{"id":400,"date":"2017-07-27T13:42:42","date_gmt":"2017-07-27T16:42:42","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=400"},"modified":"2017-07-27T13:43:17","modified_gmt":"2017-07-27T16:43:17","slug":"para-minha-amiga-clarice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/para-minha-amiga-clarice\/","title":{"rendered":"Para minha amiga Clarice"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">No in\u00edcio dos anos 1950, Clarice Lispector assumiu a identidade de uma personagem\u00a0chamada Tereza Quadros. O desafio era escrever uma coluna para um peri\u00f3dico de vida muito breve, o <i>Com\u00edcio<\/i>,<i> <\/i>e dar conselhos simples para as leitoras. N\u00e3o vou aqui tentar discutir a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade patriarcal, menos ainda lamentar o papel feminino de coadjuvante daquele tempo. Mas, se poss\u00edvel fosse, adoraria convidar Clarice para um caf\u00e9, hoje, anos 2017.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Alguns dos conselhos dela para as leitoras est\u00e3o reunidos no livro <i>Correio Feminino.<\/i>\u00a0Confesso que, sem tentar ponderar o contexto social, fiquei abusada com as sugest\u00f5es da tal Tereza. A maioria era de regras de como a mulher &#8220;elegante&#8221; deveria se comportar para agradar ao marido ou, ao menos, n\u00e3o desagradar aos poss\u00edveis esposos.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Mulher tinha que estar bonita e bem cuidada. Sempre impec\u00e1vel em casa para que ele n\u00e3o desviasse o olhar para maiores atrativos na rua. Ela dizia solid\u00e1ria: \u201cA sedu\u00e7\u00e3o di\u00e1ria \u00e9 cansativa. Eu sei, amiga, mas o que h\u00e1 de se fazer. Afinal, precisarmos deles para completar a nossa felicidade, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Fa\u00e7amos, portanto, por conquist\u00e1-los\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Eu responderia a ela: n\u00e3o, amiga Clarice, nenhum homem \u00e9 necess\u00e1rio para completar a felicidade de uma mulher. Um companheiro ser\u00e1 bem-vindo se vier para somar, mas n\u00e3o a qualquer custo. Sejamos sedutoras da forma que nos sentirmos atraentes diante do pr\u00f3prio espelho. Que nos olhem aqueles que apreciarem nossos diferenciais e nossa personalidade.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Clarice sugeria n\u00e3o usar muita maquiagem, menos ainda decotes ousados ou roupas justas ao corpo. Joias em excesso era coisa de mulher exibida, e, certamente, \u201cnenhum homem apreciaria esse tipo\u201d. Amada Clarice, ou Tereza, felizmente, descobrimos que podemos nos vestir como bem quisermos. H\u00e1 mulheres cl\u00e1ssicas, mais discretas, mas h\u00e1 as que amam as cores nos l\u00e1bios e contornos nos olhos. S\u00e3o igualmente belas e atraentes. N\u00e3o importa se os homens est\u00e3o de acordo, gra\u00e7as a Deus. Ali\u00e1s, eu, por exemplo, te sugeriria encontrar um companheiro que te desse de presente um lindo vestido com recorte sexy, seja no busto, nas costas ou com uma fenda nas pernas. E, eu, s\u00f3<\/span><\/span><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">\u00a0n\u00e3o desfilo com joias por lament\u00e1vel falta de verbas.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">A escritora tamb\u00e9m criou uma lista do que chamou de \u201cmanias que enfeiam\u201d. Na ordem, dizia que os homens \u201cdetestavam\u201d mulheres que estavam sempre comendo um \u201cchocolate, caramelo ou sorvete. Minha cara, lamento pelas minhas amigas que tenham ao lado um parceiro que lhes controle o card\u00e1pio. Tor\u00e7o \u00e9 para encontrar um que me encha de bombons, me convide para jantar com direito a uma gorda sobremesa ou assista a um filme comigo, dividindo uma lata de sorvete de doce de leite.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Rir alto ou falar muito tamb\u00e9m foram consideradas \u201cmanias prejudiciais, que costumavam fazer os homens fugirem apavorados desse tipo de mulher\u201d. Clarice, eu, por exemplo, quero mais que esse sujeito desapare\u00e7a mesmo da minha vida, na velocidade da luz. Que se mantenha longe um tipo que me impe\u00e7a de gargalhar ou de desembestar a falar se tenho uma boa hist\u00f3ria para contar.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Desejo que voc\u00ea tamb\u00e9m esbarre com algu\u00e9m que, ao contr\u00e1rio, ria muito com voc\u00ea, que, ali\u00e1s, te fa\u00e7a rir exageradamente alto, aquela risada que precisa ser extravasada por ser deliciosa demais para ser contida. Minhas preces \u00e9 para que eu, voc\u00ea e a mo\u00e7a que me l\u00ea agora conhe\u00e7amos um cara que n\u00e3o s\u00f3 nos deixe falar, como se interesse por nosso falat\u00f3rio, pergunte e queira saber mais. Mas, cara Clarice, cada um sabe de si, e n\u00e3o estou aqui para dar conselhos, nem mesmo a voc\u00ea, que, como Tereza, sugeriu que as mulheres deveriam virar bonecas im\u00f3veis e perfeitas para serem merecedoras de um amor.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Escreva: fsduarte@hotmail.com<\/p>\n<p>Facebook: (In) Confid\u00eancias<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio dos anos 1950, Clarice Lispector assumiu a identidade de uma personagem\u00a0chamada Tereza Quadros. O desafio era escrever uma coluna para um peri\u00f3dico de vida muito breve, o Com\u00edcio, e dar conselhos simples para as leitoras. N\u00e3o vou aqui tentar discutir a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade patriarcal, menos ainda lamentar o papel feminino de coadjuvante daquele tempo. 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