{"id":306,"date":"2017-02-20T10:19:21","date_gmt":"2017-02-20T13:19:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=306"},"modified":"2017-02-21T12:44:04","modified_gmt":"2017-02-21T15:44:04","slug":"ressaca-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/ressaca-real\/","title":{"rendered":"Ressaca real"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/02\/image.jpg\" rel=\"attachment wp-att-307\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-307\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/02\/image-300x300.jpg\" alt=\"image\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/02\/image-300x300.jpg 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/02\/image-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/02\/image-350x350.jpg 350w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/02\/image-550x550.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/02\/image-230x230.jpg 230w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/wp-content\/uploads\/sites\/23\/2017\/02\/image.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio, mas nem sempre percept\u00edvel, seja por distra\u00e7\u00e3o, seja por pura falta de sensibilidade: a vida \u00e9 orquestrada pela harmonia da dualidade. E foi nesse devaneio que comecei a tentar definir a minha experi\u00eancia de ter sido uma amadora rainha de bateria por um dia.<\/p>\n<p>Com penas na cabe\u00e7a e nas costas, mantive o equil\u00edbrio em cima dos saltos por nove horas. S\u00f3 n\u00e3o consegui coordenar bem o quadril. Dona de bunda farta, era peso demais para mant\u00ea-la contida em passos curtinhos, como pede o samba. N\u00e3o me importei. Eu abri os bra\u00e7os, rebolei, sorri muito. Era isso que eu precisava. Nada mais faltava para mim. Disseram que eu era rainha e acreditei.<br \/>\nMeus p\u00e9s ardiam no fim da noite. Minha cabe\u00e7a estava dolorida por segurar aquele arranjo imenso, feito originalmente para uma miss. Precisava tomar um banho para me livrar do cheiro do suor misturado ao da fantasia guardada por um ano. Da produ\u00e7\u00e3o, s\u00f3 restaram os c\u00edlios posti\u00e7os azuis, em cima da pia do banheiro.<br \/>\nCom o corpo exausto, percebi, j\u00e1 deitada em minha cama, que meu esp\u00edrito e minha cabe\u00e7a ainda estavam em ritmo do ziriguidum. Inquietos. Alvoro\u00e7ados. N\u00e3o consegui dormir. Comecei a chorar e s\u00f3 parei na tarde de ontem. N\u00e3o, eu n\u00e3o estava triste. Era um misto de al\u00edvio, de felicidade e tamb\u00e9m de saudade.\u00a0Resultado do antagonismo que \u00e9 a vida.<\/p>\n<p>Voc\u00ea sofre por ter sido t\u00e3o feliz e isso acabar de virar passado. Agora s\u00f3 restavam as fotos e as cenas registradas na mem\u00f3ria. Chorei por ter me permitido viver tal experi\u00eancia, muito mais profunda do que um aparente exibicionismo. Eu tive coragem de me arriscar, de me expor, e senti prazer nisso. Eu me senti viva.<br \/>\nEu estava anestesiada. Como dizia Osho, \u201ca alegria \u00e9 louca, e somente os loucos podem se dar o luxo de t\u00ea-la.\u201d \u00c9 um sentimento indom\u00e1vel, selvagem e que n\u00e3o conhece o controle. Assim ele definiu. E quem disse que minha euforia caberia em cabresto? S\u00f3 alguns privilegiados se permitem e eu fui um deles naquela tarde.<br \/>\nDe madrugada, chorei de emo\u00e7\u00e3o por ter sido acolhida pelos amigos, que, generosamente, compartilharam meu estado de \u00eaxtase. Sem cr\u00edticas, sem julgamentos. S\u00f3 me ofereceram elogios. Escolheram as hip\u00e9rboles para se referirem a mim: \u201cradiante\u201d, \u201cdeslumbrante\u201d, &#8220;diva\u201d ou \u201cdeusa\u201d. Assim eles me diziam. Como n\u00e3o chorar ao ter tanta gente amada alimentando sua felicidade?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu me emocionei por um gesto singelo, e tamb\u00e9m o mais pleno, que recebi nos \u00faltimos tempos. Um amigo especial, de longa data, enfrentou a n\u00edtida timidez \u2014 que lhe tinge o rosto da cor de sangue quando \u00e9 o centro das aten\u00e7\u00f5es \u2014, arranjou um tempo na agenda atribulada, deixou os filhos, a quem encontra em dias contados, s\u00f3 para me ver, por cinco minutos. Segundo ele, \u201cporque sabia que era importante para mim\u201d.<br \/>\nChorei, e ele achou que era por falta de contentamento. N\u00e3o, n\u00e3o era. Era por me sentir privilegiada por tamanho carinho, e, ao mesmo tempo, por lamentar n\u00e3o poder prolongar momentos como esse. Tudo \u00e9 passageiro, afinal. Mas eu n\u00e3o trocaria a intensidade da emo\u00e7\u00e3o daqueles minutos por dias insossos e turbulentos, como costumam a ser as conviv\u00eancias di\u00e1rias.<br \/>\nMinhas l\u00e1grimas tamb\u00e9m eram por ver meu pai ali, sem jeito, mas, ao mesmo tempo, envaidecido, pela filha aparecida, t\u00e3o diferente da personalidade dele. Afinal, os pais nos amam mesmo quando corremos o risco do rid\u00edculo. Elas escorriam ainda pela minha m\u00e3e, que olhava tudo sentada no meio-fio e fazia uma viagem \u00e0 pr\u00f3pria juventude, quando tamb\u00e9m gostava de se apresentar em p\u00fablico, mas n\u00e3o teve a sorte de ganhar a autoriza\u00e7\u00e3o dos pais dela para um dia pular carnaval.<br \/>\nChorei porque sorri demais. \u201cQuando a dan\u00e7a surge, voc\u00ea se expande, escancara as suas portas, chama os amigos, os vizinhos, e diz: \u201cVenham!\u201d. Mais uma vez me lembrei do mestre espiritual. Os que gostam de mim estavam l\u00e1. N\u00e3o me importa o que os demais pensaram. Quer dizer, s\u00f3 uma leitora que viu um v\u00eddeo no Instagram do nosso jornal e criticou o meu p\u00e9ssimo samba no p\u00e9. Ela at\u00e9 tem raz\u00e3o, mas tive que respond\u00ea-la que passista, eu n\u00e3o era, que n\u00e3o passava de uma jornalista feliz. Afinal, eu leio Osho, me esforcei para me libertar do olhar alheio, mas n\u00e3o tenho autocontrole de Buda.<\/p>\n<p>ESCREVA: fsduarte@hotmail.com<\/p>\n<p>FACEBOOK: In Confid\u00eancias<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u00c9 \u00f3bvio, mas nem sempre percept\u00edvel, seja por distra\u00e7\u00e3o, seja por pura falta de sensibilidade: a vida \u00e9 orquestrada pela harmonia da dualidade. E foi nesse devaneio que comecei a tentar definir a minha experi\u00eancia de ter sido uma amadora rainha de bateria por um dia. 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