{"id":316,"date":"2017-03-01T13:12:22","date_gmt":"2017-03-01T16:12:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=316"},"modified":"2017-03-01T13:23:47","modified_gmt":"2017-03-01T16:23:47","slug":"em-dia-de-cinzas-queime-os-preconceitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/em-dia-de-cinzas-queime-os-preconceitos\/","title":{"rendered":"Em dia de cinzas, queime os preconceitos\u00a0"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>Sem o devaneio et\u00edlico, me mantinha s\u00f3bria naquele bloquinho da Asa Norte, me esquivando dos empurr\u00f5es de quem j\u00e1 estava com a dosagem de anima\u00e7\u00e3o calibrada pelo \u00e1lcool. Movia meu corpo ao ritmo do ax\u00e9, conhecido da minha adolesc\u00eancia, em passos autom\u00e1ticos. Era minha cabe\u00e7a que funcionava diante daquela cena do carnaval de Bras\u00edlia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mais atenta, eu estava aos foli\u00f5es e \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o de alegria deles do que \u00e0 minha pr\u00f3pria entrega \u00e0 m\u00fasica. Na minha frente, uma negra movia rapidamente, e com desenvoltura invej\u00e1vel, o quadril largo, que acomodava uma bunda avantajada. Lindo de ver o balan\u00e7o daquele corpo que, suponho, seja pesado em outras tarefas rotineiras.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outro homem, de silhueta desenhada pelo excesso de peso, dan\u00e7ava com lentid\u00e3o, talvez pelo tamanho da barriga exagerada, mas n\u00e3o menos alegria, ao som das marchinhas carnavalescas. Imagino, e pode ser preconceito meu, que em outro ambiente ele n\u00e3o se sentiria t\u00e3o \u00e0 vontade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ali, s\u00f3 eu reparava nele, ainda assim com olhar de quem se encantava com o respeito \u00e0s diferen\u00e7as que o carnaval pode trazer. Da mesma maneira que me chamou a aten\u00e7\u00e3o outro dan\u00e7arino, esse muito magrinho, completamente fora do ritmo, em passos curtinhos de quem n\u00e3o conseguia acompanhar o frenesi do samba. Quem se importava? A companheira dele parecia que n\u00e3o, e se deixava conduzir feliz, pela falta de talento do parceiro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o vi olhar de julgamento para os b\u00eabados ou para as mulheres com pouca roupa. Ignoravam a senhora de shorts muito curtos e de pernas de carne fl\u00e1cida de fora, que balan\u00e7avam quando ela, desajeitadamente, rebolava at\u00e9 o ch\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>S\u00f3 eu a observava, com o intuito de registrar na mem\u00f3ria aquela cena. Ningu\u00e9m mais se preocupava como ela demonstrava a alegria de estar ali. Do outro lado, um senhor e uma senhora com rugas e cabelos brancos, vestidos com a mesma blusa listrada, mostravam sintonia n\u00e3o s\u00f3 na fantasia improvisada. Eles sacudiam os corpos envelhecidos e encaixados, como s\u00f3 os que est\u00e3o juntos h\u00e1 muito tempo conseguem se ajustar com tamanha perfei\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu me perguntei se eles sa\u00edam sempre para dan\u00e7ar, se estariam sempre t\u00e3o relaxados diante de tanta gente com menos idade. N\u00e3o que eu ache nada de errado, mas essa permissividade, a coexist\u00eancia harm\u00f4nica entre gera\u00e7\u00f5es e aus\u00eancia de cr\u00edticas \u00e9 algo que pouco se v\u00ea, infelizmente. E \u00e9 uma das belezas dos dias de folia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Vi casal de mesmo sexo se beijar sem vergonha, sem medo do olhar alheio. At\u00e9 mesmo porque n\u00e3o havia olhar do outro direcionado aos que deixavam expl\u00edcita qualquer que fosse o tipo de rela\u00e7\u00e3o. Cada um estava mais preocupado com a pr\u00f3pria necessidade de se permitir e de extravasar a alegria contida pelas regras de quando acaba o carnaval.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;No carnaval tudo pode&#8221;, escutei mais de uma vez e refleti: &#8220;por que n\u00e3o pode sempre?&#8221;. N\u00e3o falo de exageros nocivos, exposi\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias, mas por que n\u00e3o aproveitamos, hoje, a Quarta-feira de Cinzas, para queimar e enterrar comportamentos engessados, moldados por regras antiquadas, sejam as pr\u00f3prias, sejam as do outro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Que cada um se vista como queira, que dance sempre o ano todo. Sem vergonha do corpo, dos trejeitos mesmo se forem sem jeito. Para os crist\u00e3os, a despedida da festa simboliza o momento de mudan\u00e7a de vida, de reflex\u00e3o de como a exist\u00eancia humana \u00e9 fr\u00e1gil e passageira. Sendo assim, mesmo que n\u00e3o compartilhe a mesma religi\u00e3o, pense que da vida s\u00f3 se leva o que se vive e tem prazo para acabar. Ent\u00e3o, n\u00e3o perca tempo e escolha o que deseja ter na bagagem: beleza, alegria e liberdade de ser e de aceitar o outro.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem o devaneio et\u00edlico, me mantinha s\u00f3bria naquele bloquinho da Asa Norte, me esquivando dos empurr\u00f5es de quem j\u00e1 estava com a dosagem de anima\u00e7\u00e3o calibrada pelo \u00e1lcool. Movia meu corpo ao ritmo do ax\u00e9, conhecido da minha adolesc\u00eancia, em passos autom\u00e1ticos. Era minha cabe\u00e7a que funcionava diante daquela cena do carnaval de Bras\u00edlia. 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