{"id":336,"date":"2017-04-03T16:17:31","date_gmt":"2017-04-03T19:17:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=336"},"modified":"2017-04-03T16:17:31","modified_gmt":"2017-04-03T19:17:31","slug":"companheiros-de-viagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/companheiros-de-viagem\/","title":{"rendered":"Companheiros de viagem"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o conheci Mr.Paul. Talvez tamb\u00e9m tivesse me afei\u00e7oado a esse t\u00edpico americano, professor de f\u00edsica avan\u00e7ada, que acolheu a pretensiosa estudante brasileira. A menina, que mal falava ingl\u00eas, queria aprender os dif\u00edceis c\u00e1lculos, j\u00e1 bem complicados na sua l\u00edngua materna.<\/p>\n<p>O encontro entre mestre e aprendiz aconteceu duas d\u00e9cadas antes do dia da despedida. Mr. Paul repassava com a minha amiga o conte\u00fado dado, todos os dias, depois da aula. E ela aprendeu muito desde ent\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 a solucionar os mist\u00e9rios da f\u00edsica, como o valor de uma amizade.<\/p>\n<p>Foi assim at\u00e9 que ela voltou para o pa\u00eds onde nasceu. Os dois mantiveram muitos anos de contato por cartas, em uma \u00e9poca em que e-mail era facilidade que come\u00e7ava a chegar. A menina estrangeira, que foi fazer interc\u00e2mbio em Michigan, se casou, teve filhos. Mr. Paul envelheceu e se aposentou. Com a esposa, veio ao Brasil visitar a ex-aluna. Um dia chegou a not\u00edcia de que ele come\u00e7aria uma luta, de desfecho imprevis\u00edvel, contra o c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Foi quando minha amiga ouviu seu cora\u00e7\u00e3o. Ela estava de f\u00e9rias na Fl\u00f3rida com a fam\u00edlia e decidiu: deixou o beb\u00ea rec\u00e9m-nascido com o pai e os av\u00f3s, tomou um avi\u00e3o sozinha, enfrentou um voo de tr\u00eas horas para passar menos de 24 com o velho mestre, j\u00e1 muito doente. Quando ele foi lev\u00e1-la de volta ao aeroporto, disse que n\u00e3o poderiam se despedir demoradamente, pela dificuldade de estacionar por ali.<\/p>\n<p>O recado estava dado. Ambos sabiam que era a \u00faltima vez em que se veriam, e o longo adeus poderia antecipar a dor da eterna despedida. Ele morreu meses depois, e quase uma d\u00e9cada j\u00e1 se passou desde aquele dia.<\/p>\n<p>A anunciada partida de Mr. Paul me fez pensar que, de fato, nunca sabemos se aquele abra\u00e7o dado em quem amamos ser\u00e1 o \u00faltimo. Se haver\u00e1 nova chance de um outro beijo. E quanta gente se esquece disso e acha que &#8220;depois a gente se v\u00ea&#8221;, &#8220;deixa rolar&#8221;, &#8220;quando der certo&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 tempos, acredito que acaso tem mais a ver com interesse do que com sorte. Dia desses, fui convidada por uns amigos para ir a uma ch\u00e1cara, a 50km de Bras\u00edlia, no fim do dia de um domingo. Eu, que, de t\u00e3o perdida espacialmente n\u00e3o consigo nem compreender os comandos de um GPS, fui pedir para me explicarem como chegar a meu destino.<\/p>\n<p>Pela dist\u00e2ncia, perguntaram-me se valia a pena mesmo ir. Ent\u00e3o, eu me dei conta de que, com tanto relacionamento mantido virtualmente, d\u00e1 mesmo pregui\u00e7a perder uns minutos dirigindo para usufruir a companhia real de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguia compreender como uma pessoa poderia se importar com quanto eu gastaria de gasolina para aquele encontro, &#8220;s\u00f3 mesmo se valesse a pena&#8221;, houve quem dissesse. Como poderia n\u00e3o valer a pena estar com quem a gente gosta? Ali\u00e1s, s\u00f3 isso tem import\u00e2ncia nessa veloz viagem chamada vida.<\/p>\n<p>Sorte da minha amiga que n\u00e3o fez contas, as mesmas que aprendeu com o professor americano, para avaliar se deveria, ou n\u00e3o, pagar por uma passagem a\u00e9rea para visit\u00e1-lo. Sorte dela n\u00e3o ter calculado que as horas de viagem, e de espera no aeroporto, seriam mais longas do que as \u00faltimas da vida que desfrutaria ao lado dele.<\/p>\n<p>Lamento que h\u00e1 quem troque o prazer do contato f\u00edsico e do calor do toque por alguns m\u00edseros reais na conta ou por alguns epis\u00f3dios de Netflix. Prefiro pensar como diz a letra da m\u00fasica<em> Trem bala<\/em>, de Ana Vilela: &#8220;A vida \u00e9 trem bala, parceiro. E a gente \u00e9 s\u00f3 passageiro prestes a partir.&#8221; Assim, embarque em avi\u00e3o, v\u00e1 de trem ou de carro, n\u00e3o importa. S\u00f3 lembre-se de estar sempre muito bem acompanhado.<\/p>\n<p>Escreva: fsduarte@hotmail.com<\/p>\n<p>Facebook: (In) Condif\u00eancias<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o conheci Mr.Paul. Talvez tamb\u00e9m tivesse me afei\u00e7oado a esse t\u00edpico americano, professor de f\u00edsica avan\u00e7ada, que acolheu a pretensiosa estudante brasileira. 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