{"id":352,"date":"2017-05-01T13:51:33","date_gmt":"2017-05-01T16:51:33","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=352"},"modified":"2017-05-01T13:51:33","modified_gmt":"2017-05-01T16:51:33","slug":"quando-o-corpo-berra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/quando-o-corpo-berra\/","title":{"rendered":"Quando o corpo berra"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Sempre fui muito pudica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades fisiol\u00f3gicas do meu corpo. Sempre me envergonhei do funcionamento hidr\u00e1ulico e dos meus escapamentos internos. Mais vergonha ainda sempre me provocou aquilo que ele arremessa para o exterior. Talvez porque, desde crian\u00e7a, somos ensinados que todas as rea\u00e7\u00f5es mais humanas, comum a todos n\u00f3s, s\u00e3o tamb\u00e9m as mais instintivas, aquelas que mais nos aproximam dos bichos. Como o bicho-homem \u00e9 metido a maior sabedor da natureza, fingimos n\u00e3o termos desagrad\u00e1veis odores ou incontrol\u00e1veis rea\u00e7\u00f5es do organismo. \u00c9 todo mundo cheiroso, limpo e comandante dos pr\u00f3prios \u00f3rg\u00e3os.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Balela! A gente pode at\u00e9 saber como nosso intestino ou est\u00f4mago v\u00e3o reagir diante de uma situa\u00e7\u00e3o de press\u00e3o. Ou como nossa cabe\u00e7a ou nossa coluna v\u00e3o reclamar do peso da vida. Tamb\u00e9m se pode prever quando a bexiga se descontrola ou quando \u00e9 imposs\u00edvel silenciar ru\u00eddos vexat\u00f3rios. Mas a verdade \u00e9 que, se reconhecemos que nosso corpo responde \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es, nunca vamos poder dizer com qual intensidade ele vai se comportar diante delas.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Antes que o leitor considere o tema de hoje escatol\u00f3gico em excesso, tenho uma boa justificativa para a escolha. Fui fisgada pela sinopse do livro <i>Di\u00e1rio de um corpo, <\/i>assinado pelo fil\u00f3sofo franc\u00eas Daniel Pennac, considerado um dos escritores mais promissores daquele pa\u00eds. Fiquei curiosa quando disseram que ele contava a hist\u00f3ria de um senhor que tinha escrito um di\u00e1rio do funcionamento de seu corpo ao longo de toda sua vida.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Sim, ele deixou registrado todas as rea\u00e7\u00f5es sentidas, literalmente na pele, desde os 13 anos, quando descobriu que o corpo dele tinha vida pr\u00f3pria e esbravejava, reclamava ou agradecia por est\u00edmulos externos. No relato do personagem criado por Pennac, h\u00e1 muitos epis\u00f3dios que n\u00e3o s\u00e3o nada fict\u00edcios para todos os leitores: desde o arrepio causado por um cafun\u00e9 at\u00e9 as secre\u00e7\u00f5es e excrementos que o mais poderoso dos homens elimina.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Comprei o livro semana passada e confesso que estou nas primeiras p\u00e1ginas da obra, mas posso dizer que o tema ocupou meu pensamento nos \u00faltimos dias. Comecei a debater em sil\u00eancio com meu pr\u00f3prio corpo e tentar entender o que ele quer me dizer aos sussurros. \u00c0s vezes, fala manso, outras vezes berra. Muitas vezes, por\u00e9m, n\u00e3o escutamos. Emudecidas nossas emo\u00e7\u00f5es, \u00e9 o corpo que grita sem nos dar chance de cal\u00e1-lo. Ent\u00e3o, entendi por que eu n\u00e3o pude controlar meu intestino arredio quando me meti a participar de uma sess\u00e3o de tantra recentemente. Era meu corpo pedindo socorro, com medo da exposi\u00e7\u00e3o que aquilo poderia ser. Superado o susto, sobrevivi \u00e0s fantasias que rondam leigos, como eu, sobre o tema e minhas tripas se calaram.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Tamb\u00e9m compreendi por que sinto azia quando a chatea\u00e7\u00e3o n\u00e3o cabe dentro de mim. A tristeza quer ir embora a qualquer custo e sem poder de peg\u00e1-la com as m\u00e3os e jog\u00e1-la no lixo, meu est\u00f4mago tenta, literalmente, digeri-la e produz mais \u00e1cidos para acabar com a agonia. \u00c9 quase uma tentativa de sobreviv\u00eancia que me mata de dor.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Foi ent\u00e3o que entendi porque, quando crian\u00e7a, reclamava de uma misteriosa \u201cdor na barriga\u201d. Meus pais me levaram a todas especialidades de m\u00e9dico. Eles me reviraram, mas nunca encontraram nada que justificasse o inc\u00f4modo. Nem poderiam. A conversa era particular, entre mim e minha alma ansiosa, perfeccionista desde que me entendo por gente. A dor que eu sentia era a linguagem que ela encontrou para me pedir socorro ou para dizer: \u201cRespire, tudo tem seu tempo\u201d ou simplesmente \u201cRelaxe, garota\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">E tem tantas falas veladas do corpo humano. E n\u00e3o as ouvimos, mas as sentimos. Se algu\u00e9m ou alguma situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o me cai bem, certeza de sentir n\u00e1useas, ainda que n\u00e3o tenha comido algo que provocasse os rodopios internos. \u201cVomitar \u00e9 ser virado do avesso como uma sacola\u201d, definiu Pennac em seu livro. Sim, verter l\u00edquidos \u00e9 uma tentativa escandalosa que expulsar o que nos faz mal: comida, pessoas, sentimentos, n\u00e3o importa.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Nosso corpo \u00e9, por vezes, quase hist\u00e9rico. Por isso, melhor n\u00e3o ignor\u00e1-lo sob a pena de automutila\u00e7\u00e3o. Arriscaria a dizer que capaz de um suic\u00eddio emocional. Minhas v\u00edsceras ainda n\u00e3o chegaram a tal grau de comisera\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 vi amigo ser internado depois de atacado, repentinamente, por uma bact\u00e9ria que lhe provocou, aos 34 anos e sem antecedentes m\u00e9dicos, sintomas de um infarto. O exame mostrou uma fissura em seu cora\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de cicatriz causada pelo micro-organismo. Meu amigo, que estava sofrendo de amor n\u00e3o correspondido, logo entendeu o recado do \u00f3rg\u00e3o: ele estava, literalmente, partido.<\/span><\/span><\/p>\n<p>Escreva: fsduarte@hotmail.com<\/p>\n<p>Facebook: (In) Confid\u00eancias<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Sempre fui muito pudica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades fisiol\u00f3gicas do meu corpo. Sempre me envergonhei do funcionamento hidr\u00e1ulico e dos meus escapamentos internos. Mais vergonha ainda sempre me provocou aquilo que ele arremessa para o exterior. 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