{"id":40,"date":"2015-12-19T17:06:41","date_gmt":"2015-12-19T19:06:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=40"},"modified":"2016-04-14T17:59:55","modified_gmt":"2016-04-14T20:59:55","slug":"brasilia-madura-como-amora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/brasilia-madura-como-amora\/","title":{"rendered":"Bras\u00edlia madura como amora"},"content":{"rendered":"<p>Nasci em Bras\u00edlia. Cresci nessa cidade que \u00e9 cen\u00e1rio de minhas mem\u00f3rias afetivas. Na inf\u00e2ncia, me lembro bem da alegria que sentia quando meu pai parava o carro em algum dos estacionamentos do Parque da Cidade para procurarmos amora nas \u00e1rvores. Felizmente, os galhos eram baixos, ao alcance dasm\u00e3os de uma crian\u00e7a. Sorte era quando ningu\u00e9m tinha passado por ali antes e o p\u00e9 estava carregado da frutinha. Elas manchavam os dedos roxos. Os l\u00e1bios tamb\u00e9m. Nunca mais comi amoras t\u00e3o doces quanto as que nascem no cerrado da minha terra natal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No mesmo parque, desbravava o Castelinho. A gente ralava a roupa e as pernas\u00a0 nos bancos, nas mesas e no escorregador de cimento que at\u00e9 hoje est\u00e3o por l\u00e1. Se fechar os olhos, consigo at\u00e9 sentir o cheiro da areia umedecida por urina de cachorro, ou de gente, que passava pelos corredores daquele castelo de tijolos. Na lista de saudades, ainda tem as brincadeiras debaixo do bloco de pilotis, momentos que s\u00f3 quem cresceu por aqui tem o privil\u00e9gio de levar na lembran\u00e7a. Os dias no zool\u00f3gico sempre eram encerrados com compras de cata-ventos coloridos ou garrafas de \u00e1gua com detergente que prometiam virar bolas de sab\u00e3o. Desconfio que, naquela \u00e9poca, a entrada para visitar os bichos n\u00e3o era t\u00e3o concorrida quanto hoje, com enormes filas de carros aos fins de semana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Adulta, tenho reconstru\u00eddo meu relacionamento amoroso com Bras\u00edlia. E madura, essa cidade se mostra ainda mais encantadora. N\u00e3o como mais amoras no Parque da Cidade. Aquele lugar agora \u00e9 ref\u00fagio para respirar, estimular a circula\u00e7\u00e3o e a engrenagem do corpo durante caminhadas matinais. Dia desses fui visitar o Castelinho. J\u00e1 n\u00e3o era o mesmo da minha inf\u00e2ncia. A primeira impress\u00e3o foi de ser bem menor do que guardava em meus pensamentos. N\u00e3o estranhei, afinal, quando se \u00e9 pequeno tudo ganha propor\u00e7\u00e3o exagerada. N\u00e3o reconheci o cheiro abafado, t\u00edpico de ref\u00fagio de animais e de homens com bexiga cheia, mas n\u00e3o pude deixar de avaliar quanta insanidade \u00e9 fazer uma crian\u00e7a deslizar \u2014 se \u00e9 que isso \u00e9 poss\u00edvel \u2014, em um escorregador de concreto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cidade com a qual me relaciono hoje inclui a \u00c1gua Mineral. Quando crian\u00e7a, guardo uma ou duas visitas na recorda\u00e7\u00e3o. Me vejo encantada pela beleza natural que rodeia as piscinas de \u00e1guas correntes e um bocado geladas. Ao chegar l\u00e1, h\u00e1 poucas semanas, fui reiterada de que os habitantes continuam igualmente brincalh\u00f5es. Os pequenos macaquinhos ainda roubam objetos das bolsas dos visitantes. S\u00f3 que agora, em vez de levarem, no m\u00e1ximo, um brinquedo meu, poderiam surrupiar meu celular ou carteira com documentos. O preju\u00edzo certamente seria maior e a brincadeira n\u00e3o teria a menor gra\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se cresci ouvindo que o Lago Parano\u00e1 era polu\u00eddo, hoje, me vejo \u201csurfando\u201d por aquelas \u00e1guas. Recentemente, me aventurei no stand up paddle. Em cima de uma prancha, divido minha aten\u00e7\u00e3o entre me manter equilibrada e observar a beleza daquele lago inventado. De perigo, descobri que s\u00f3 tem mesmo a chance de esbarrar com um grupo de capivaras nativas. Confesso que quando caio, ou simplesmente me jogo na \u00e1gua para um refresco,me vem \u00e0mente a possibilidade de me deparar um jacar\u00e9 no fundo daquela \u00e1gua escura, onde \u00e9 imposs\u00edvel ver o pr\u00f3prio p\u00e9. Se o pensamento insiste, subo na prancha e continuo o passeio, com a ponte eleita como amais bonita do mundo ao fundo. Prazeres que s\u00f3 Bras\u00edlia permite levar para sempre na mem\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nasci em Bras\u00edlia. Cresci nessa cidade que \u00e9 cen\u00e1rio de minhas mem\u00f3rias afetivas. Na inf\u00e2ncia, me lembro bem da alegria que sentia quando meu pai parava o carro em algum dos estacionamentos do Parque da Cidade para procurarmos amora nas \u00e1rvores. Felizmente, os galhos eram baixos, ao alcance dasm\u00e3os de uma crian\u00e7a. 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