{"id":271,"date":"2016-12-11T10:49:57","date_gmt":"2016-12-11T12:49:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/?p=271"},"modified":"2016-12-11T10:49:57","modified_gmt":"2016-12-11T12:49:57","slug":"de-mala-cuia-e-coracao-aberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/inconfidencias\/de-mala-cuia-e-coracao-aberto\/","title":{"rendered":"De mala, cuia e cora\u00e7\u00e3o aberto"},"content":{"rendered":"<p>Todas as vezes em que entro em um avi\u00e3o, me d\u00e1 um aperto no peito. Uma vontade louca de chorar. N\u00e3o \u00e9 medo das alturas, mas felicidade de ganhar asas. Eu me sinto, ent\u00e3o, pertencente ao privilegiado grupo das pessoas que podem ter a chance de conhecer lugares e se conhecer mais por estar neles.<\/p>\n<p>Viajar \u00e9 esquecer quem sou e testar quem posso ser. \u00c9 estar aberta ao imprevisto, ainda que se tenha tentado controlar todas as vari\u00e1veis de seguran\u00e7a e bem-estar. \u00c9 colocar em pr\u00e1tica a frase clich\u00ea que prega ser \u201cpreciso se perder para se achar.\u201d<\/p>\n<p>Mas nem sempre fui assim. A alma exige destemor para se entregar a destinos desconhecidos. Antes, decidia antecipadamente cada passo que daria em meus passeios. At\u00e9 o dia em que me perdi nas ruas de Santiago, Chile, com um amigo. Meu primeiro impulso foi dizer: \u201cVamos refazer o caminho de volta e recome\u00e7ar o trajeto.\u201d Foi quando ele me ensinou algo que se eternizou em minha mente: \u201cN\u00e3o volte ao ponto zero! Siga daqui em diante e descubra coisas novas.\u201d Relaxei a partir daquele minuto. Relaxei para sempre e transformei minhas visitas a outras cidades e pa\u00edses em possibilidades de surpresas.<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana, comprei a compila\u00e7\u00e3o das <i>Cr\u00f4nicas de Viagem<\/i>, de Cec\u00edlia Meireles. S\u00e3o tr\u00eas volumes em que a poetisa e jornalista transforma em deliciosos relatos suas andan\u00e7as pelo mundo. Em um deles, ela tenta traduzir a liberdade de percorrer outras terras: \u201cPorque viajar \u00e9 se entregar \u00e0 emo\u00e7\u00e3o que cada pequena coisa cont\u00e9m ou suscita. \u00c9 exportar-se a todas as experi\u00eancias e todos os riscos, n\u00e3o s\u00f3 de ordem f\u00edsica, \u2014 mas, sobretudo, de ordem espiritual. Viajar \u00e9 uma outra forma de meditar.\u201d<\/p>\n<p>E \u00e9 para esses perigosos e meditativos lugares que volto sempre que preciso reviver uma grande alegria. S\u00e3o esses momentos que me fazem me sentir viva, alimentar a alma e reconhecer a afortunada prerrogativa humana que \u00e9 ter compet\u00eancia de se relembrar.<\/p>\n<p>N\u00e3o trago fotos nem bibel\u00f4s. Carrego comigo o descanso do sol, aplaudido de p\u00e9, de Santorini; a dor de prazer nos p\u00e9s, depois de uma noite dan\u00e7ando salsa e que me obrigou a embarcar de Cartagena para o Brasil de chinelos; a emo\u00e7\u00e3o de escutar meu pai repetir: \u201cNunca pensei que um dia estaria na Tail\u00e2ndia!\u201d Para sempre, levarei na minha bagagem interna a ida ao zool\u00f3gico de Nova York, acompanhada de uma pessoa que me trouxe de volta a leveza da adolesc\u00eancia por uma tarde; o cheiro e o sabor das <i>medias lunas\u00a0<\/i>argentinas.<\/p>\n<p>J\u00e1 trouxe para Bras\u00edlia o apelo de uma cubana que queria trocar minhas sand\u00e1lias por sua \u00fanica moeda dispon\u00edvel: o artesanato que fazia. Nunca apagarei da mente o mar do M\u00e9xico nem os sabores daquele pa\u00eds. Preparo, em breve, minha mala para nova aventura. Sei o que levo comigo e quem sou ao embarcar no pr\u00f3ximo voo. S\u00f3 n\u00e3o sei o que trago na volta nem quem serei depois de aterrizar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todas as vezes em que entro em um avi\u00e3o, me d\u00e1 um aperto no peito. Uma vontade louca de chorar. N\u00e3o \u00e9 medo das alturas, mas felicidade de ganhar asas. Eu me sinto, ent\u00e3o, pertencente ao privilegiado grupo das pessoas que podem ter a chance de conhecer lugares e se conhecer mais por estar neles. 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