{"id":28,"date":"2016-03-07T16:57:00","date_gmt":"2016-03-07T19:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=28"},"modified":"2016-04-14T17:59:47","modified_gmt":"2016-04-14T20:59:47","slug":"os-lindos-vao-para-o-inferno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/os-lindos-vao-para-o-inferno\/","title":{"rendered":"Os lindos v\u00e3o para o inferno"},"content":{"rendered":"<p>Tenho certeza de que a beleza deveria ser considerada um pecado capital. Ou melhor, teria que ganhar o t\u00edtulo de pecado universal. O primeiro de todos. Os demais seriam apenas decorrentes da lindeza em demasia. Cheguei a tal conclus\u00e3o depois de ver as rea\u00e7\u00f5es ouri\u00e7adas de homens e mulheres diante do sorriso perfeito e dos olhos claros do novo secret\u00e1rio de sa\u00fade do Distrito Federal, Humberto Lucena, empossado na \u00faltima semana. Pelas manifesta\u00e7\u00f5es na internet, poucos estavam interessados no curr\u00edculo do m\u00e9dico\/advogado, mas quase todos aprovaram a imagem do bonit\u00e3o. Com todo respeito \u00e0 dona do cora\u00e7\u00e3o dele, o mo\u00e7o \u00e9 bonito de verdade e joga por terra a tese de que beleza \u00e9 conceito subjetivo. Existem, sim, casos de unanimidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando se \u00e9 bonito demais, voc\u00ea se torna culpado pelo pecado alheio. A perfei\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo provoca inveja do outro. No fundo, todos querem ser admirados. A\u00ed, voc\u00ea passa a vida despercebido e chega um danado do rosto irretoc\u00e1vel e se torna merecedor de todos os olhares e coment\u00e1rios de outrem, sem precisar fazer absolutamente nada, apenas existir. Simetria da cara e contornos perfeitos do corpo provocam a ira de quem n\u00e3o teve a mesma sorte de nascer com gen\u00e9tica t\u00e3o privilegiada. Diante dos suspiros do companheiro (a), mobilizados pelo bonit\u00e3o\/bonitona ao lado, quem n\u00e3o fica com uma pontinha de raiva ou de ci\u00fame? Garanto que o (a) parceiro (a) do objeto de desejo tamb\u00e9m se corr\u00f3i por dentro ao ver que o amor dele (a) causa tanto alvoro\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A quase perfei\u00e7\u00e3o f\u00edsica desperta a lux\u00faria e o desejo. Ningu\u00e9m manda no pensamento do vizinho, muito menos o dono da beleza. Ele n\u00e3o tem como controlar os desejos que incita e vai ter que lidar com as miradas gulosas e lascivas. Fazer o qu\u00ea? H\u00e1 muito j\u00e1 virou clich\u00ea o ditado que diz que o bonito foi mesmo feito para olhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E h\u00e1 quem se torne v\u00edtima do pr\u00f3prio reflexo benfeito diante do espelho. Alguns n\u00e3o cont\u00eam o orgulho por terem tra\u00e7os desenhados com capricho. \u00c9 a\u00ed que vaidade vira um pecado, pode ofuscar outros predicados do lindo e limitar a personalidade da pessoa \u00e0 pr\u00f3pria imagem externa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O belo mobiliza. E n\u00e3o precisa se esfor\u00e7ar. Se h\u00e1 os que detestam chamar a aten\u00e7\u00e3o, essas pobres criaturas quase perfeitas n\u00e3o conseguem escapar dos olhares de admira\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m dos de \u00f3dio, de inveja, de cobi\u00e7a&#8230; Foram agraciados com um dos bens mais perseguidos pela maioria das pessoas atualmente: a simetria, a harmonia e a primazia das formas. Mas pagam o pre\u00e7o por terem sido escolhidos para exibir tantos atributos: ou os amam ou os odeiam. S\u00e3o sujeitos bin\u00e1rios: despertam a admira\u00e7\u00e3o de uns e a repulsa de outros. Afinal, belezura em excesso d\u00f3i.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A falta dela tamb\u00e9m provoca estranhas sensa\u00e7\u00f5es. Encontrei um amigo, logo depois de ele se sentar, durante um voo, ao lado de uma mo\u00e7a que definiu como \u201cnunca vi pessoa t\u00e3o feia na minha vida.\u201d O tom dele n\u00e3o soava como cr\u00edtica, mas tinha, sim, uma dose de compaix\u00e3o. Ele estava mesmo sensibilizado com a impossibilidade de atribuir adjetivos ao f\u00edsico daquela garota. Ao final da descri\u00e7\u00e3o da feia, me perguntou: \u201cEla vai encontrar algu\u00e9m que goste dela, n\u00e3o vai?\u201d, como se um amor pudesse compensar o fato de ela ter nascido sem atrativos, sem um sorriso encantador, sem os olhos chamativos ou sem um corpo invej\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o soube responder, mas, no fundo, torci para que a car\u00eancia de qualidades f\u00edsicas n\u00e3o fosse motivo para abalar a autoestima e o amor pr\u00f3prio da mulher da qual desenhei um rosto malfeito na cabe\u00e7a. Dizem que,\u00a0 para conquistar o amor e a felicidade, beleza pouco importa, mas, por outro lado, desconfio que n\u00e3o deva ser um problema ter nascido com uma apar\u00eancia acima da m\u00e9dia. Li uma frase, atribu\u00edda ao pensador alem\u00e3o Johann Wolfgang von Goethe, na exposi\u00e7\u00e3o ComCi\u00eancia, da artista Patricia Piccinini, cujo objetivo das obras \u00e9 justamente questionar \u201ca percep\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o do belo\u201d. Goethe dizia: \u201cBeleza \u00e9 um convidado bem-vindo em qualquer lugar.\u201d Acho que sou obrigada a concordar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho certeza de que a beleza deveria ser considerada um pecado capital. Ou melhor, teria que ganhar o t\u00edtulo de pecado universal. O primeiro de todos. Os demais seriam apenas decorrentes da lindeza em demasia. 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