{"id":378,"date":"2017-06-18T17:53:44","date_gmt":"2017-06-18T20:53:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=378"},"modified":"2017-06-18T17:53:44","modified_gmt":"2017-06-18T20:53:44","slug":"africa-que-nao-se-registra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/africa-que-nao-se-registra\/","title":{"rendered":"A \u00c1frica que n\u00e3o se registra"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando sa\u00ed da antiga casa de Nelson Mandela, na periferia de Johannesburgo, fui surpreendida pelo abra\u00e7o de um senhor negro, muito alto, que me ofertava seu sorriso xadrez pelo efeito dos dentes remendados com peda\u00e7os de ouro. Ele queria se certificar de que eu estava feliz ao cumprir meu objetivo: visitar o local onde morou o maior \u00edcone pol\u00edtico da \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>Minutos antes, ele tinha presenciado minha estupefa\u00e7\u00e3o e minha rea\u00e7\u00e3o enfurecida diante do grupo de brasileiros que, ao acaso, estavam no mesmo tour que me levava a Soweto, o bairro negro sobre o qual todos os guias de turismo brasileiros faziam a ressalva de que \u201cn\u00e3o \u00e9 seguro visitar sozinho\u201d.<\/p>\n<p>Aquelas pessoas que me acompanhavam atravessaram o oceano para chegarem \u00e0 ponta do imenso continente africano; pagaram cerca de 40 d\u00f3lares para visitarem aquele bairro; enfrentaram quase uma hora de tr\u00e2nsito para estarem diante da casa em que viveu Mandela antes de passar 27 anos preso, e, ao chegarem l\u00e1, se satisfizeram com poses diante da fachada da humilde resid\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o, eles n\u00e3o queria entrar. Uns n\u00e3o queriam pagar os m\u00edseros cinco d\u00f3lares do ingresso. Outros, estavam com pressa de chegar a outro ponto tur\u00edstico, certamente para garantir nova foto, incrementarem o invej\u00e1vel \u00e1lbum de viagem e compartilhar nas<\/p>\n<p>redes sociais. N\u00e3o disfarcei meu descontentamento. Eu iria entrar de qualquer forma e que me esperassem. Estava ali para isso.<\/p>\n<p>Entrei. O quarto e sala que Mandela compartilhou com a primeira das tr\u00eas esposas e os tr\u00eas filhos est\u00e1 impecavelmente restaurado. Honras de todas as partes do mundo, dedicadas a Madiba, decoram aquelas paredes. N\u00e3o posso dizer se foi naquela pequena cama exposta que ele realmente descansou seu corpo de 1,87m; menos ainda se definiu algumas t\u00e1ticas de sua luta contra o apartheid naquela mesa de madeira sem qualquer charme.<\/p>\n<p>N\u00e3o me importava. Queria conhecer o bairro que abriga mais de 1 milh\u00e3o de negros de todas as classes sociais, separados pela quantidade de rands na conta banc\u00e1ria, mas igualmente unidos pelas feridas causadas pela segrega\u00e7\u00e3o que, por anos, os tratou como p\u00e1rias em sua pr\u00f3pria terra. N\u00e3o conseguia assimilar como algu\u00e9m poderia ser indiferente \u00e0quela realidade t\u00e3o carregada de sofrimento e de discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para aqueles meus companheiros brancos, privilegiados por poderem passar as f\u00e9rias na \u00c1frica, bastava um clique diante da placa que dizia que ali esteve Nelson Mandela. Precisavam apenas dos minutos suficientes para garantirem a melhor foto, sorridentes, naquele cen\u00e1rio, passado de tanta dor.<\/p>\n<p>Para mim, era inadmiss\u00edvel o desinteresse daquelas pessoas. Se preciso fosse, ficaria ali, sozinha no bairro que meu pa\u00eds alertou ser perigoso. Mas esperaram e visitei aquele min\u00fasculo local na gigantesca Johannesburgo.<\/p>\n<p>N\u00e3o fiz a foto diante da casa, mas sim l\u00e1 dentro porque sou, igualmente, uma turista exibida. Ao fim da minha quase odisseia, ainda ganhei, no abra\u00e7o daquele negro desconhecido, o que de melhor se pode receber em uma viagem: o acolhimento do seu anfitri\u00e3o e a permiss\u00e3o de sentir a alma de seu povo. Essa emo\u00e7\u00e3o, eu garanto, ningu\u00e9m ser\u00e1 capaz de registrar\u00a0nas fotos.<\/p>\n<p>Escreva: fsduarte@hotmail.com<\/p>\n<p>Facebook: In Confid\u00eancias<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Quando sa\u00ed da antiga casa de Nelson Mandela, na periferia de Johannesburgo, fui surpreendida pelo abra\u00e7o de um senhor negro, muito alto, que me ofertava seu sorriso xadrez pelo efeito dos dentes remendados com peda\u00e7os de ouro. Ele queria se certificar de que eu estava feliz ao cumprir meu objetivo: visitar o local onde morou o maior \u00edcone pol\u00edtico [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-378","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/378","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=378"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/378\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":379,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/378\/revisions\/379"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=378"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=378"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=378"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}