e7a de teatro encenada na inf\u00e2ncia, decidi que chega de caras e bocas virtuais.<\/p>\n<p>\u201cGente feliz n\u00e3o posta!\u201d, conclu\u00ed faz tempo. Falo por mim. Quando a conversa est\u00e1 boa e o jantar, delicioso, ningu\u00e9m se preocupa em parar tudo para fazer uma foto, exclusivamente, para mostrar aos outros. A prioridade n\u00e3o \u00e9 o registro do momento e nem adianta tentar me convencer disso. O clique faz parte da cria\u00e7\u00e3o de uma narrativa para refor\u00e7ar, a si mesmo, o quanto a sua pr\u00f3pria vida \u00e9 interessante a ponto de ser compartilhada.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m troca um chamego por um v\u00eddeo. Digo sempre que quem est\u00e1 ocupado e muito bem acompanhado n\u00e3o tem tempo para selfie. Louca de quem interrompe uma boa risada ou um bom beijo para fazer pose de sexy em troca de um \u201cUau, que gata!\u201d.<\/p>\n<p>Gente que est\u00e1 satisfeita n\u00e3o se preocupa em se jogar no mar ou em sair de casa sem maquiagem com medo de n\u00e3o estar preparada para \u201caquela\u201d foto. Gente feliz anda suada, despenteada, ao natural, numa falta de produ\u00e7\u00e3o nada glamourosa para os holofotes das redes. Afinal, quem vai invejar sua cara lavada e seus fios de cabelo rebeldes?<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 feliz com a vida real, vai ler um livro, preparar uma comida, ver uma s\u00e9rie ou visitar um amigo. Sequer vai se lembrar de deitar no sof\u00e1, usar um filtro e fazer cara de quem acordou naturalmente bela. Que cansativo dominar as dobras da barriga e as rugas do sorriso para parecer sempre bela! For\u00e7ar o sorriso, encontrar o \u00e2ngulo que afine o nariz, fazer o biquinho, olhar para o nada como se tudo fosse mesmo espont\u00e2neo. Levante a m\u00e3o quem nunca&#8230;<\/p>\n<p>Que pregui\u00e7a perder tempo na praia procurando o melhor cen\u00e1rio ati\u00e7ar a inveja nos amigos que est\u00e3o trabalhando ou tentar encontrar o coqueiro meio ca\u00eddo para se pendurar, prender a respira\u00e7\u00e3o, ficar com a barriga chapada para fazer a foto, de gosto duvidoso, que n\u00e3o pode faltar no \u00e1lbum \u201colha como estou plena\u201d. Prefiro gastar este tempo para procurar vendendor de milho verde, sujar as m\u00e3os e todos os dentes que renderiam um flagra nada instagram\u00e1vel.<\/p>\n<p>Solto um suspiro s\u00f3 de pensar em refazer as mil cenas porque no grupo de amigas uma apareceu com o olho fechado, a outra ficou mais gorda ou mais magra e a terceira que jogar a cabe\u00e7a para tr\u00e1s como se a risada fosse t\u00e3o natural quanto a edi\u00e7\u00e3o de cores e luz que a foto vai ganhar antes de ser publicada. Um faz de conta que at\u00e9 conhe\u00e7o casais que n\u00e3o se seguem nas redes porque um n\u00e3o reconhece, naquele int\u00e9rprete que aparece nas redes, a pessoa com quem dorme todos os dias.<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto nada da ideia de estar em busca dos melhores stories, de esperar a aten\u00e7\u00e3o de um amigo s\u00f3 depois que ele tingir a foto, colocar moldura e som no v\u00eddeo. E para qu\u00ea? Para que um monte de outros amigos distantes ou desconhecidos visualizem sua rotina, aparentemente, maravilhosa.<\/p>\n<p>Postamos em busca do like virtual de quem n\u00e3o se preocupa em mandar uma mensagem ou dar um telefonema para saber como estamos de verdade. Gente que nunca ir\u00e1 nos convidar para um encontro. Gente que at\u00e9 marca o encontro, mas n\u00e3o aparece, ainda que assista silenciosamente a tudo o que voc\u00ea posta.<\/p>\n<p>Mas nos sentimos amados com cada palminha ou cora\u00e7\u00e3o que aparece nos coment\u00e1rios. Isso \u00e9 t\u00e3o fake quanto o ator que voc\u00ea inventou para interpretar a sua pr\u00f3pria vida. Poucas pessoas est\u00e3o interessadas no que voc\u00ea come, se voc\u00ea est\u00e1 reunido com sua fam\u00edlia ou se voc\u00ea quer exibir o corp\u00e3o acompanhado de frase motivacional. A maioria est\u00e1 mesmo \u00e9 mais preocupada em avaliar se est\u00e3o se saindo melhor do que voc\u00ea nesta ingrata tarefa de fingir felicidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Siga: @inconfidencias_blog<\/strong><\/p>\n<p><strong>Entre em contato: fsduarte@hotmail.com<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito, tenho refletido sobre meu comportamento exibicionista nas redes sociais e me sentindo um tanto inc\u00f4moda com o personagem que inventei \u2013 e todos inventamos \u2013 para ter a melhor foto do feed. Eu, que nasci com tend\u00eancia bastante ostensiva, que era l\u00edder de turma na escola e que n\u00e3o aceitava nada menos do que ser a protagonista na [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-477","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/477","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=477"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/477\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":478,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/477\/revisions\/478"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=477"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=477"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=477"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}