{"id":383,"date":"2017-06-26T12:15:11","date_gmt":"2017-06-26T15:15:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=383"},"modified":"2017-06-26T12:15:11","modified_gmt":"2017-06-26T15:15:11","slug":"sabor-de-remedio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/sabor-de-remedio\/","title":{"rendered":"Sabor de rem\u00e9dio"},"content":{"rendered":"<p><strong><\/strong><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">N\u00e3o \u00e9 hist\u00f3ria que da\u00a0internet nem foi um amigo de um amigo que me contou. Um m\u00e9dico me garantiu: o a\u00e7\u00facar literalmente tem o poder de curar feridas. Falo dos gr\u00e3ozinhos brancos do a\u00e7\u00facar que voc\u00ea usa para ado\u00e7ar o caf\u00e9, de feridas sangrentas e de pele esfolada. A tese, defendida por alguns estudos, me explicou o doutor, \u00e9 a de que esse p\u00f3 m\u00e1gico teria efeito antimicrobiano, eliminaria as bact\u00e9rias, forneceria nutrientes para as nossas c\u00e9lulas respons\u00e1veis pela cicatriza\u00e7\u00e3o. Ainda secaria a ferida, absorvendo a \u00e1gua no local, acelerando a regenera\u00e7\u00e3o do tecido. O maior problema, talvez, seja o inconveniente de colocar e trocar o a\u00e7\u00facar no local, a cada hora. Fora que h\u00e1 formas mais pr\u00e1ticas, ainda que menos doces, de curativos e pomadas anest\u00e9sicas e antibi\u00f3ticas.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Fato \u00e9 que essa descoberta foi esclarecedora. Estava explicado por que doces e tortas s\u00e3o os melhores rem\u00e9dios para cora\u00e7\u00f5es partidos, mentes agitadas e esp\u00edritos entristecidos. Mas, na minha opini\u00e3o, os cientistas se esqueceram de acrescentar que o a\u00e7\u00facar ainda cicatriza feridas da alma. Compreendi por que em dias de solid\u00e3o um pote de sorvete, engolido aos engasgos, \u00e9 melhor do que muitas companhias e por que, em dias frios, chocolate quente aquece o corpo e tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o. A medicina, enfim, tinha me dado uma resposta plaus\u00edvel para a insanidade de comer uma caixa inteira de bombons depois de levar um fora, e depois comer mais uma por puro arrependimento de consumir a primeira.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Se pesquisadora eu fosse, arriscaria ir mais al\u00e9m. As comidas em geral debelam males de todas as naturezas. Diminuem a tristeza e aumentam a alegria. Sabores trazem boas lembran\u00e7as e nos devolvem tempos especiais. O sabor dos pratos, na verdade, temperam as manifesta\u00e7\u00f5es de afeto.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">No fim de semana, dormi na ch\u00e1cara dos meus pais que recebiam uma tia muito amada. No caf\u00e9 da manh\u00e3, ela fez o mesmo que fazia quando, na inf\u00e2ncia, eu passava as f\u00e9rias na casa dela em Minas Gerais. Cozinhou um ovo caipira e o deixou no ponto meio duro, meio mole. Quebrou a pontinha, jogou uma pitada de sal e pronto: naquele minuto, voltei \u00e0 minha primeira d\u00e9cada de vida. Confesso que, hoje, n\u00e3o recomendo ningu\u00e9m a comer um ovo semicru, culpa da chance contrair a bact\u00e9ria salmonella, comum nesse alimento quando n\u00e3o cozido. Mas preferi correr o risco de uma contamina\u00e7\u00e3o a perder a chance de reviver o paparico da tia.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Assim como me entreguei, nessa mesma visita, ao chamego da minha m\u00e3e pelo que ela servia \u00e0 mesa. Quiabo, angu de milho e galinha caipira, tudo para me agradar. Mais mimada ainda, ela me deixou quando perguntou se eu preferia feij\u00e3o inteiro ou mo\u00eddo. Quem ousaria negar que comida de m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 um f\u00e1rmaco e dos mais poderosos? Assim como a de av\u00f3, pelo menos da minha, que despacha qualquer estado de \u00e2nimo borocox\u00f4 quando me recebe em sua casa com uma panela de dobradinha fumegante. Ela, que n\u00e3o \u00e9 de abra\u00e7ar ou de beijar, me coloca simbolicamente no colo com o gesto de cozinhar aquilo que me apetece.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">E s\u00e3o tantas comidas milagrosas, que curam dias ruins, momentos dif\u00edceis. Que renovam alegrias, multiplicam as boas energias. No pior per\u00edodo que enfrentei na vida, volta e meia uma amiga me presenteava com um prato de docinho de leite ninho. Eu podia chorar enquanto os comia, mas aquilo funcionava mais que calmante. Algu\u00e9m tinha feito aquilo especialmente para mim, com a inten\u00e7\u00e3o de me ofertar amor em forma de doces.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Tenho dois amigos ga\u00fachos que tamb\u00e9m j\u00e1 demonstraram mais de uma vez tamanho carinho pela minha pessoa s\u00f3 por causa do card\u00e1pio escolhido. O primeiro deles acha insensatez um homem do Sul incluir coxinhas de galinha na lista do churrasco. Ele detesta prepar\u00e1-las, esbraveja, faz quest\u00e3o de deixar a contrariedade clara, mas todas as vezes em que fui convidada para ir \u00e0 casa dele, elas estavam l\u00e1, no ponto e deliciosamente temperadas. \u201cS\u00f3 por sua causa\u201d, ele diz.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">O meu segundo amigo, conterr\u00e2neo do primeiro, j\u00e1 mudou a receita de seu t\u00edpico arroz carreteiro s\u00f3 porque tenho birra de salsa e n\u00e3o a como nem como rem\u00e9dio. Ele n\u00e3o s\u00f3 retirou o tempero do prato como se lembrou de meu abuso por aquelas, aparentemente, inofensivas folhinhas, anos depois de ter cozinhado para mim pela primeira vez.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">E tantas outras del\u00edcias que me remetem a pessoas e a momentos especiais. Eu, que sempre pensei ter uma mente gorda, estava aliviada, ent\u00e3o, com tal revela\u00e7\u00e3o. Se o a\u00e7\u00facar seca feridas no corpo ao absorver a \u00e1gua das les\u00f5es na pele, tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pelo per\u00edodo de estiagem de l\u00e1grimas. N\u00e3o h\u00e1 choro que resista a uma torta de morango. \u00c9 bonita e gostosa demais para ofusc\u00e1-la com olhos emba\u00e7ados.<\/span><\/span><\/p>\n<p>Escreva: fsduarte@hotmail.com<\/p>\n<p>Facebook: (In) Confid\u00eancias<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 hist\u00f3ria que da\u00a0internet nem foi um amigo de um amigo que me contou. Um m\u00e9dico me garantiu: o a\u00e7\u00facar literalmente tem o poder de curar feridas. Falo dos gr\u00e3ozinhos brancos do a\u00e7\u00facar que voc\u00ea usa para ado\u00e7ar o caf\u00e9, de feridas sangrentas e de pele esfolada. 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