{"id":387,"date":"2017-07-03T12:21:08","date_gmt":"2017-07-03T15:21:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=387"},"modified":"2023-01-04T08:06:28","modified_gmt":"2023-01-04T11:06:28","slug":"quando-custa-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/quando-custa-o-amor\/","title":{"rendered":"Quanto custa o amor?"},"content":{"rendered":"<p>No livro <em>Ostra feliz n\u00e3o faz p\u00e9rola<\/em>, Rubem Alves escreveu que &#8220;o amor \u00e9 algo que n\u00e3o se possui, jamais. \u00c9 evento de gra\u00e7a. Aparece quando quer, e s\u00f3 nos resta ficar \u00e0 espera\u201d. Concordo com ele, mas como ando meio indisposta e descrente &#8211; chamem de mal-amada, se preferirem &#8211; com os assuntos relacionados ao cora\u00e7\u00e3o, preferi n\u00e3o aguardar por esse espet\u00e1culo cheio de vontade pr\u00f3pria e sem data previamente agendada.<\/p>\n<p>Prefiro seguir minha vida sozinha a fazer parte de uma plateia sem ideia de quando esse show vai come\u00e7ar. Melhor se deparar com uma rom\u00e2ntica apresenta\u00e7\u00e3o itinerante. Vai que, em uma dessas andan\u00e7as solit\u00e1rias, voc\u00ea se esbarra com esse evento que nada tem de gratuito. Afinal, amor \u00e9 troca. Filosofia ing\u00eanua a de quem defende que est\u00e1 disposto a dar sem receber.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou m\u00e3e, mas arriscaria a dizer que somente os la\u00e7os de sangue, ainda assim de v\u00ednculos refor\u00e7ados por um cord\u00e3o umbilical, estabeleceriam o tal amor incondicional, sem qualquer tipo de escambo. O resto tem tabela de valores.<\/p>\n<p>A etimologia do verbo \u201crelacionar-se&#8221; j\u00e1 pressup\u00f5e conex\u00e3o. Algo ligado a outro. Um d\u00e1, outro recebe e vice-versa. Assim, caro Rubem Alves, concordo que ningu\u00e9m \u00e9 dono do amor alheio &#8211; ali\u00e1s, n\u00e3o se doma nem o pr\u00f3prio, sabido que o objeto amado pode perder o encanto\u00a0 por vontade alheia \u00e0 nossa -, mas n\u00e3o tente me convencer de que se apaixonar n\u00e3o tem custo. Na verdade, pode sair muito caro.<\/p>\n<p>Amar custa tempo, dedica\u00e7\u00e3o. Querer estar com algu\u00e9m \u00e9 organizar a lista de prioridades, \u00e9 abrir m\u00e3o de preciosos minutos da rotina que voc\u00ea considera a mais importante do mundo para dizer ao outro que ele est\u00e1 inclu\u00eddo nela.<\/p>\n<p>Escolher estar com algu\u00e9m \u00e9 deixar de lado uma s\u00e9rie de outras possibilidades, t\u00e3o boas ou at\u00e9 melhores do que a eleita. Isso tem seu valor. E sai uma fortuna quando machuca. Romance provoca dor quando acaba. Tudo que come\u00e7a termina, e o encontro pressup\u00f5e a separa\u00e7\u00e3o, ainda que se desconhe\u00e7a quanto tempo durar\u00e1 o intervalo entre um e outro. Fato \u00e9, que, ao fim,\u00a0 a conta chegar\u00e1.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem goste de receber e n\u00e3o quer dar. Meu caro, nem Rubem Braga seria capaz de transformar esse desejo em poesia. \u00c9 hip\u00f3tese que n\u00e3o se conjectura. Sendo assim, se n\u00e3o est\u00e1 disposto a pagar para ver, n\u00e3o ocupe uma das cadeiras desse ato no teatro que \u00e9 a vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o espere pelo amor, mas, se aparecer, aplauda, desfrute, sorria e permita que siga o seu rumo, em outro palco. Amor n\u00e3o \u00e9 alegria permanente. Para usufru\u00ed-lo, \u00e9 preciso saber a hora de deixar ir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No livro Ostra feliz n\u00e3o faz p\u00e9rola, Rubem Alves escreveu que &#8220;o amor \u00e9 algo que n\u00e3o se possui, jamais. \u00c9 evento de gra\u00e7a. Aparece quando quer, e s\u00f3 nos resta ficar \u00e0 espera\u201d. 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