{"id":322,"date":"2017-03-06T18:29:43","date_gmt":"2017-03-06T21:29:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=322"},"modified":"2017-03-06T18:29:43","modified_gmt":"2017-03-06T21:29:43","slug":"estenda-os-bracos-para-o-abraco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/estenda-os-bracos-para-o-abraco\/","title":{"rendered":"Estenda os bra\u00e7os para o abra\u00e7o"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>Cresci em uma fam\u00edlia de poucos afagos. Trago uma gen\u00e9tica do &#8220;n\u00e3o me toques&#8221;. N\u00e3o concluo isso como um lamento ou com qualquer cr\u00edtica, mas \u00e9 algo que se repete por gera\u00e7\u00f5es. Quando abra\u00e7o minha av\u00f3, por exemplo, s\u00f3 sinto os tapas apressados dela em minhas costas, como quem diz:&#8221;Vamos acabar logo com isso!&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O mesmo acontece com meu pai, que fica im\u00f3vel quando o abra\u00e7o. Uma mistura de constrangimento, com a falta de jeito, e h\u00e1bito de ser enla\u00e7ado por bra\u00e7os alheios desde muito pequeno. J\u00e1 minha m\u00e3e, nos acostumamos aos beijos que s\u00e3o na verdade uma aproxima\u00e7\u00e3o de bochechas. Os l\u00e1bios s\u00f3 fazem o estalo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Talvez eu seja diferente. Preciso de bra\u00e7os ao redor do meu corpo, mas igualmente tenho dificuldade em faz\u00ea-lo. Essa semana, por\u00e9m, cheguei em casa tarde da noite e tudo que mais queria era ter algu\u00e9m para eu abra\u00e7ar e por quem eu fosse abra\u00e7ada. Quando assumi isso, ouvi que tal necessidade era se mostrar carente, dependente do outro em demasia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu j\u00e1 acho corajoso compreender que n\u00e3o somos autosuficientes. Assim, liguei para uma pessoa querida. Tarde da noite, ela estava pronta para dormir e pedi para que descesse at\u00e9 ao estacionamento do seu pr\u00e9dio s\u00f3 para que eu pudesse abra\u00e7\u00e1-la. Ela foi. E agradeci, com choro contido, literalmente, por aquele aperto f\u00edsico.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quem n\u00e3o precisa de um? Abra\u00e7o tem poder de juntar os cacos da alma. \u00c9 o momento que o outro sente seu odor. \u00c9 a \u00fanica chance de carregar o perfume alheio nos pr\u00f3prios cabelos, tamanha proximidade entre os corpos. Abra\u00e7o esquenta a pele, alivia a tens\u00e3o do pesco\u00e7o que se acomoda no cangote do outro e desacelera o cora\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Criadora da &#8220;Terapia do Abra\u00e7o&#8221;, Kathelenn Keating defende que abra\u00e7o \u00e9 curativo. Al\u00e9m de melhorar a autoestima &#8211; afinal, algu\u00e9m deseja se pendurar em seu pesco\u00e7o -, tamb\u00e9m emagrece &#8211; j\u00e1 que, com as m\u00e3os ocupadas e enroscadas em algu\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 como comer.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A Sociedade Brasileira de Intelig\u00eancia Emocional refor\u00e7a a tese e garante que se amassar mutualmente libera horm\u00f4nios de prazer e reduz estresse. Tudo por causa de bra\u00e7os simultaneamente estendidos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E, acredite, ningu\u00e9m est\u00e1 imune \u00e0 essa necessidade. No livro <em>O antrop\u00f3logo de Marte<\/em>, o neurocientista Oliver Sacks narra a hist\u00f3ria de Temple Grandim uma autista, que, como v\u00edtima dessa condi\u00e7\u00e3o mental, se tornava arredia a qualquer contato humano.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O especial funcionamento do c\u00e9rebro dessa engenheira n\u00e3o lhe roubou, por\u00e9m, as necessidades mais instintivas. Com intelig\u00eancia agu\u00e7ada, ela transformou uma calha de conter gado em uma m\u00e1quina compressora na qual ela se acomodava e ajustava a press\u00e3o para sentir a sensa\u00e7\u00e3o de um abra\u00e7o. Dizia sair mais calma dali e sentir-se tocada, j\u00e1 que o funcionamento de sua mente resistia que isso fosse feito por uma pessoa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por isso, ao terminar de ler todo esse devaneio, abrace os seu amigos, parentes, companheiros, colegas de trabalho. Entregue seu corpo e suas emo\u00e7\u00f5es aos bra\u00e7os de outro. \u00c9 sanador. Outra op\u00e7\u00e3o, pode ser ir para Nova York e encontrar um dos gatos sarados e sem camisa que carregam um cartaz em plena Times Square pedindo e oferecendo abra\u00e7os, &#8220;free&#8221;. Garanto, no m\u00ednimo, alguns minutos de divers\u00e3o e prazer. Al\u00e9m de uma bela foto, claro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Escreva: fsduarte@hotmail.com<\/div>\n<div>Facebook: (In) Confid\u00eancias<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cresci em uma fam\u00edlia de poucos afagos. Trago uma gen\u00e9tica do &#8220;n\u00e3o me toques&#8221;. N\u00e3o concluo isso como um lamento ou com qualquer cr\u00edtica, mas \u00e9 algo que se repete por gera\u00e7\u00f5es. Quando abra\u00e7o minha av\u00f3, por exemplo, s\u00f3 sinto os tapas apressados dela em minhas costas, como quem diz:&#8221;Vamos acabar logo com isso!&#8221;. 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