{"id":331,"date":"2017-03-27T12:37:58","date_gmt":"2017-03-27T15:37:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=331"},"modified":"2017-03-27T12:37:58","modified_gmt":"2017-03-27T15:37:58","slug":"o-menino-que-tinha-asas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/o-menino-que-tinha-asas\/","title":{"rendered":"O menino que tinha asas"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">O rapaz que realinha o sorriso com aparelho ortod\u00f4ntico, nunca tinha usado uma escova de dentes at\u00e9 os 10 anos de vida. Ali\u00e1s, tantas coisas ele n\u00e3o fez at\u00e9 chegar \u00e0 adolesc\u00eancia, quando saiu da gaiola, aos 16 anos. Ele nasceu em uma vila com nome de p\u00e1ssaro, mas nunca tinha voado. Chama-se Anhuma aquela terra, que, de t\u00e3o esquecida, nem se lembraram de acrescent\u00e1-la ao mapa do Brasil.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">O lugar fica escondido no interior do Piau\u00ed, h\u00e1 cerca de 500km da capital, Teresina. Ali, S\u00e1vio cresceu com mais dez fam\u00edlias apenas. H\u00e1 10 anos, ele andava descal\u00e7o, n\u00e3o sabia o que era banheiro e sofria mesmo quando as necessidades apertavam em dia de chuva ou na escurid\u00e3o do mato. A dieta do menino contempor\u00e2neo \u00e0 gera\u00e7\u00e3o fast food era \u00e0 base de frutas daquelas \u00e1rvores,do \u00a0milho plantado pelas m\u00e3os dos poucos\u00a0moradores e da carne dos animais criados ali.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Brincadeira de crian\u00e7a era tamb\u00e9m a sobreviv\u00eancia dessa inf\u00e2ncia meio ind\u00edgena, estacionada no tempo. A garotada ca\u00e7ava passarinhos com a \u201cbaladeira\u201d. Acertavam a presa e assavam o bicho de muitas penas e carne escassa. Em lugar que fartura passa longe, at\u00e9 pombo vira banquete. O cora\u00e7\u00e3o das aves era mi\u00fado disputado. Comiam cru, nos derradeiros pulsos. Conta a lenda de Anhuma que o pequeno \u00f3rg\u00e3o dava habilidade aos jovens atiradores para assegurar mais refei\u00e7\u00f5es.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Naquela Vila, n\u00e3o h\u00e1 dinheiro. A moeda de troca \u00e9 o suor do trabalho. Ali, como no passado de um Brasil escravocrata, h\u00e1 \u201csenhores da terra\u201d. E n\u00e3o se trata apenas de uma defini\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica. O poder dos donos das fazendas \u00e9 o de ser dono do lugar e das pessoas.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Eles mandam e o resto trabalha em troca de moradia e de comida. Para os vassalos do s\u00e9culo 21, sobram os restos dos animais que matam para a mesa farta do patr\u00e3o. A criatividade da car\u00eancia transforma v\u00edsceras em buchada, coisa que o paladar de S\u00e1vio nunca apreciou. Em \u00e9poca de abund\u00e2ncia, trocam a galinha que um cria pela verdura que outro planta. E assim v\u00e3o vivendo. Sem com\u00e9rcio, sem dinheiro, sem direitos trabalhistas.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">N\u00e3o conhecem vida diferente, por\u00e9m. S\u00e1vio, hoje com 21 anos, conta que assistiu \u00e0 televis\u00e3o pela primeira vez com 11 anos, na casa de uma vizinha sortuda que reunia todos os moradores da vila para ver aquela rotina t\u00e3o diferente, que outros levavam a poucos quil\u00f4metros. Estava acostumado a dormir em rede em uma casa de teto de palha, sem paredes. Quando descobriu o banheiro pela primeira vez, aos 14 anos, descobriu que privacidade, portas e divis\u00f3rias s\u00e3o verdadeiros privil\u00e9gios que ele desconhecia.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Aprendeu a ler quase sozinho. Quando dava, ia para a sala de aula improvisada, onde as crian\u00e7as de v\u00e1rias idades aprendiam as mesmas li\u00e7\u00f5es, sentadas no ch\u00e3o. O mesmo rapaz que hoje fala espanhol, franc\u00eas e est\u00e1 concluindo a faculdade.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">S\u00e1vio deixou Anhuma e os seus naquela sorte h\u00e1 cinco anos. A vida mudou pouco por l\u00e1, mas, ao menos, a av\u00f3 dele agora \u00e9 tamb\u00e9m uma senhora dona da terra em que vive. Ele veio para Bras\u00edlia com um parente com a promessa de estudar. Cumpriu o combinado. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">Quem o v\u00ea sempre bem-vestido n\u00e3o imagina que algumas roupas que ele usa s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, resultado dos estudos de moda. Quem nota seu estilo moderno sequer imagina que uma d\u00e9cada atr\u00e1s ele andava meio nu ou com roupas usadas que mandavam da capital do pa\u00eds.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Utopia, sans-serif\"><span style=\"font-size: small\">O, hoje, designer de moda n\u00e3o conta sua hist\u00f3ria com lamento. At\u00e9 gosta da excentricidade do destino que teve. Mais ainda da cara de espanto e das perguntas de curiosidade que desperta nos outros. Se orgulha das origens e tanto mais do que conquistou. Mas ele quer mais. O menino da cidade com nome de p\u00e1ssaro est\u00e1 ganhado asas maiores para decolar mais alto: \u201cSei onde quero chegar!\u201d \u00a0\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p>Escreva: fsduarte@hotmail.com<\/p>\n<p>Facebook: (In) Confid\u00eancias<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rapaz que realinha o sorriso com aparelho ortod\u00f4ntico, nunca tinha usado uma escova de dentes at\u00e9 os 10 anos de vida. 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